Segunda Parte — A mesa Livro das Noivas · Capítulo 14 de 29
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Segunda Parte — A mesa

LINHO alvo, flores frescas, cristais límpidos, porcelana e talheres bem tratados, constituem o principal elemento para tornar uma mesa atraente e risonha.

Não está só na quantidade nem mesmo na variedade do menu o encanto de qualquer refeição, mas sim na sua leveza, no sabor delicado dos seus alimentos e na maneira porque é disposta e servida. Certamente que não há nada que mais carinhoso olhar mereça de uma boa dona de casa do que a mesa e nada onde com tanta frequência sossobre a sua boa vontade.

Por desgraça, não temos por enquanto um mercado, onde uma senhora possa ir sem medo de se enxovalhar. E uma ménagère burguesa e sem fortuna, esbarra de vez em quando com a necessidade de ir ela própria fazer as suas compras. As vantagens são fáceis de prever economia, ciência dos preços da ocasião, e a faculdade de escolher a seu gosto sortindo a casa de alimentos frescos e saudáveis.

Um cozinheiro muitas vezes vacila na compra de uma ave mais cara, de uma caça esquisita, receando desagradar aos patrões e entrar a fundo nas despesas estipuladas; a dona de casa não conhece os gostos do marido, os dos filhos, e procura satisfazê-los com afã.

Trajada com uma toilette matinal e simples, ela segue, acompanhada pelo criado, por entre as alas de verdura, de frutas, de peixes, etc, parando aqui, ali e acolá, provendo-se dos ovos mais frescos, da hortaliça a mais tenra e nova, da carne mais sã. De carteira na mão, faz as suas contas, comprando por junto, examinando com atenção todas as coisas, sem medo de que olhos curiosos a tachem de impertinente ou ridícula! Tem consciência de que anda a cumprir um dever de ménagère e continua placidamente a assoprar as penas das galinhas, verificando se estão gordas, a erguer as guelras dos peixes, para saber se estão frescos, a revirar entre os dedos os pêssegos maduros para os não levar bichados ou podres para a sua mesa!

Um mercado amplo, arejado, sombrio e limpo é base indispensável para uma mesa higiênica e confortável. O nosso escolho está nisto: de que nos devemos servir de hortaliças e frutas que passam horas ao sol, apertadas em tabuleiros ou cestos quitandeiros, cuja limpeza não nos inspira confiança.

A fisionomia amável de uma sala de jantar contribui enormemente para o prazer da mesa.

Falo como se estivesse entre amigas, procurando embelezar e adoçar as atribuições caseiras, tornando simpática a vida e resignada a pobreza; por isso, pondo de parte descrições de mobílias caras, recomendarei unicamente às donas de casa que procurem envolver tudo em um ar risonho e próspero, que entre pelos olhos a dentro e revigore os espíritos cansados.

Quando uma sala de jantar não puder ter cristais e mármores encantadores, terá umas trepadeiras perfumadas e lindas às janelas, uma mobília leve e bem tratada, embora singela e barata, um canário gorjeador, um tapete do oleado em baixo da mesa, qualquer desses retoques, que fazem sorrir o barro vermelho das moringas dentre a folhagem das avencas, ou a doçura das rosas dentre o colorido das frutas.

Há uma forma sedutora de ser simples, tendo bom gosto.

Imaginemos sempre um hóspede inesperado, preparemo-nos assim, sem aumentarmos um prato sequer ao ordinário, mas tendo-o, mesmo por isso, bem feito, aprazível, bom.

Por mais modesto que seja um jantar, ele pode ser apetitoso.

A fumacinha azulada saindo em novelos pequeninos da singela sopeira de porcelana branca, porá no ar um aroma tentador e convidativo; a salada feita pelas mãos de uma das senhoras da casa, as frutas a mostrarem por entre a verdura das fruteiras as suas alegres cores, rubra, e dourada; uns pratinhos variados, ervas... ervilhas... cenouras... um legume qualquer, enfim, para excitar o gosto para a carne, uma costeleta de carneiro ou outra coisa que a cozinheira não tivesse trazido na véspera nem se lembre de trazer no dia imediato... ninharias, entradas no orçamento da despesa diária com boa tática administrativa... uma sobremesa delicada, um café saboroso, bebido em canequinha fina e com colher de prata.

Eis uma exigência esquisita, mas necessária afinal.

Ninguém nega a influência que tem no sabor de uma bebida o vaso que a contém.

O chá mais caprichosamente feito, perfumado, forte, deixa de ter sabor numa xícara grosseira e sobe o seu qualificativo a delicioso quando numa chávena leve, transparente, que nos faça levar em conta de perdão todo o preguiçoso prazer sentido e revelado pelas tão descritas fidalgas chinesas, que envoltas nas suas largas roupas de seda, com os pés em chinelos cobertas de arabescos, reclinadas indolentemente por detrás dos biombos fantasiosamente pintados, o sorvem, saboreando, a goles pequeninos....

O vinho! imaginem bebê-lo em porcelana... é o mesmo que dizer: comam o bom foie-gras em prato de cristal.

Os talheres?... dão um gosto especial à carne, à sopa, à fruta, ao doce, ao queijo, a tudo! Devem ser bem zelados, os talheres....

Não falta quem sustente que a mesa é a base da felicidade na vida do homem, e esses confessam reconhecer em Brillat-Savarin um sábio de belas teorias e fácil prática....

A alimentação influi no caráter, afirmam sábios; e mais ainda que no caráter é a sua influência poderosa na aptidão para o trabalho. Vá uma pessoa entregar-se a uma tarefa delicada, a um trabalho intelectual, a um estudo sutil, depois de um jantar grosseiro e pesado! A dificuldade da digestão produzirá o enervamento geral, embotando o cérebro e perturbando o pensamento.

A escolha dos alimentos deve, portanto, ser feita com inteligência e critério.

Disso resulta que toda a mulher deve ser um pouco cozinheira; que, do mesmo modo que sabe fazer o seu vestido de surah ou de linho, deve saber escrever uma carta, ler um livro, receber uma visita, ou fazer a massa dourada, macia e fina, de uma torta de aves, ou uns bons pastéis folhados....

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