Primeira Parte — As joias
Talvez que uma das nossas manias mais características seja a das joias.
Neste formoso país do sol, onde as cintilações fervilham por toda a parte, nas asas espalmadas das borboletas e nas asas inquietas dos colibris; nos besouros verdes, azuis, vermelhos, cor de bronze ou cor de ouro; nas águas serenas dos lagos, onde se reflete o verdor opulento dos montes, ou na água movediça do mar, onde nada se espelha; neste país em que a natureza parece um sonho de delícia e de encanto; onde por toda a parte há faíscas brilhantes que saltitam sorridentes à nossa vista, aparecendo e desaparecendo, numa belíssima dança; neste país... parece que deveria haver uma certa indiferença ou cansaço que não deixasse sentir grande enlevo pelas rútilações das pedrarias.
Entretanto....
Entretanto o nosso olhar não se cansa nunca do fulgor das joias; há, entre elas e a gente, uma como que ligação magnética.
Fascinam-nos! Dominam-nos! Têm sobre nós o poder da beleza e da graça, de que abusam num despotismo feroz!
O primeiro brilhante! que deleitoso encanto! Cai como uma lágrima de alegria na nossa mão! De onde veio aquela lágrima? do céu talvez! de um lugar misterioso e divino, cheio de graça e cheio de luz!
Não supomos que coisa tão bonita tivesse vindo envolta nas areias pardas de um rio turvo!
O fundo do rio é lodacento, é frio; rolam nele os seixos grosseiros e as vegetações limosas, entre as quais se esgueiram peixes sem escama, escorregadios e moles!
Ainda se os brilhantes viessem a fluxo, rolando alegremente, de cachoeira em cachoeira, já lapidados, refletindo o céu e o sol, na doida sinfonia da alacridade e da luz! Então seria outra coisa! A imaginação da menina não atribuiria o seu primeiro brilhante, essa cristalização ideal, ao fragmento de uma mina reluzente, chispante, de um mundo desconhecido, esplendoroso e inacessível!
O primeiro brilhante! É afagado como um ser vivo, entra nos sonhos, interrompe o sono, atrai o olhar a todo o instante, e torna-se assim, não só por vaidade mas por uma imperativa tendência do organismo da moça, como que uma afeição!
A pérola, com toda a sua poesia e graciosa tristeza não seduz tanto.
Entra mais tarde nas predileções da mulher, quando o seu espírito já se não deixa levar pelo efêmero, o vistoso e o ornamental, e penetra no mundo da poesia e da meditação.
A pérola não diz nada aos olhos insaciáveis das crianças; não tem fogo, não tem centelhas; é, na sua opacidade enluarada, como a representação da morte! As outras pedras falam, riem, cantam, gritam no seu fulgor e no seu colorido; a pérola mostra-se impassível, amortalhada em tristeza!
Se o luar gotejasse, ela poderia parecer uma gota de luar cristalizada numa longa planície de gelo, de onde viesse rolando, rolando, rolando até nós! Do seio azul e profundo das águas, e do rochedo submarino escarpado e negro não parece filha! A sua beleza tem a doce tranquilidade dos que desconhecem a luta, a vitalidade e a força.
Deveria ser a pérola a joia das virgens; embeleza com doçura, tem o encanto da melancolia e da pureza. Silenciosa e linda, boia à tona de todas as pedrarias, como a formosa e loira Ofélia por sobre as águas, — pálida e morta!
Há quem adore a safira como o símbolo da beleza entre todas as pedras. Eu acho-a linda, mas taciturna: traz-me à ideia a gota de uma onda que tivesse afogado alguém. Prefiro o rubi. O rubi canta! É forte, é alegre! O rubi transparente, límpido, é como sangue moço, ou orvalho iluminado pela aurora, que esconde em si um gorjeio de ave, um aroma de rosa, uma palpitação de amor.
Vêm depois em cortejo as esmeraldas, esmeraldas sem jaça, luminosas e belas; os topázios rosados ou amarelos; as ametistas, de um violeta adocicado; as águas marinhas, de azul candidíssimo; as turquesas inexpressivas; as opalas láteas (a pedra dos poetas e do infortúnio); uma infinidade inumerável de pedras, rútilas, esplêndidas, que nos deslumbram a vista, que tintilam no nosso espírito, que ferem a nossa alma de gozo ou de inveja, que são causa de tanto bem, e que são causa de tanto mal.
Onda pérfida, fascinadora, quantos náufragos tens submergido na vida, e como triunfas poderosa e bela de todas as maldições que atiram sobre ti os avaros ou os pobres.
Quanta dor sofrida, quanto desejo sufocado, quanto desespero, quanta raiva e quantos crimes provocas, onda iriada, onda prismática, formosa onda de luz!
O gosto pelos ornamentos nasce com o homem. Os selvagens enfeitam os braços e o pescoço com toda a sorte de objetos, preferindo sempre os de cores mais vividas e garbosas. Um colar, umas pulseiras, uns brincos, eram muitas vezes motivos de morte e de guerra!
A civilização transformou o selvagem; poliu-lhe os sentimentos, modificando para o bem o seu gênio rancoroso e brutal. Mudaram-se-lhe assim radicalmente a opinião, a tendência, os hábitos e os gostos; só uma coisa persistiu, só uma coisa ficou tangendo nele a nota primitiva na mesma vibração estrídula e sonora: o amor pelos ornamentos, pelas bugigangas, pelos adornos coruscantes das pedrarias e dos metais!
Não há povo em que se não note, em maior ou menor grau, essa tendência!
E.... entre todos os povos, será talvez o brasileiro aquele em que esse gosto mais se exagere e acentue!
Ter joias não é fácil; usá-las com discrição é dificílimo, pelo menos pouco vulgar.
Há uma única joia, cujo uso constante não irrita os nervos: é o anel. Todas as outras têm um cunho mais espetaculoso e menos íntimo.
Ainda há bem poucos instantes ouvi eu esta frase:
— Os brilhantes devem ser usados como os adjetivos — com sobriedade.
Realmente é lastimável ver-se uma senhora em traje de passeio e com joias apropriadas para espetáculo ou baile. Meninas solteiras usando brincos pesados, ou pulseiras com pedras, carregando nas ruas uma soma fabulosa de joias que, se as crivam de cintilações e de luz, ridicularizam-nas, afastando-as da sua feição de candidez, simplicidade e graça nativa, que tão bem emolduram as raparigas adolescentes, viçosas de fresca e exuberante mocidade!
Até aos vinte anos uma rosa, um ramo de violetas ou qualquer outra flor, equivale a um diamante de preço. Para que o brilho emprestado de uma pedra fina, se os olhos da gente nova têm tanto lume, tanta expressão e tanto fulgor?
As flores foram feitas para a mocidade, quadra da suprema poesia e do mais doce perfume de existência.
As pedras... para a segunda quadra, isto é — para os dias em que o entusiasmo é mais prático do que imaginativo, em que já não há na mulher o mesmo desprendimento, a mesma sutileza, nem a mesma alma cândida e sonhadora que se aninha no peito das jovens.
Olha-se menos para a lua... e para as estrelas... e para as rosas; e pensa-se um pouco mais nos colares de brilhantes, que se enroscam como cobras fantásticas, mordendo a pele! e pensa-se mais nos brincos, que pendem das orelhas como duas gotas de luz inigualável! e pensa-se... que é bem feliz quem pode satisfazer o seu capricho colecionando safiras da cor do céu, ou rubis da cor do sangue!
Mas o tempo vai passando... vai passando... até que vem um dia em que toda essa onda de luz: branca, vermelha, azul, verde, roxa, amarela e rosa, já nada influi sobre o espírito cansado dos velhos, e que eles voltam a sentir maior prazer e doçura à vista de uma flor singela e humilde!
Entretanto....
Entretanto, as pedras continuam a sua obra de magnetismo e de domínio, empolgando imaginações e acendendo desejos.
Eu por mim, confesso, adoro-as! Mas desejaria que as minhas patrícias as usassem com um pouco menos de prodigalidade.