Primeira Parte — Os livros
Os pais antigos proibiam a leitura às filhas, afirmando que os livros eram os piores inimigos da alma.
Para livrarem então as pobres inocentes de, por qualquer casualidade, estarem um dia em contato com tão perigosos conselheiros, faziam uma coisa que lá consigo julgavam muito acertada — não as ensinavam a ler! Era, evidentemente, o meio mais coercitivo.
Hoje em dia, o não saber ler é, felizmente, considerado uma vergonha, e não há uma pessoa que propositalmente condene os filhos a tamanha desgraça; agora, o que ainda há são chefes de família que abominam os livros, ordenando às filhas que não toquem nunca em semelhante coisa.
E que fazem elas?
Curvam-se submissas a essa ordem despótica? Mas a curiosidade excitada pela proibição? Mas o desejo aguçado pela curiosidade?
Isso, com que eles não contam, é que é um elemento de corrupção. As filhas começam a mentir-lhes, lendo às ocultas no seu quarto, de noite. Perdem assim as horas consagradas ao repouso, tão necessário à saúde; de manhã estão pálidas, abatidas, nervosas, alegando uma doença qualquer, como desculpa dos olhos pisados e do cabelo em desalinho; sentam-se à mesa sem apetite, com um modo pasmado, a alma suja pelas novelas prejudiciais, insalubres, recheadas de aventuras românticas e de heróis perigosos.
Ora, se o pai as acostumasse aos bons livros; se, em vez de os apontar como nocivos, os buscasse como profícuos, escolhendo-os criteriosamente; se lhes fizesse compreender as mais brilhantes páginas da história, se guiasse o espírito indeciso das crianças pelo caminho honesto da verdade e da franqueza; se as fizesse estudar e meditar bons autores, apontando-lhes belezas ou defeitos, e criando-lhes uma educação perfeitamente sólida, elas não leriam por certo contos mal traduzidos nem pouco morais e fugiriam espontaneamente de gastar o seu tempo e de estragar o seu gosto.
Quem está acostumado a uma leitura sadia, às obras dos mestres, não suporta a linguagem pervertedora dos romances maus.
Mas, desgraçadamente, nós não sabemos ler!
É raro encontrarem-se nas nossas salas duas senhoras que falem de literatura, mostrando interesse pelos bons autores, principalmente pelos do seu país! Do jornal leem o folhetim, isto é, o romance de enredo, onde as deleitam as cenas imprevistas, as astúcias de lacaios e de agentes falsos, os véus negros de adúlteras em entrevistas amorosas, e os lampejos de espadas no campo da honra!
Mas por que é que nos deixamos arrastar por uma torrente assim tão turva e tão falsa?
Porque, depois dos pais que não concedem um simples livro às filhas, estão os pais para quem isso é coisa perfeitamente indiferente; isto é, pais também culpados. Deste modo a família esgota em pouco tempo volumes tirados ao acaso da biblioteca, envenenando-se com todas as paixões de Montepin, e chorando em todos os duelos de Ponson du Terrail!
Qual desses dois pais será menos razoável?
Era o caso de responder como as crianças, quando alguém cai na parvoíce de lhes perguntar:
— De quem gosta mais, de mamãe ou de papai? e que elas respondem sem trepidar:
— Eu gosto mais de ambos!
Também nesses dois extremos ambos os sistemas são mais criminosos.
O livro é um amigo; nele temos exemplos e conselhos, nele um espelho onde tanto as nossas virtudes como os nossos erros se refletem. Repudiá-lo seria loucura; escolhê-lo é sensato.
A estante de uma mulher de espírito e de coração, isto é, de uma mulher habilitada a apreender e conservar o que lê; que souber que isso a instrui, a torna ata para dirigir a educação dos filhos, dando-lhe superioridade e largueza de vistas; a estante de uma mulher inteligente e cuidadosa, que ama os seus livros, não como um mero adorno de gabinete, mas como a uns mestres sempre consoladores e sempre justos, essa estante é um altar onde o seu pensamento vai, cheio de fé, pedir amparo numa hora de desalento, e conselho num momento de dúvida.
E o doce Michelet, o santo Michelet virá iluminar a sua ideia escura; ele lhe dirá: La femme est un autel; la femme est une école; e mostrar-lhe-á como e por que é um altar, como e por que é uma escola. Depois dessa exposição, ela há de compreender com maior lucidez e alegria os seus deveres de esposa e os seus deveres de mãe!
Spencer, Edgard Quinet, todos os que se curvaram para as crianças com um beijo ou uma esmola; todos os que apontaram à mulher o caminho da justiça, do amor e do bem, daí a guiarão através dos labirintos traidores da vida, sem hesitações nem temores.
Aprender para ensinar! eis a missão sagrada da mulher.
É preciso, para isso, que a sua leitura seja sã, bem feita. O gosto bem-educado transmitir-se-á sem mácula e sem esforço aos filhos.
Convençamo-nos de que o espírito, para dominar, deve ter sido dominado pela força suprema e bendita dos que são mais fortes ou trabalham mais.
Vamos! minhas amigas, comecemos a ler, mas com cuidado.
A mulher, que é o ente infinitamente melindroso, sensível, vibrátil, delicado, tem o dever de adorar a poesia.
Eu amo-a, e esse amor tem-me dado alegrias inextinguíveis.
Inextinguíveis, sim! porque o verso, que é a mais delicada e a mais formosa maneira de vestir a ideia, quando nos entra no coração aí deixa eternamente uma réstia de luz.