Primeira Parte — Falta de tempo Livro das Noivas · Capítulo 12 de 29
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Primeira Parte — Falta de tempo

Todas nós nos queixamos de falta de tempo. As horas voam, os dias sucedem-se sem que tenhamos completado, ou muitas vezes mesmo começado um projeto qualquer que nos interessa e desejamos executar.

A vida é curta; não cabem nela todas as obras que queremos fazer; mas com paciência e com método, duas coisas sem as quais nenhuma mulher pode passar, consegue-se, ainda assim, ver realizadas muitas das nossas vontades.

Suponhamos: gostamos de música, ou de pintura, ou de literatura; mas como estudar uma mazurca, desenhar qualquer coisa, ou ler um bom livro, se a terra não para um minuto, as horas têm asas e a casa precisa da nossa atenção continuadamente?

Só há uma regra que nos permite ter horas nossas, livres de grandes preocupações, e essa regra consiste unicamente nisto: uma boa distribuição de serviço.

A ordem e o método são às vezes coisas difíceis de adquirir, mas depois fáceis de conservar. Dependem de um esforço da vontade, de uma tenacidade sempre proveitosa, que vá corrigindo defeitos de educação e alargando a tranquilidade da nossa vida.

Criadas como princesas, entre o piano, as soirées e as toilettes, há muitas mulheres que levam para o casamento a falsa ideia de que a vida é uma sucessão de gozos ininterrutos. Mas a verdade, que é bom aprender cedo, é que toda a felicidade custa cara.

A paz, o bom humor, a saúde mesmo, obtêm-se em grande parte com a ordem. Infelizmente, a ordem não é fácil de estabelecer-se numa casa, desde que a dona não tenha bastante força moral, caráter firme, vontade ou educação metódica e perfeita.

Muitas mães poupam as filhas aos exercícios caseiros, dizendo: a experiência ou a necessidade as ensinará.

Mas a experiência e a necessidade ensinam com lágrimas, com batimentos de coração e arrepios de susto!

Todo o trabalho que não conhecemos, espanta-nos; e as coisas mais simples tomam proporções complicadíssimas.

Para sabermos mandar, é praxe velha, devemos saber fazer. Uma noiva, portanto, precisa meditar em que só a sua influência tornará o seu lar risonho ou triste e aperceber-se para criá-lo ameno e bom.

Todos os sonhos de amor douram misérias e iludem os espíritos.

As moças pensam que o futuro lhes guarda sempre flores imarcescíveis e estrelas de ouro sempre cintilantes, sem que elas tenham mesmo o trabalho de pedir a Deus que não emurcheça umas nem apague as outras!

Mas, minhas amigas, não vos esqueçais de que o homem é egoísta e autoritário e de que para fazê-lo feliz, como vos cumpre, tendes de renunciar ao doce ócio em que o vosso pensamento se balança e tê-lo sempre vigilante e ativo.

Há mil nadas sujeitos ao nosso exame, e, exatamente para facilitar o trabalho e dar ao espírito horas de lazer, é que os devemos sujeitar a um método rigoroso. Assim, tendo um lugar certo para cada objeto, o que evita a impaciência da procura, coisa terrível e abominável; tendo asseio, submissão ao relógio, para que tudo marche a tempo e a horas, e tendo distribuído o serviço com inteligência e justiça, parece-me que uma senhora excusa de abandonar o seu piano — por falta de tempo, como a maioria confessa.

Falta de tempo! É mal de que toda a gente se queixa, sem tratar de o fazer render, deixando-o fugir, como água por entre os dedos!

Conheço uma moça que estabeleceu em casa tabelas para o serviço da semana. São três: uma para a cozinheira, com os menus determinados, dias de lavagem do assoalho, de portas e de janelas, polimento do fogão, torneiras, etc. Esta é, naturalmente, a tabela mais sujeita a alterações, porque nem sempre se encontra no mercado o gênero procurado. Em todo caso, poupa o trabalho de pensar, ou de repetir muito um prato qualquer.

A segunda tabela é para o copeiro. Além do serviço da copa, limpeza de botas, etc., que é todos os dias o mesmo, estão nela marcados também os dias de lavagem destes ou daqueles compartimentos, de vidros, lampiões, armários, de passar óleo nos móveis e arear os metais, tendo ainda a obrigação de regar todas as tardes o pequeno jardim de que a própria dona trata.

A terceira tabela pertence à criada e determina, além do serviço diário da limpeza do quarto, da toilette, e do passeio matinal com as crianças, o seguinte método: segunda e terça feira lavagem da roupa das crianças; quarta feira examinar e consertar roupa branca, pôr ao sol fatos de casimira, botinas, tudo que for sujeito ao mofo; quinta feira passear com as crianças; sexta e sábado passar roupa branca e engomar. Domingo livre.

O tempo ou a necessidade de serviços extraordinários alteram por vezes essas regras. Em todo caso, a maior parte das vezes executam-se as tabelas, e a dona da casa, o tempo em que deveria estar a dirigir ou inventar serviços, ocupa-o em estudar placidamente os seus noturnos de Chopin, certa de que o dinheiro com que paga aos seus fâmulos, é bem compensado....

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