Terceira Parte — Uma carta Livro das Noivas · Capítulo 23 de 29
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Terceira Parte — Uma carta

S. Paulo, às 9 da noite.

Minha Esther. — Tens razão, o celibato é uma coisa triste. A tua carta comoveu-me muito.

« Fechei os olhos a minha mãe, dizes tu, e não sei para quem hei de viver agora. »

Sei eu. Viverás para os pobres, para os que não têm apoio nem alegrias. O teu infortúnio fará muitos felizes. Não tendo família alagarás de ternura toda a miséria que conheceres. A saudade e a lembrança dos nossos mortos fazem-nos naturalmente piedosos; além de que és rica, e se isso te priva de uma distração, o trabalho, concede-te a doce consolação de matar a fome aos inválidos famintos e de vestir de branco crianças, que do trapo só conheçam remendos.

Lembra-te sempre de que, mais do que nenhuma mulher, precisa de força a que ficou solteira. Percebes bem que não te falo da força física, mas só da intelectual. Reage e domina os pequenos defeitos do teu temperamento; resigna-te com sorrisos, que é a mais formosa maneira de resignação, e caminha resoluta, sem medo do ridículo, como tão puerilmente confessas. Quer-me parecer que uma mulher honesta, bondosa, calma e simples, ande por onde andar, mesmo sozinha, verá sempre diante de si pessoas que se curvem com simpatia e respeito. Confio no teu critério. Esmagadas as últimas esperanças, mesmo extinto o derradeiro amor, deves dar ao teu coração novos cuidados.

Arranja uma órfã... vai ao triste depósito: vai à roda; afaga aquelas pobres criaturinhas e faze-te mãe de alguma, ou de algumas delas!

O que desejo e quero, é que não desperdices os tesouros do teu espírito e da tua alma; procura transmiti-los a alguém.

Pedes-me para secar as tuas lágrimas, falando-te da minha felicidade. Outra qualquer, menos boa, evitaria ouvir coisas de venturas que não pudesse fruir! Em todo caso, resumirei tudo em duas palavras — estão bons, o que para mim, bem sabes, quer dizer isto: estou feliz!

Como sempre, escrevo-te à noite, no meu serão, única hora de socego para quem tem filhos pequeninos. Deitei-os às oito horas, como todas as noites, vi-os pegar no sono e vim para a saleta, ao lado da alcova, de onde vem de vez em quando a doce música de um suspiro desprendido num sonho.

Dizem algumas pessoas que de longe em longe nos visitam, que se atravessa agora uma época de muita monotonia.... Eu não tenho tempo de sentir essa coisa terrível; a família e a casa absorvem-me de tal maneira, que, no momento de adormecer, quando na ultima visão rápida e clara o pensamento abrange as impressões do dia, sinto como que uma doce saudade dessas horas e peço ao bom Deus que as reproduza no dia imediato!

Não acreditarás, talvez? Lembra-te de que para essa singularidade de se ter saudades da vida que se vai vivendo, é preciso ser mãe e ser esposa, é preciso amar, e ver felizes os que amamos! Foi por isso que eu te disse resumir toda a minha fortuna nestas duas palavras — Estão bons.

Escreve-me sempre: fala-me longamente do estado da tua alma.

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