Primeira Parte — Concessões para a felicidade Livro das Noivas · Capítulo 8 de 29
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Primeira Parte — Concessões para a felicidade

Há algumas mulheres que desejam para esposos homens de inteligência inferior à sua. Julgam isso uma probabilidade de ventura, demonstrando assim um egoísmo quase grosseiro. Que prova isso? que a mulher quer dominar quand même, quer ser temida, quer ser respeitada pelo marido, não pelo amor, não pela sua fragilidade e doçura, mas pelo medo, o vergonhoso medo de ser mais ignorante e menos polido que ela.

A mim então parece-me que deve ser o contrário; que do lado do homem, o mais forte, o responsável, o chefe, é que deve estar, mesmo para alegria e conforto da nossa alma, a superioridade intelectual.

É o nosso esposo quem nos conduz pelo braço através dos caminhos da vida que a sociedade embaraça com os seus preconceitos terríveis; é firmado no seu nome, na sua honra, na sua dignidade, que o nosso espírito descansa e que nos vemos cercadas de respeito.

Tanto mais forte ele for, quanto mais admiração lhe teremos.

Os seus triunfos são as nossas alegrias; o seu êxito no mundo, o nosso orgulho; a sua inteligência e o seu renome, o melhor quinhão que a providência nos poderia atirar! São essas alegrias afetuosas as que mais prendem e docemente enlaçam os corações dos esposos.

Verem-se compreendidos e nivelados pelo amor, eis qual deve ser a aspiração de todos os casais.

Lembrei-me disso a propósito de uma senhora instruída, de quem o marido dizia, escrevendo a um amigo:

«... ela não me ama, nem me amou nunca, reconheço-o agora; e, como sabe muito mais do que eu, vivo envergonhado a seu lado. Chego a temê-la, e, conquanto a adore, arrependo-me de me haver casado! Estou numa situação melindrosíssima, porque, enfim, vendo-me obrigado a acompanhar minha mulher, sei mesmo que ela não me considera apresentável!»

Doloroso!

Ora, se essa mulher leviana tivesse procurado no casamento, não um marido rico e pouco instruído, mas um homem para quem o seu coração a impelisse unicamente, não teria feito melhor? Não reconhecerá que o seu capricho fez um desgraçado? Terá, apesar de tudo, alegria e sossego? Eis aí uma coisa que nem sequer eu posso imaginar! Ela realizou talvez o seu sonho, arrastou o marido pelas cidades da Europa: ele pagava, ela dirigia; ele admirava-lhe o espírito, ela achava-o fastidioso! E sempre vivendo juntos, ela dominando, ele obedecendo — nem um nem outro podiam ser felizes.

É talvez por isso que um adorável escritor francês recomenda muito às mulheres que não sejam perfeitas, aconselhando-as a guardarem ao menos um pequenino defeito que as ponha ao abrigo da proteção do esposo, o qual deve sempre ser, e deve sempre crer-se, o mais forte.

A respeito, conta ter visto em Hyères, na Provença, um magnífico jardim todo plantado de laranjeiras, convenientemente espaçadas, na melhor disposição. Não havia entre elas, diz ele, nem videiras nem árvores que as prejudicassem; somente ao longo das alamedas alinhavam-se pés de morangos, admiráveis, deliciosos e aromáticos.

Como se sabe, os morangueiros sarmentosos têm poucas raízes e espalham-nas à superfície, sem aprofundar os seus delgados filamentos. Entretanto, as laranjeiras começaram a enlanguescer e tornaram-se doentes. Ninguém supôs serem os pobres morangueiros o motivo da moléstia; as próprias árvores robustas, se as consultassem, não teriam certamente confessado ser a sua enervação devida a uma coisa tão pequena — mas o certo é que morreram....

Os morangos haviam sugado toda a seiva da terra!...

É preciso que nós, que somos, em força, comparáveis ao homem como a planta débil à árvore robusta, busquemos a sua sombra, não para o estiolar à custa da nossa vaidade, mas para dar-lhe maior glória com a nossa pequenez e vivermos em paz na sua proteção.

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