Segunda Parte — A cozinha
É da cozinha que muitas vezes depende a felicidade do homem!
Todos concordarão com isso, quando se lembrarem de que ela é o laboratório da casa, onde um químico desajeitado e ignorante, sob um avental, um bonnet e a denominação de cozinheiro, pode, à vontade, na maior boa fé, estragar-nos a alegria, o bom humor, afugentando a nossa adorada saúde à força de adubos apimentados e complicadíssimos, ou, o que é ainda pior, pela falta de asseio.
Aí está uma coisa, para a qual, na minha opinião, deveria haver uma escola, onde se aprendesse a cozinhar com limpeza, a pôr condimentos que tornassem saboroso o alimento sem o prejudicar na leveza, fazendo-o conforme as exigências do clima e a natureza dos indivíduos.
Essa escola formaria cozinheiros, como uma academia doutores, reclamando exames e conferindo cartas.
E nós, que exigimos de um médico o diploma que nos garanta a autenticidade do seu ofício, porque não o exigiriamos do cozinheiro, quando de ambos pode depender, e evidentemente depende, a nossa saúde?
Quantos benefícios resultariam disso!
Com o curso da escola, o cozinheiro saberia discernir com critério as qualidades e quantidades; teria noções de química que o habilitassem a substituir por outro o pesadíssimo, o brutal alimento com que se enche e amortece a população brasileira: o feijão, a carne seca, o cozido dariam lugar a coisas mais saudáveis, de muito mais fácil digestão; saberia melhor tratar da cozinha, temperar os guisados, arear os metais, desinfetar as panelas, pesar os mantimentos e, sobretudo, dar à sua profissão o cuidado, o amor, a atenção, que todo o artista deve ter pela sua arte.
Estou certa de que com esse sistema os habitantes desta bela terra seriam menos lúgubres, menos amarelos, menos cismáticos!
O nosso cozinheiro pode fazer-nos espirituosos ou estúpidos, segundo a sua vontade!
Quem nos diz, por exemplo, que a alegria do espírito, na França, não seja mantida pela sua cozinha?
Como seria, pois, benéfica a escola que reformasse a nossa mesa, tornando-nos ativos, risonhos e fortes!
Mas, infelizmente, não a teremos nesse gênero e resignamo-nos a ser envenenados consoante o capricho de qualquer mestre ramerraneiro e boçal.
Assim, fica comprometida a nossa posição de ménagères, porque, ai de nós, pouco ou nada disso entendemos também!
Somos, na maior parte, umas inúteis donas de casa!
É tempo de nos convencermos que a cozinha deve, muito especialmente, merecer o nosso zelo, a nossa mais escrupulosa atenção.
Aconselho a todas as que podem, ou têm a fortuna de ser bem servidas, o uso do fogão de gás, como o mais limpo, o mais cômodo e o mais higiênico.
Em todo caso, seja qual for o material empregado, a cozinha deve ser alegre e limpa.
Minhas senhoras! se gozais a rara ventura de ter uma cozinheira que traga as prateleiras bem forradas, as panelas luzidias, o fogão areado, o assoalho claro, a mesa bem lavada, o ramo de salsa mergulhado na água, previdentemente, tal qual a rosa do vosso porta-bouquet; se tendes uma cozinheira que conhece e trata convenientemente da carne, que a rejeita ou questiona se algum dia vem má, — se a tendes, conservai-a, a despeito de qualquer defeito de gênio, porque é rara, porque não vos arruinará, não vos fará dispéticas, tristes, amofinadas, sombrias e azedas.
Agora, se a vossa cozinheira for o que geralmente são todas por aí, tratai de a educar; e se porventura não atender aos bons conselhos nem for suscetível de emenda, nesse caso... resta-vos um único meio de salvação — despedi-la!