Segunda Parte — Os animais Livro das Noivas · Capítulo 16 de 29
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Segunda Parte — Os animais

DEPOIS do leão, o animal que mais interessa a meu filho é a baleia. Hoje pediu-me, pela centésima vez, que lhe descrevesse esse poderoso cetáceo, como respira, como cria os filhos, como se move na água, se dorme à tona ou nas profundas do oceano, e como vira os barcos e engole gente viva!

Em verdade, as mães deveriam saber tudo; porque a inquirição não cessa e do infinitamente grande estende-se até o infinitamente pequeno, numa cadeia lógica, ininterrupta de observações curiosas, que é doloroso não esclarecer de um modo positivo e perfeito.

Para dar a meu filho ao menos uma ideia do fundo do mar, abri o catálogo do aquarium de Nápoles, o mais belo que tenho visto, e mostrei-lhe as estampas, juntando-lhes as minhas descrições.

Notei que a criança deixava de olhar para o livro para olhar para mim, como se as minhas palavras lhe dessem uma ideia mais viva e mais exata das coisas, que as próprias gravuras. Os seus olhos iluminavam-se, ouvindo-me descrever os misteriosos encantos da flora e da fauna marinha, com as suas algas, os seus espongiários, as suas madreporas e moluscos, os seus variadíssimos peixes, os seus corais esgalhados, onde as ervas se enroscam e as aranhas fazem ninho, os seus crustáceos e répteis, as suas conchas formosas e de cores delicadas, a sua vegetação, as suas flores singulares, os seus ninhos suspensos de velhos esqueletos de plantas nuas, como ossificadas, as suas estrelas, os seus búzios, ou os seus pólipos, verdadeiras plantas animalizadas, abrindo-se em palmas da mais fina renda!

Ele acabou pedindo-me que mandasse fazer aqui no meu jardim um aquarium daqueles, mas onde coubesse também uma baleia!

Prometi-lhe levá-lo ao museu.

— No museu os bichos estão vivos?

— Não.

— Então....

Houve uma decepção no seu rostinho.

Realmente, bichos mortos pouco instruem as crianças porque nada as interessa. Entre um museu em que velhas jararacas, tigres empalhados, leões cheirando a naftalina, e outras feras de pose impassível e olhos de vidro se exibam, ou um jardim zoológico, em que esses mesmos animais ululem, berrem, rujam, se enraiveçam, infundam medo e respeito, vai a enorme diferença de tudo para nada, que tal é a da vida para a morte.

Eu sempre detestei os pássaros empalhados, os animais envidraçados, mudos e indiferentes.

Quando em criança me levavam ao museu do Campo de Sant'Anna o meu olhar roçava sem curiosidade por todas as aves, impaciente por não ver um frêmito nas suas asas, nem um lampejo nos seus olhos redondos.

Os animais grandes não conseguiam mais. Enfiar a mão na queixada de um crocodilo, passeá-la pelo dorso de uma onça não acordava grande prazer no meu espírito.

Eu bem via que o bicho estava morto; nem mal nem bem me podia vir de ali, e espreguiçava-se-me a vontade de o examinar.

Esse gosto para observações científicas é limitado a certo número de estudiosos; em todo caso, depois de transposta a quadra infantil. Eu saía do museu confusa. Mas se nessa tarde visse um animal feroz num circo, ou um pobre macaquinho na rua, lá ia importunar a mamãe com mil perguntas acerca da raça, dos costumes, dos gostos e até dos sentimentos desse pobre animal!

E o que acontecia a mim acontece a todas as crianças.

O rugido de um leão ecoando pelas alamedas de um jardim zoológico aguça a curiosidade e a vontade de o ver e de tornar a ouvi-lo. Por mais estúpida que a pessoa seja, vem a observação juntar-se ao instinto do respeito por aquela força formidável e imponente.

É por isso que o meu filho quer que eu tenha uma baleia viva em nossa casa! Como todos os da sua idade, o que lhe alvoroça mais a imaginação, é o que se passará em cima das nuvens ou em baixo das ondas....

Dói, a uma mãe carinhosa, não poder tudo iluminar, tudo fazer sentir, docemente, num desabrochamento de flor, a essas almas alegres, audaciosas e sonhadoras, de quem ela é a vigia e para quem olha em êxtase, como para estrelas que Deus lhe pusesse na mão e que o menor sopro possa extinguir!

A propósito de animais, convém dizer algo do cão. A literatura explora ainda com sentimentalismo banal a humildade e o grande apego do cão pelo seu dono, e o leitor escorre quase sempre uma lágrima terna sobre essas páginas em que o animal figura como um herói, santo, de coração magnânimo e espírito relativamente superior!

Os poetas comparam o seu olhar ao do Cristo, e nenhum devoto protesta contra a heresia, porque o povo ama o cão.

Eu, por mim, confesso ter por ele uma admiração medíocre. Não o aborreço, mas temo-o e não o quero em minha casa.

Não repetirei as asserções de Alphonse Karr, que o crimina como um exemplo terrível de baixeza degradante e de imoralidade, e o considera pernicioso numa casa de família.

Não. Eu acompanho a corrente de simpatia com que, aliás, olho para quase todos os animais e se não quero cães em minha casa, apesar de os achar bonitos e carinhosos, é por esta simples razão — tenho medo, medo da terrível hidrofobia, tão comum até em cães bem tratados.

Esta ideia assaltou-me depois de ter filhos e de ver chorar um velho por matar a tiro o seu cão predileto.

Desde então aflige-me topar nas ruas com os cães sem açaimo, e esta impressão de desagrado, que já agora não se desvanecerá, faz-me pena....

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