Segunda Parte — Horticultura
Venha ver a minha horta, disse-me um dia a boa D. Maria Sepúlveda, fixando em mim o seu belo par de olhos azuis, que eram, apesar dos seus setenta anos, como que dois pedaços de céu muito lavado e fresco, céu de primavera, enfim. Como fossemos vizinhas, a hora escolhida para esse passeio foi às sete da manhã.
Para entrar na horta tive de atravessar pelo interior da casa, já escrupulosamente asseada e em ordem. As janelas e as portas abertas inundavam de ar fresco as salas, quartos e corredores; vi assim de relance o quarto de D. Maria, com a sua cama à antiga, alta, cercada de folhos brancos, o travesseiro de linho sem bordado e sem uma ruga; o quarto do filho solteiro, o Eduardo, com uma pequena estante, cortinado no leito e flores no lavatório, tudo arranjado pelas mãos da mãe, que fazia daquele canto uma espécie de ninho virginal!...
— Ele vai às seis horas para a cidade; explicava ela, caminhando diante de mim, com uns passos ligeiros, movendo os largos quadris sob um avental cinzento que lhe encobria a frente da saia de merino preto. Baixa, gorda, ativa, risonhá, ela inspirava simpatia logo à primeira vista.
Na sala de jantar fizemos uma paragem; D. Maria, afastando a cortina de chita encarnada da janela, quis que eu apreciasse a vista da horta que se estendia a nossos pés como um tranquilo mar de um verde tenro e claro.
— Olhe para aquele lado, dizia a boa senhora, estendendo para a esquerda a mão cor de marfim, engelhada, gorda e curta; ali fiz eu este ano uma sementeira de ervilhas; veja como já estão bonitinhas!... quase da minha altura, as velhacas! Acolá é o batatal. Muita batata doce vou ter aqui este ano! Vamos lá abaixo.
Descemos.
A neblina tinha durado até havia pouco, e ao redor dos arbustos havia ainda como que uns nimbos, que o sol tingia de um amarelo transparente e claro.
Ajoelhado perto de um canteiro de nabos, um rapaz ainda imberbe e louro acabava de encher uma grande cesta carregada de hortaliça.
— Isso, Joaquim! bota-lhe bastantes nabos... e cenouras? já as apanhaste também?
— Ah! minha ama, elas estão tão escassas agora....
— Não faz mal! ele também gosta muito de cenouras... ora adeus! que se acabem! virão outras coisas.
— Isso é verdade, respondeu lorpamente o rapaz.
D. Maria, sorrindo para mim, ia dizendo:
— Todos os dias mando à minha nora uma cesta de verduras; ela distribui pela família, muitas vezes pelas amigas, e fica sempre com extraordinária fartura para si.... Meus filhos gostam muito de legumes, tanto o Luís, o casado, como este que mora comigo. É verdade! Ó Joaquim!
— Minha senhora?
— Você já levou ervas para o asilo?
— Já, sim, minha senhora, por sinal que o cesto ia bem pesado... só as abóboras!
— Foram as três?
— Sim, senhora; colhia-as logo que a senhora mandou.
— E repolho?
— Ah! isso não levei!
— Pois fez mal. Amanhã leve também repolhos....
D. Maria presenteava o asilo das meninas órfãs com um cesto de hortaliça, todas as manhãs.
— Aquele rapaz, continuou ela, é agora o meu hortelão. Quando veio para aqui não sabia nada! fui eu que o ensinei... é esperto e humilde; gosto bem dele!
A neblina ia fugindo, fugindo rapidamente; apareciam grandes manchas azuis aqui e acolá; o ar tornava-se mais leve e as folhas luziam aos raios já brilhantes do sol.
D. Maria, com os seus bandós brancos e ondeados a cobrirem-lhe as orelhas, o seu colarinho de irrepreensível alvura e o seu casaco preto justo ao corpo, parecia radiante, contemplando aqueles canteiros simétricos, compridos, que aproveitavam quase todo o terreno, deixando para passagens ruasinhas estreitas, onde uma pessoa não andava à vontade.
De vez em quando parava, e com o seu calmo e delicioso sorriso informava:
— Isto são aspargos... hortaliça muito delicada, mas que, infelizmente, não tem tido cultivadores no Brasil... estes transplantei-os no ano passado do viveiro.... Sabe como se cultivam aspargos?
— Não....
— Pois é assim: no segundo ano de semeados em alfobre, abre-se uma vala de uns cinquenta centímetros, mais ou menos, de profundidade, enchem-se quarenta centímetros de estrume e dez de terra, onde se deitam as raízes de espargo; no ano imediato surgem os brotos. O espargo tem a enorme vantagem de ser de produção permanente; à medida que se robustecem as raízes aumenta a sua quantidade. O que é preciso é de vez em quando reforçar-lhe o estrume.
Assim a boa senhora ia dizendo, à proporção que passava por um canteiro desta ou daquela verdura; que as alfaces, por exemplo, podem ser semeadas em quase todo o tempo do ano, sendo porém preferíveis para isso os meses de março a junho e de setembro a outubro; que o agrião pode ser semeado todo o ano; as abóboras em agosto, setembro e outubro, no minguante da lua; os brócolos, ou brócolos, de janeiro a abril; as cenouras, de fevereiro a abril e de agosto a setembro; as beterrabas, em março, abril, agosto e setembro; o aipo, de março a junho; as alcachofras, de março a maio, devendo preferir-se a multiplicação por meio de rebentos que nascem das raízes e que serão plantados à distância de quatro palmos uns dos outros; a azedinhá, em março, abril, setembro e novembro; a berinjela, em agosto e setembro; as cebolas, em março, abril, maio, agosto e outubro; a celga ao mesmo tempo que a alface; e assim a chicória; a couve-flor, de janeiro a maio; a couve galega, todo o ano; agora as couves-manteiga, lombarda, Saboia, murciana, rábano, etc., essas em março, abril, maio, setembro e outubro; a tronchuda, para produzir bem, deverá ser semeada em maio.
— E as ervilhas?
— Essas em abril, agosto e setembro. Espargos, em setembro e outubro; espinafres, em fevereiro, março, agosto e setembro; favas, em fevereiro, setembro e novembro; feijões, em fevereiro e março, e de setembro a novembro; rabanetes, todo o ano; pepinos e pimentões, de agosto a outubro; salsa, todo o ano; tomate, de junho a agosto; repolhos, em qualquer época, sendo a melhor de fevereiro a março, etc., etc.
Falou assim dos jilós, chuchus, quimbombô ou quiabo, maxixe, guando, etc.
Desfiava aquilo tudo sem trepidar, muito satisfeita, revirando nos dedos curtos um galhinho de hortelã.
Falou depois de melancias, que preferem terra arenosa; citou diversas qualidades de abóbora, de feijões; falou do repolho chato do quintal, do repolho de York, do de Bruxelas, do branco coração de boi, do de S. Diniz, do de Schuweifurt, do crespo de Milão, do pé curto da Holanda, do roxo grande, etc., etc.; perguntou-me qual era a meu ver a melhor alface: se a branca francesa, repolhuda, se a branca repolhuda da Batávia, se a crespa, ou se a romana!
Como me visse um pouco atrapalhada, murmurou:
— É assim; são raras as pessoas que se interessam por isto! e olhou maternalmente para a hortaliça; pois olhe, minha filha, que é uma grande coisa para a nossa casa uma boa horta!
Eu ganho dinheiro com isto, presenteio muita gente e tenho sempre os meus jantares variados! A erva é um belo alimento. Eu não como carne. Só a ideia de que mataram um pobre animal para meu gozo faz-me perder o apetite.
Os olhos de D. Maria tinham um brilho doce e uma calma expressão de sinceridade.
— Eu em moça cultivei flores, continuou ela; meu pai era floricultor; teve na sua pátria, como muitos dos seus patrícios — ele era holandês — a monomania das tulipas: eu degenerei, e tenho a mania dos nabos e dos repolhos! Consolo-me com já ter tido a da murta e a das violetas! Afinal de contas, todas são boas... se a do jardim é mais poética, esta é mais prática, e eis aí um equilíbrio! Depois, não sei se é ilusão da velhice, mas eu acho certa poesia nisto!
O olhar de D. Maria caía sobre os vegetais, numa grande ternura.
Já não havia neblina; o espaço, todo azul, estava de uma transparência encantadora. O cheiro do coentro, da alfavaca, da hortelã e da salsa, espalhava-se alegremente pelo ar. Uma ligeira brisa agitava as folhas prateadas das alcachofras, e as florinhas tenras e amarelas das couves.
Com as mãos cruzadas sobre o avental, a boa senhora murmurava:
— Não há dúvida! Positivamente há poesia nisto... pena é haver tão poucas mulheres que a saibam ver!