Primeira Parte — Os pobres
Nenhum assunto pode ser mais próprio para a pena de uma mulher que a pobreza.
A nossa organização impressionável, sentimental, nervosa, esta pobre organização que tantas injustiças e tantos louvores tem provocado, faz-nos estremecer de piedade diante da miséria dos outros.
Ai, minhas amigas, eu bem sei que muitas de entre vós adivinham até a mais amarga pobreza, a que dissimula, que esconde uma lágrima num sorriso, um soluço num canto, e a que valeis solícitas, afastando ao mesmo tempo toda a lamentação que humilha e que o natural orgulho não comporta!
Essas, hão de sentir um prazer mágico, indefinível, socorrendo uma classe infeliz, que se oculta aos olhos estranhos, porque sabe que se aprofundaria ainda mais se transparecesse lá fora.
O contato dos pobres envergonha os ricos, como se pelas leis cristãs não devesse ser precisamente o contrário!
Não é meu intento falar agora de preconceitos sociais; o meu fito limita-se puramente a apontar uma das missões mais belas que a mulher exerce — a caridade.
É rara a senhora que não tem os seus pobres. Este velhinho aleijado, de olhar amortecido e longas barbas brancas, sabe que a uma porta jamais bateu debalde; ele aí vê sempre agradecido a mãozinha mimosa de uma menina que vem sorrindo bondosa, lá de dentro, trazer-lhe, cheia de carinho, a esmola, que já nem pede! O perfume suave dessa alma infantil inunda-o de consolo e ele a bendiz!...
As mães devem sempre dar a esmola pelas mãos das filhas, fazendo-as compreender dores alheias, respeitar a velhice, serem afáveis para com os inferiores, formando-lhes assim no coração uma fonte de inesgotável doçura. Devem ter sempre em mente esta dúvida apouquentadora: que lhes reservará o futuro? — e prepará-las para tudo, com o meio mais eficaz para exercitar o coração no bem — que é fazê-lo caritativo.
A propósito, lembra-me esta cena singela que me ficou gravada na memória:
Um dia, a Sra. L. chamou a sua Julieta e disse-lhe:
— Meu amor, está aí um pobresinho; que devemos fazer?
— Dar-lhe uma esmola.
— Mas teu pai levou todas as chaves, e não tenho nada!...
— Procure bem.... Ah! já sei! os seus brincos!
— Oh! meu anjo, replicou rindo a Sra. L., mas com que fico eu?
— Comigo, respondeu ingenuamente a pequenita.
— Não há joia que se te compare, mas não te posso usar nas orelhas, bem vês.... Depois, estes brincos foram-me dados por tua avó.... Procura mais.
E a pequenita, toda entristecida, respondeu:
— Não sei.
— Vai então dizer que tenha paciência.
— Isso não... coitadinho, tenho dó....
Depois, voltando-se, a uma ideia súbita, correu para o interior. Tornou um momento depois, risonha, triunfante, mostrando à mãe uma moeda segura na ponta dos seus dedinhos róseos.
— Fui pedi-la ao criado, murmurou ela ao passar rapidamente pela mãe, que a viu sumir-se como um raio de luz na sombria obscuridade do longo corredor.
Essas cenas vulgares demonstram clara, nitidamente, o fundo do coração de quem as executa. Um riso, uma lágrima, um movimento determinado pela inspiração do momento, diz tudo, principalmente nessa idade em que a alma desabrocha toda orvalhada do céu, sem afetada meiguice, nem fingida bondade.
A Sra. L. tirara uma brilhante prova da sua Julieta e estava contente.
Pudera não!
Imaginemos agora que uma infeliz viúva, gasta pelos trabalhos, canseiras da vida e fatalidades de uma sorte má, recebe, todas as semanas ou todos os meses, das nossas economias de meninas solteiras um pecúlio que, embora mesquinho, a faz, pela boa vontade com que é dado, extremamente agradecida. Essa pobre é uma velha, uma ruína; tudo nela inspira compaixão e inspira respeito. Acostumamo-nos a vê-la à nossa porta, a dar-lhe almoço, um xale, uma tigela de caldo ou uma saia usada; mesmo coisas que não nos fazem falta absolutamente.
Ela afeiçoa-se à gente, aquilo vai assim a pouco e pouco e, sem se saber como, criamo-lhe amizade também.
Passam-se semanas, meses e anos, e um dia, em que o nosso pensamento estiver todo absorvido numa felicidade intensa, quando sentirmos o coração palpitar jubiloso sob a alvura nitente do traje de noivado, não será então doce vermos, através do véu que nos cai sobre a face, o vulto engelhado e trêmulo dessa boa velhinha, a nossa protegida, que nos vem abençoar e dar os parabéns antes de nos ajoelharmos aos pés do altar?
Ela virá trazer-nos um raminho de flores mal amanhadas, e a boa recordação de que somos dignas da ventura que possuímos.
É quanto basta.
É tão bom concorrer a gente para aliviar um pouco da muita miséria que vai por esse mundo!
No Brasil a pobreza não apresenta, como na Europa, por exemplo, grandes quadros lúgubres.
Lá, nas grandes capitais, onde há acumuladas fortunas colossais e um luxo cintilante e esplendoroso, a miséria é maior.
Têm o seu inverno gélido; é a mesquinhez de salário que os acabrunha e mata; aqui, na terra da primavera eterna, só é verdadeiramente digno de lástima o que não tiver um resto de forças que o habilitem a lutar pela vida.
Feliz do que pode vencer a cruel pobreza, infeliz do que se deixa abater por ela. Em todo o caso, glória aos vencedores, e amor aos vencidos!