Primeira Parte — Belas artes
A casa do barão de X. é riquíssima e linda! percorri-a toda e fiquei deslumbrada.
— Sim? que tem de original?
— De original? nada... mas é muito bem guarnecida, boas mobílias, espelhos, alcatifas, reposteiros, grandes ramos de flores artificiais finíssimas, tudo do melhor, enfim.
— Viste por lá algum quadro, ou qualquer outro trabalho artístico?
— Não... a não ser os retratos a óleo dos donos da casa e duas oleografias da saleta, por sinal bem bonitas.
— Pois, minha amiga, venho também de uma casa, de onde não saí positivamente deslumbrada, mas com certeza muito satisfeita; e nota que não havia por lá damascos nem veludos, nem mobílias pesadas, de estofo caro; mas havia o que necessariamente falta na casa que acabas de citar: muita graça na disposição dos móveis, que não são ricos, meia dúzia de bibelôs graciosos, três quadros originais, umas cortinas leves, e a um canto, numa mesa de centro de sala, uma grande corbeille de flores... naturais. Na casa do barão haverá riqueza; na casa de onde venho há frescura, há gosto, há alegria, há o que o dinheiro não compra, e que é, portanto, de um valor extraordinário — o tino e o tato artístico.
E enquanto a minha amiga, aliás inteligente, relembrava com entusiasmo as molduras douradas e as sedas vieil-or do salão principesco do riquíssimo barão de X., eu lamentava que ela não tivesse tido a finura de se rir das oleografias exoticamente postas entre uns espelhos límpidos, sobre um papel de preço.
Desgraçadamente, a oleografia vai absorvendo e estragando o gosto de muita gente.
Até aqui ela figurava, com todo o seu horror de cores vivas, nos interiores burgueses e pobres; hoje atreve-se a penetrar na casa dos ricos e é comum nas dos remediados. Na sala da costureira de arrabalde ela tinha o seu lugar, sobre o sofá, onde o burguês endinheirado costuma pôr o espelho; mas, como é mais fácil perverter-se o gosto que educá-lo, houve quem quisesse imitar a costureira sem ter como ela a desculpa da falta de meios para adquirir coisa de maior valia.
Uma pintura original, uma aquarela, um busto, uma estátua, qualquer dessas divinas coisas que nos enlevam e nos consolam, que vêm trazer-nos do espírito do seu autor uma centelha que ilumine o nosso, um agasalho que envolva o nosso coração, como um bafo morno a uma ave friorenta, isso sim, que é digno de termos na intimidade da nossa sala de conversa ou de trabalho, sorrindo à nossa alegria, incitando o nosso esforço, espalhando sobre a nossa cabeça a vida que têm concentrada em si e que se difunde à proporção que mais as contemplamos.... Aquilo não foi trabalhado à máquina, num cálculo mercenário de industrial moderno; não vem com o carimbo chato deste ou daquele fabricante; não revela a sede de ouro, à custa de uma falsificação abominável; aquilo não é uma coisa banal, sem amor, sem vida; ao contrário, é uma alma, porque é a realização de um sonho, onde um pintor ou um escultor pôs o seu pensamento, a sua aspiração de glória, o seu carinho de artista!
Ter uma oleografia numa sala, dizia-me há dias meu marido, equivale a usar um pedaço de vidro verde, no anel, à laia de esmeralda....
Realmente, falsificar a arte equivale a falsificar a natureza!
Só os privilegiados da sorte podem reunir obras de arte formando galerias em que se aglomerem os quadros bons e os relevos de mérito; para esses o mundo é bem mais deleitoso que para muitos outros!
Quem ama as artes tem um ponto de luminosa ventura na existência, a rejuvenescê-lo, a transportá-lo de um país a outro país, de um século a outro século, de um sonho a outro sonho. Não caminha pela terra materialmente, carregando a vida às costas, como um fardo, e tem para o tédio um antídoto milagroso, que não falha nunca!
Sim, só os privilegiados da sorte podem adquirir quadros ou esculturas de mestres; serão os únicos que tenham esse ditoso convívio, mas, como não é só a esses permitida a entrada nas exposições de Belas Artes, vamos nós de vez em quando recrear nelas a nossa vista e educar o nosso gosto. Em Madrid, em Paris, em Londres, nas principais cidades artísticas da Itália, vi sempre muita gente nos museus, e, coisa encantadora, inúmeras velhas guiando e aconselhando crianças. Era a experiência apontando à curiosidade as belezas sutis que o seu olhar sozinho não poderia descortinar; era o amor da avó, tentando insuflar no adorado netinho a apreciação do belo, rasgando-lhe na alma a nuvem cinzenta da indiferença, para que o azul límpido do céu da arte aí penetrasse ampla e alegremente!
Essa multidão que se agitava em frente aos quadros, que os comparava e comentava com ou sem proficiência, em todo o caso com prazer, dava-me inveja de que na minha terra não houvesse a mesma curiosidade e o mesmo gosto.
Sorrindo a um quadro alegre, meditando sobre um quadro histórico, deixando-se embeber a alma na melancolia de um quadro fúnebre, que lições recebemos na nossa maneira de pensar e de sentir!
E que formosa e consoladora romaria era essa!
Que interesse pelos mestres, que respeito por tudo que é superior, digno e grande!
Como se pensa na hora misteriosa em que tal ou tal artista concebeu tal ou tal sonho! pensa-se depois nos dias febris, doentes, em que ele o executou, no delirante êxtase do instante em que visse completa, viva, eterna, a sua obra e o seu ideal! e, vibrando ao triunfo do artista, consagra-se-lhe em mente uma apoteose de flores!
Decididamente, minhas amigas, nós não temos educação! que diremos em frente de uma tela ou de uma estátua? qual será a nossa crítica? qual a nossa interpretação? qual a nossa maneira de ver?
Por maior que seja a intuição, escapam com certeza à vista detalhes e sutilezas que só a longa prática de observação, ou a voz autorizada de um mestre, ensinam a descortinar.
É tão puro, tão vasto, tão elevado o sentimento que a arte sugere, que é de caridade até insinuá-lo, fazê-lo buscado por toda a gente.
Felizmente, a nossa Escola Nacional de Belas Artes, sob o influxo inteligente dos artistas novos, instituiu com êxito as exposições anuais, que serão, estou certa, o início da educação do nosso gosto. São por enquanto modestas, essas exposições, mas também modesto é o nosso meio artístico. O tempo, o estímulo e a animação dos amadores farão que elas progressivamente aumentem de valor e de importância artística. Mas é já um consolo o sabermos que em setembro de todos os anos poderemos ter uma ideia do movimento e dos progressos da arte nacional; poderemos ir ali recrear a nossa vista e gozar das emoções que a arte produz em todas as organizações sensíveis.
Os pais não se devem esquecer de levar os filhos e as filhas, todos os anos, às exposições da Escola, que, más ou boas, pequenas ou grandes, são sempre um ótimo elemento de educação e poderosamente concorrem para o aperfeiçoamento e o desenvolvimento do espírito.
Ver bons quadros e ouvir boa música são gozos paralelos.
José de Alencar observa, em um dos seus romances, que o piano é para a mulher o mesmo que o fumo é para o homem — uma distração. Outros carregarão mesmo — um vício.
Ai de nós se não passasse disso! O piano batido por dedos negligentes ou estúpidos irrita como os maus versos, os péssimos quadros, tudo que em arte não passe de aleijão ou tentativa pretensiosa. Mas o piano dedilhado por mãos firmes e corretas, para quem o frasear da música não seja coisa banal, sujeita unicamente ao ritmo, será sempre o instrumento predileto em uma casa, por ser o mais perfeito e o mais completo.
Em uma família grande, onde haja meios para educar cada filho consoante as suas tendências, eu não vacilaria, ainda assim, em obrigar todos ao estudo da música, que tudo alegra e ameniza. O seu auxílio é sabiamente invocado nas escolas modernas. Os coros infantis bem organizados e dirigidos proficientemente afinam o ouvido, preparam terreno para as vastas culturas do verso e das harmonias. A música é, pelo menos parece-me, a arte mais amada do povo. Será a mais perfeita e a mais nobre? Não sei. Mas é a que maior número faz de felizes, e isso basta para que todos a amemos.
Ainda há poucos dias presenciei uma cena deliciosa. Uma senhora acompanhava ao piano os seus dois filhos: o rapaz tocava violoncelo, a moça tocava violino; e, no sofá, a avó sorria para os três, com a sua cabecinha branca muito trêmula e os olhos úmidos, nadando em sonhos que a música lhe sugeria.
E aquele alheamento da vida, aquele voo de alma, aquela abstração do sofrimento que toda a velhice arrasta, fez-me bater o coração e bendizer aquela música tão magistralmente interpretada, tão divinamente sentida!