Segunda Parte — Da sala à cozinha Livro das Noivas · Capítulo 22 de 29
Obra Menu

Segunda Parte — Da sala à cozinha

Quando entrei na sala de Anita Mendes senti uma impressão deliciosa de alegria e de conforto.

A criada, uma suíça deslavada, de faces cor de nata e cabelo cor de milho maduro, apontou-me a melhor cadeira, cerrou os stores de seda branca e saiu discretamente. Olhei em roda: havia em tudo um luxo delicado, que não se impunha à vista de ninguém, nem fazia lembrar casas de outrem.

Sobre o parquet de mosaico, encerado, tinham posto a um canto um estrado coberto de um veludo persa cor de ouro e azul, e em cima do estrado um bronze artístico, uma encantadora Vênus negra, escultura de mestre, que deu àquele corpo de africana virgem, com a doçura da forma, a selvageria arrogante do modo e a inocência estúpida do olhar. Nas paredes vários quadros originais de pintores modernos, bem escolhidos. A mobília era leve, graciosa, fresca e disposta com graça. Um piano novo, de grande formato, tomava outro canto da sala, entre a estante de músicas e um divã, atrás do qual erguiam-se, de um belo vaso antigo, as hastes bem tratadas de uma planta exótica.

Anita veio encontrar-me embevecida diante de um quadro. Beijou-me com alegria. Era a primeira vez que eu a via depois do casamento; achei-a encantadora.

— Sabes? tu jantas hoje comigo! Vamos fazer música, recordar as nossas peças a quatro mãos....

— Teu marido gosta de música? perguntei-lhe.

— Muito! aprecia as artes e é um rapaz inteligente. Não imaginas como eu sou feliz! ele tem comigo todas as atenções e é de uma bondade! Vem ver a minha casa. Tudo aqui foi arranjado por ele! Eu teria mais dificuldade; não tinha prática... peço-te que repares bem em tudo... e que dês a tua opinião franca e sincera.

— A sala está encantadora.

— Todos dizem isso. Comprar mobília de sala não é coisa fácil.... Num país frio tudo se arranja bem, tapetes e estofos enfeitam a casa com facilidade; mas conciliar harmonia e graça em uma mobília própria para o nosso clima, é obra! Depois, para uma pessoa inteligente ou observadora, esta salinha é uma revelação. Concordas?

— Perfeitamente.

— Vê-se logo que mora aqui gente de gosto primorosamente educado, que ama os artistas e tem a alma tocada por uma ponta de poesia. Não há nada aqui para fazer vista; tem tudo outro intuito mais elevado. Estás reparando para as cortinas de renda, não é assim? pois olha que é de propósito! meu marido é um higienista, nem imaginas! Os reposteiros de reps, de seda, de lã, são ninhos de micróbios. A renda branca não; alegra o olhar e de vez em quando, zás! lava-se e engoma-se, e acabou-se a bicharia.

Passemos adiante.

Entramos num escritório amplo, iluminado por duas janelas largas, sem cortinas. Em cada canto uma estante de nogueira envidraçada, larga e baixa, continha cada uma cerca de trezentos volumes bem arrumados. Ao centro, sobre o parquet encerado e sem tapetes, assentava bem uma mesa quadrada, ampla, em que os papéis podiam ser manuseados à vontade. Uma cadeira de leitura estendia convidativamente os seus grossos braços de couro, e outras de diferentes feitios e tamanhos conservavam-se em grupos simétricos, bem arrumados.

Anita explicou: Meu marido tem muito método e muita ordem.

Gosta de estudar e de ler em sossego. Esta sala demonstra isso mesmo. Tudo aqui é sólido, simples, fresco e elegante.... Tem os livros catalogados; ajudei-o nessa tarefa, muito contente por auxiliá-lo e ouvir-lhe as explicações que me dava deste ou daquele autor.

Nesta estante estão só livros de engenharia e alguns aparelhos cujos nomes não decorei. Nesta estão os clássicos, começando por Camões, já se vê, o grande Camões, que eu não compreendia e que meu marido me tem ensinado a amar; também estão aqui, em baixo, num cofre, os manuscritos de algumas celebridades nossas e estrangeiras e algumas obras de ciência. Aquelas outras estantes são exclusivamente destinadas à literatura moderna, brasileira, portuguesa, francesa, etc.

Naquela estante estão de preferência poetas; nesta romancistas. Bem vês que assim ele não perde tempo em procurar uma obra qualquer. Os dicionários, livros didáticos, etc., têm todos lugares determinados: podemos ir buscá-los às escuras!

Conquanto te interessem os livros, vamos andando, sim?

Bem! cá estamos no quarto de toilette. Como vês, não é luxuoso, mas parece-me...

— Bonito.

— E é muito cômodo.

O quarto era amplo, com três janelas para o jardim, de paredes pintadas a óleo, num cor-de-rosa suavíssima. A mobília era leve, graciosa, composta de cinco ou seis peças — o guarda-casacas com o espelho, o guarda-vestidos, o toucador, uma cômoda e um divã. O lavatório era de água corrente, amplo e todo de mármore. Não rodava por ali nenhum tapetinho embirrativo, nem quebrava a harmonia do conjunto nenhum quadro a missangas nem flores de papel. Junto às janelas os jasmineiros emaranhavam as suas hastes em arrendados verdes, e um pé de murta fornecia aroma mais deliciante ao quarto que todas as essências de Guerlain expostas no toucador.

— Passemos agora ao quarto de dormir, disse-me Anita com um sorriso de ménagère satisfeita.

O quarto não era grande, mas fresco, bem iluminado por uma janela larga, sem cortinas. O chão, todo encerado, não tinha tapetes e nas paredes reinava a mesma simplicidade.

Como mobília a indispensável cama, criado-mudo e um cabide de pés, nesse momento espanado e desocupado, posto ali para receber à noite a roupa que despissem, o que é mais higiênico que deixá-la sobre cadeiras ou pendurada rente às paredes.

Um cortinado de renda branca enfeitava o leito, por concessão à coquetterie de Anita. Ela explicava:

— Num clima como o nosso convém que o quarto de dormir seja bem simples, para que o ar circule livre, levemente. Há pessoas que usam o toucador, com todas as perfumarias, no quarto. É um perigo. Os cheiros produzem enxaquecas, enjoos, tonturas, o diacho! Antes de entrarmos na sala de jantar quero que vejas ainda o quarto da roupa, que serve ao mesmo tempo para costura.... É aqui.

Entramos num quarto pequeno, com uma janela e uma porta. Todo o fundo era ocupado por dois grandes armários encaixados na parede. Um desses armários era destinado às roupas de lã, casimira, etc., que não estivessem a uso e que deveriam conservar-se ali durante o verão. Em baixo havia dois gavetões: um para cobertores, outro para travesseiros, almofadas, e mais coisas que não estivessem em serviço....

O outro armário era para vestidos, saias, roupas engomadas que não encontram lugar nos guarda-vestidos. Um gavetão desses era só destinado à roupa de cama e o outro à roupa de mesa.

— Isto facilita muito o serviço. Conheces nada mais amolador do que conservar roupas em malas? Aqui não tenho cuidado. No começo do inverno ponho cânfora, pimenta do reino e flor de esponjeira no armário de verão, onde escondo fatos leves de meu marido e os meus vestidos inúteis. No inverno abro o armário de verão e faço ao de inverno o mesmo que fizera ao outro.... Este armário estreito, vês? é em prateleiras. A de cima para remédios, as duas do meio para caixas de chapéus e as de baixo para calçado. Há ainda aqui este escaninho para a caixa de costura, cadarços, carretéis, etc. Gosto deste sistema, está tudo dentro das paredes; o quarto pareceria vazio se eu não pusesse aqui a mesa e a máquina de costura.

Entre este quarto e o da toilette não há, como vês, senão este cubículo, muito ventilado, onde guardo as cestas da roupa suja.

Efetivamente, na parede desse corredorzinho, não podendo haver janela, havia dois largos furos em losango, gradeados, por onde entrava ar e luz.

— Vejamos agora a sala de jantar.

— Não é grande....

— Mas é muito alegre! No Brasil parece que todos querem dar banquetes!...

A minha sala, na verdade, não é grande; mas não é tão estreita que não nos possamos servir e circular perfeitamente à vontade. O copeiro anda à roda da mesa quando jantamos e afirmo-te que não esbarra nos trastes.... Que te parece a mobília?

— Muito linda....

A sala tinha portas de vidro para o terraço cheio de plantas finas e com um viveiro de pássaros muito elegante e uma vista esplêndida.

— Voltaremos para uma palestra no terraço, disse Anita; vamos agora ver o resto. Aqui tens o quarto da criada, que é o último da casa. Temos quatro, como viste.

O quarto era pequeno, caiado, com uma janela, um cabide de prateleira coberto de chita de ramagens azul e branca, um lavatório de ferro com bacia e jarro de louça branca e azul, como a chita. A um canto, um baú para roupa branca e no outro canto uma bacia de ágata para banho, encostada à parede. No leito de ferro (os menos sujeitos às invasões de insetos e do pó) os lençóis, a colcha de chita e a fronha do travesseiro bem alisados e limpos. Aos pés da cama o enxugador do banho e junto ao lavatório a toalha de algodão para o rosto.

— É-me fácil exigir que a criada me traga isto sempre assim, observou Anita, porque sou eu que forneço tudo.

Temos agora a copa, que é, como a cozinha, de ladrilho e de azulejo branco. Estas duas pias são, uma para pratos, outra para xícaras e para copos. Em ambas água corrente, fria e quente. Como mobília, a mesa para depósito da louça. Nas paredes os ganchos niquelados para os panos de serviço. Agora a cozinha.

O fogão econômico tinha sido substituído por um fogão de gás, que brilhava com os seus metais escrupulosamente areados. Numa parede, em uma pequena prateleira de mármore branco, viam-se os potes de louça — do sal, da pimenta, da massa de tomate, etc.

Havia, na parte mais ventilada, em frente ao corredor, duas bacias de mármore, suspensas e cobertas com tampas de arame fino, para depósito de carne, de peixe ou de hortaliça. Assim os mantimentos não podiam ser tocados por insetos e eram perfeitamente arejados antes de entrarem na panela.

— Vacilei na escolha do material da cozinha, disse-me Anita. O cobre é mau. O menor descuido pode fornecer-nos um veneno que nos leve desta para a outra em momento inoportuno.... A ágata, conquanto seja leve e limpa, oferece o mesmo inconveniente. Quebrado o esmalte, o que se dá com facilidade, aparece a camada de chumbo assassino.

O barro é pesadão e leva muito mais tempo a aquecer. Optei pelo ferro, não estanhado nem esmaltado, mas confesso-te que não estou contente....

— Por quê?

— Acho-o feio. Repara que a bateria da cozinha está completa, parece-me que soube começar bem o meu mister de dona de casa... fui eu que determinei isto. Para uma família pequena creio que é quanto basta. Tenho oito panelas para gordura, incluindo a da sopa e as frigideiras do assado e dos ovos, uma só para leite, outra só para doce; uma chocolateira e todos os utensílios necessários; moinho para carne e moinho para amêndoas; facões, batedor de bifes, tábua e rolo para massa, batedor de ovos, carretilhas, pedra de amolar, almofarizes para temperos e para doce, máquina para café, e torrador, grelhas, peneiras, espetos, coadores, espumadeiras... eu sei lá! um arsenal inteiro! Mas não devemos ficar aqui todo o dia, vamos ver o resto.

A dispensa era de chão cimentado e paredes caiadas a branco. Além da janela tinha dois grandes buracos gradeados, de modo a estabelecer uma corrente de ar, nunca interrompida. As latas dos mantimentos eram suspensas do chão, sobre pés de ferro, e havia, além dos ganchos para toucinho e carne seca, um guarda-comidas pendurado do teto para depósito de salames, presunto, etc.

Em todas as dependências da casa notei o mesmo método e apuro; até em baixo, no quarto das trapalhadas, a que os franceses tão bem denominam de débarras, estava tudo em ordem. Tendo visto o banheiro, todo luzidio de mármores; o water-closet escrupulosamente limpo com o seu aparelho automático e um sachet de fleur de lavande na parede; depois de ter visto a pequena adega bem provida, e a saleta de engomado com a sua máquina, sua tábua e trempes bem dispostas, subimos para o terraço.

Anita fez-me ainda notar quanto era bem escolhido o canto da talha d'água com o filtro e entreteve-se a fazer-me um ramo de flores do seu jardim, pouco maior que a casa, que não era grande.

— Vives num paraíso....

— Vivo; mas a minha felicidade não vem disto, vem dele, que me compreende, me respeita e me ama. Quando eu me casei, não sei se te lembras, parti no mesmo dia para a roça, onde o meu marido assentava pontes e lançava trilhos para a estrada de ferro.

A casa que me esperava era rústica, velha, simples; ele espreitava muito receoso os meus movimentos. Atirei-me contente nos seus braços. Certamente que o teu amor e uma cabana não é só uma frase, quando se tenha vinte anos e o coração no seu lugar!

— Quando tiveres filhos....

— Já sei o que vais dizer! Não terei as coisas tão bem arranjadas... As mãozinhas trêfegas dos pequenitos desfolharão as flores, rasgarão os papéis... semearão brinquedos e desordem pela casa. Não faz mal. Eles que venham, eles que venham!... porque eu já os amo antes de os conhecer!

1/1
Menu

Fazer anotação