Segunda Parte — As aves Livro das Noivas · Capítulo 17 de 29
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Segunda Parte — As aves

MICHELET, o consolador, o justo, o bom Michelet, que tantos e tão bons conselhos deu aos homens, voltou um dia o seu olhar de pai para os pássaros e escreveu-lhes a história, longa e ternamente, mostrando a sua superioridade, o seu mérito, o seu grande valor.

L'oiseau é um livro deliciante, inocente, casto, bom.

Ensina a amar, a ver nessa legião boêmia que chilreia nas árvores, nos telhados, nas florestas, sobre o manto fofo das gramas ou sobre as águas profundas do mar, exemplos de firmeza, de amor e de abnegação.

Mais constante que o homem, o pássaro dispensa sempre à sua companheira uma solicitude e um auxílio extraordinários. Ajuda-a, como toda a gente sabe, a escolher os materiais para o ninho, e ajuda-a depois a fazê-lo e a vigiá-lo. É um guarda carinhoso, um amigo previdente, um defensor arrojado.

Entre os pássaros há também paixões, assaltos e ataques, lutas e guerras; mas por que? porque há alma, e onde existe o sentimento aí encontraremos a dor.

E quem negará o sentimento às aves? Quem desconhecer a já proverbial tristeza da viuvez da rola, quem não observar o poema de amor que um ninho encerra, quem não detiver um pouco o olhar nesses quadros fugitivos e inolvidáveis que se passam todos os dias no beiral de um telhado, em que se agrupam umas camachirras modestas, ou nos galhos das árvores, em que temporariamente habitem outras aves quaisquer.

Traduzir os seus cantos, hinos ou queixas, é que não sabemos, desgraçadamente.

Michelet interpretou os que ouviu e conta-nos os seus dramas íntimos, os seus suspiros e melancolias; mas Michelet era europeu. Cantarão as aves da França como as da América?

Provavelmente não; serão por isso diversas, mais acerbas ou menos intensas as suas mágoas ou as suas alegrias?

Quem nos dirá?

Imaginem que deliciosos poemas nos daria quem estudasse com atenção as aves do Brasil e as descrevesse com carinho! A maior parte delas são-nos desconhecidas, e entre essas quantas haverá que, trazidas e habituadas aos nossos lares, nos fossem proveitosas e agradáveis à vida!

Seria ocioso transcrever para aqui algumas das páginas que a respeito da caça escreve Michelet. Esse livro de paz, de amor, de caridade, deve ser lido inteiro por todas as mulheres de coração, para que, ensinadas, aperfeiçoadas por ele, vão afastando do espírito dos filhos o gosto pela caça, esse divertimento bárbaro e imoral, porque é o extermínio do fraco pelo forte.

Em todo caso não me furto ao prazer de traduzir um aqui pequenino trecho de L'oiseau.

Ei-lo:

« O homem nunca teria vivido sem ave; só ela o pôde salvar do inseto e do réptil, — mas a ave teria vivido sem o homem.

« Ou houvesse homens ou não, a águia reinaria do mesmo modo, entronizada nos Alpes. A andorinha nem por isso faria menos a sua migração anual. A fragata, não observada, librar-se-ia no mesmo voo sobre o oceano solitário. Sem esperar auditor humano, o rouxinol na floresta, com mais segurança, cantaria o seu hino sublime. Para quem? Para a sua amada, para a sua ninhada, para a floresta, para si mesmo, enfim, que ele é o seu mais delicado auditor.

« Este nosso livro é de paz, escrito precisamente contra a caça que odiamos. Caça à águia e ao leão, estamos por isso mas nada de caça aos fracos.

« A fé religiosa que temos na alma e que aqui ensinamos, é que o homem há de pacificamente reconciliar toda a terra, há de chegar a persuadir-se, pouco a pouco, de que todo o animal adotado, domesticado, ou trazido ao menos ao grau de amizade ou de propinquidade de que a sua natureza for suscetível, lhe há de ser cem vezes mais útil do que morto.

« O homem não será verdadeiramente homem, senão quando trabalhar seriamente no que a terra dele espera, na pacificação e reconciliação da natureza viva.

« Mal hajam os povos ingratos!... E, com isto, queremos dizer os povos caçadores que, sem recordarem tantos bens que devemos aos animais, têm exterminado a vida inocente. Uma sentença terrível do Criador pesa sobre as tribos de caçadores: Elas não podem criar nada. Indústria, arte alguma saiu delas. Nada têm ajuntado ao patrimônio hereditário da espécie humana. De que serviu aos índios da América do Norte o serem heróis? Não tendo organizado nada, não tendo feito nada duradouro, estas raças, de energia única, desapareceram da terra, em presença de homens inferiores, os últimos emigrantes da Europa.

« Não acrediteis neste axioma — os caçadores tornam-se, pouco a pouco, agricultores. Nada; eles matam, ou morrem. Este é todo o seu destino, vemo-lo bem por experiência. Aquele que tem matado, matará; aquele que tem criado, criará. Com a necessidade de emoções, que todo o homem traz em si, ao nascer, a criança que se satisfaz habitualmente pela matança, por dramazinho feroz de surpresa e de traição, de tratos ao fraco, não achará grande prazer nas suaves e lentas emoções, que dá o êxito progressivo do trabalho e do estudo, da pequena indústria, que por si só faz alguma coisa. Criar e destruir são os dois enlevos da infância. Criar é longo; destruir é curto, fácil. A menor criação implica os dons do Criador e da boa natureza: a mansidão e a paciência. É coisa repugnante e horrenda ver uma criança caçadora, ver a mulher aprovar, admirar a matança, animar a isso o seu filho. Esta mulher, sensível e delicada, não lhe daria uma faca, mas dá-lhe uma espingarda; matar de longe, embora! Não se vê assim o sofrimento.

« E há mães que, vendo, consentem que uma criança, presa no seu aposento, se divirta arrancando as asas das moscas ou dando tratos a uma ave ou a um cãozinho.

« Mãe imprevidente! Ela saberá mais tarde o que é haver formado um coração desapiedado. Velha e fraca, refugo do mundo, sentirá por sua vez a brutalidade de seu filho.

« Mas o tiro? objetar-me-ão. Pois não é preciso que a criança o aprenda, matando? que, de assassinato em assassinato, ela chegue a matar a andorinha voando?

« O único país da Europa, onde todos sabem atirar, é aquele em que menos se atira à ave. A pátria de Guilherme Tell soube mostrar a seus filhos um alvo mais justo e mais sublime, quando libertaram o seu país.

Estamos em um país de rara fecundidade, onde tudo se cria maravilhosamente, e é talvez por isso que não temos pelas coisas da natureza grande entusiasmo.... Entretanto, para o espírito delicado da mulher, e para o seu coração naturalmente terno, que extraordinárias e recompensadoras doçuras daria a criação das aves finas que alegremente gorjeiam nas gaiolas ou pipilam nos jardins!

Eu desejaria ter, como George Sand, o poder fascinante sobre as aves, atraí-las a mim, como a adorável escritora as atraía, tê-las sobre a minha mesa, sobre os meus ombros, na doce intimidade que os bons amigos inspiram, vê-las volitar alegremente no meu escritório, rodeando a minha filha, que abre agora os seus olhinhos curiosos para tudo que brilha, que se agita e que passa.

Amo as aves indistintamente, grandes e pequenas, raras e comuns. O voo, que é a inveja do homem, é o supremo encanto da ave.

O pássaro mais feio torna-se majestosamente belo voando. Olhemos para um urubu, por exemplo. É medonho, anda mal, aos saltos, com o pescoço depenado, muito estendido. Voando é lindo: estende as asas e corta o espaço com tanta serenidade, que dá vontade à gente de se tornar pequenino e ir deitado sobre aquelas asas!

As andorinhas, aves prediletas dos artistas, têm um voo magnifico, e é um encanto vê-las reunidas nos beirais dos telhados pipilando estrídula e alegremente.

Nós devemos prestar mais atenção às aves. Há famílias grandes, onde, para deleite e poesia da casa, cada moça devia dedicar-se a uma ocupação distinta, quando não as quisesse acumular. Porque, afinal de contas, o nosso tempo chega para mais do que pensamos; com algum método, as horas bem divididas, podemos perfeitamente tratar da casa, da cultura das flores, do viveiro e do galinheiro, etc. A mim me parece que é uma ocupação muito própria para uma moça inteligente, a criação de aves brasileiras, as mais raras, por exemplo, que mesmo dessas não será diminuto o número!

Há tantos jardins por aí onde os viveiros ficariam bem, há tantas chácaras grandes e tantas moças que não sabem que hão de fazer do seu tempo! Eu já lembrei uma vez às leitoras a formação de uma sociedade de moças que fizesse uma exposição, ao menos, por ano, de flores e frutos cultivados por elas; adicionemos-lhes também as aves, como uma criação bela e proveitosa, não só moral, como materialmente falando.

Desvendar das florestas misteriosas os seus belos segredos, patenteá-los à sociedade, para recreio dos olhos, deleite do ouvido, e fonte de renda mesmo com os mercados estrangeiros, será coisa indigna de atenção e cuidado?

As mulheres têm paciência, solicitude e carinho; devem ser esses os principais predicados para a criação das aves; muitas vivem na roça, em fazendas cercadas de florestas, onde os caipiras adestrados, por pequenas gratificações lhes levariam aves e ninhadas preciosas.

Não seria isso mais útil que as exposições de flores de pano, conchas, penas e papel, ou de colchas, as medonhas colchas de retalhos, com que de vez em quando nos mimoseiam?

Creio bem que sim....

II

Não vou agora falar da variegada multidão dos viveiros, nem da araponga branca, maior que um pombo, nem do calafate, branco também e menor que um pintasilgo; não é da suave harmonia de linhas da juriti ou do pombo Trombeta, nem da graciosa cabecinha vermelha dos cardeais; nem do esguio canário belga; nem do melodioso bicudo nem do terno e embalador sabiá; nem da fina e cantadora patativa nem da flamejante arara; nem do amoroso par dos pequeninos tuins; nem de qualquer desses inúmeros pássaros indígenas, de penas brilhantes como as dos colibris e de cantos agrestes, doces, vibrantes ou velados; de nenhum desses queridos animaizinhos, enfim, que nós em pequenas chamamos « de Deus », que respeitamos como vindos do céu e que alegram os viveiros de bom gosto, ou as gaiolas das habitações modestas. Não vou conversar acerca de aves que não podemos esconder, como a um beija-flor, dentro da palma da mão, de aves que não acariciamos, a que não oferecemos logo de manhã cedo um raminho fresco de agrião, aves pouco gentis, mas úteis, que se contentam com este parco alimento — milho e água, e passam a vida numa ociosidade espantosa — as galinhas.

Digam lá o que quiserem, os galinheiros têm um certo encanto, ainda que não seja mais que o da revelada simplicidade de uma existência pacata e proveitosa.

Encerram uma sociedade em família, onde talvez se enredem intrigas e agitem paixões, mas onde se estampa a calma feição de uma vida sem sonhos.

Um galinheiro bem tratado, com areia limpa, água renovada, milho à farta, alguma verdura, com o poleiro resguardado e os ninhos prontos, não é absolutamente coisa indigna de prender a desvelada atenção de uma moça educada.

Há uma ternura delicada nos seus quadros maternos, que é bonita de ver-se.

Os pintinhos, como umas bolas de lã cardada, rodeiam medrosos a mãe ou espreitam, de sob suas asas, todos conchegados e quentinhos, o que se passa cá fora; entretanto o galo estica o pescoço e atira ao ar o seu canto arrogante, passeando enfaticamente de um lado para o outro, a fazer luzir ao sol as suas belíssimas penas furta-cores e brilhantes. As galinhas conversam entre si falas breves, en passant, e do fundo escuro dos ninhos destacam-se os ovos, com uma brancura rosada.

A galicultura é hoje quase uma arte, e com certeza uma das boas indústrias para quem de ela queira tirar proveitos materiais. Mesmo nós, que não criamos galinhas senão para uso da nossa mesa e regalo dos nossos olhos, sem emprego das máquinas de chocar, para a sua multiplicação rápida, nem leitura de livros especiais, devemos contudo procurar instruir-nos acerca do seu tratamento, doenças, especialidades de raças diferentes, etc.:

Um galinheiro de luxo, porque os há nas grandes ménageries, não deve dispensar as suas divisões de arame para a criação do faisão; da galinha polaca, branca e preta, de enorme topete; da galinha Dorghe, lindíssima; do pavão; da perdiz; do jacu; das galinhas hamburguesas, baixas e pintadinhas; das Brahma; das genovezas; das Cochinchinas; das espanholas comuns; e de muitas outras cujo nome e raças ignoro, não citando senão as que já vi tratadas em galinheiro particular.

Nos nossos mercados, a caça não abunda; vemo-nos muitas vezes atrapalhadas para organizar jantar chique, embora familiar, e é então que lamentamos não ter uma perdiz, um jacu, uma galinhola à mão para sacrificá-la em proveito da nossa família ou dos nossos amigos!

Mas, enfim, já não falo de raças caras nem de aves esquisitas, se é que se devem considerar assim, no Brasil, a perdiz e o jacu, por exemplo, mas só das nossas galinhas vulgares, as mais produtivas, as mais úteis, por certo, e que geralmente não são tratadas com a estima a que têm jus.

Conheço uma senhora francesa, que tem conseguido reunir na sua capoeira as maiores e mais formosas galinhas que tenho visto; diz ela que obtém aquilo variando-lhes o alimento. Não lhes dá só milho: dá-lhes ervas, principalmente couve, e minhocas, muitas minhocas; e acrescentou: mas para isso preciso também cultivar as minhocas.

Como eu olhasse para ela um pouco admirada, explicou-me o processo, dizendo tê-lo lido num livro cujo nome não me ocorre. Em todo caso, é simples. Manda fazer um rego no quintal, espalha fubá por toda a sua extensão e torna o cobri-lo com terra umedecida. E ali fervilham, após alguns dias, milhares e milhares de vermes; é só cavar-se um pouco a terra, aqui e acolá, e oferecer às galinhas um dos seus repastos prediletos.

A coisa não é de difícil experiência....

A casa que tem quintal, o que é vulgaríssimo nas nossas cidades, pode cômoda e perfeitamente possuir todas as coisas que, apesar de pequenas ou aparentemente insignificantes, dão considerável encanto e alegria ao ménage. Entre umas folhagens alegres, de videira ou de maracujá, não é desagradável nem indiferente à vista a grade de madeira ou a cerca de arame, da capoeira, em que se engordam regaladamente as galinhas para bons caldos, o pato, o frango, o peru, a perdiz, a galinha de Angola, de onde cotidianamente se tiram os ovos, elemento indispensável dos melhores almoços e dos mais saborosos jantares.

O que é certo, é que o galinheiro, mesmo sendo pouco discutido, não é felizmente raro entre nós, nem incapaz de impor simpatia, muito embora seja incapaz de inspirar um soneto!

Mas é necessário muito cuidado com ele, sobretudo nas casas onde haja crianças. Estas devem ser absolutamente proibidas de lá entrar, porque, dizem médicos notáveis, a terrível difteria vem principalmente das galinhas, da sua gosma ou gogo.

Devem-se empregar, portanto, as maiores precauções para que o galinheiro, tão útil numa casa de família, não possa constituir um perigo. É indispensável a maior limpeza, muita água corrente, e será sempre preferível separá-lo do resto do quintal, o mais longe possível da casa, por uma grade dupla, de modo a impedir as crianças de meterem os bracinhos para afagar as galinhas.

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