Primeira Parte — A poesia da vida
Dizia há dias uma amiga a outra, vendo-a consertar as calças do marido:
— Eis aí o prosaísmo do casamento!
E a amiga, não sabendo discutir, calou-se, guardando consigo a convicção de que a poesia do casamento, como a da vida inteira, é uma coisa bem diferente do que por aí se apregoa.
Não consiste só em certo número de coisas efêmeras e graciosas, ou ocupações leves de toilette e adornos de casa; consiste também nas coisas úteis e práticas, naquelas que não entram nas fantasias das noivas quando idealizam o seu futuro, mas que surgem depois inevitavelmente, impondo-se como um dever.
A poesia da vida abrange tudo, desde as obrigações mais árduas e imperiosas, até as mais fúteis e sutis; e é exatamente nesse conjunto de antíteses que está o seu principal encanto.
A educação deve fazer compreender bem isto.
Se assim não fosse, onde estaria a poesia da pobreza? E não a terá, porventura, a esposa do homem do campo arranjando-lhe com carinho o jantar, levando-o até onde ele trabalha, acalentando os filhos a cantar, rude, mas ternamente?
Não terá poesia a lavadeira, calejada e trigueira do sol, a estender a roupa alva na grama verde, e a mergulhar os braços nus na água fria?
Não há profissão, convençamo-nos, em que não haja poesia; o caso é compreendê-la e respeitá-la, dando-lhe o lugar merecido. A ménagère então deve sentir revestidos dela todos os seus atos.
Com as mãos sujas de carvão, na cozinha, acendendo o fogo para fazer o almoço do marido, cosendo-lhe a roupa, amamentando os filhos, varrendo a casa ou interpretando Chopin; pintando uma aquarela ou amarrando um bouquet, a mulher tem sempre a mesma poesia: a de trabalhar para ser agradável, útil, boa, para satisfazer uma necessidade moral ou intelectual do esposo e da família, revelando-se amorosa e digna do doce e pesado encargo que a sociedade lhe destinou.
Ai de nós, se vivêssemos a suspirar à lua, perdendo-nos pelas regiões azuis da quimera, onde flutuam, estraçalhadas e doentes, as almas tristes! Ai de nós, se não compreendêssemos a poesia senão no tremeluzir da estrela, no passar vaporoso da nuvem, no aroma suave dos lirios, no brilho aveludado do luar ou nas preocupações da sala!
Felizmente, começamos a penetrar com mais atenção nos pequenos misteres comuns; a saber que pisamos na terra e que devemos estimar a terra que pisamos; que há em tudo um ponto, às vezes quase impercetível de beleza, que muitos olhos não veem, mas que nós, as mulheres, devemos descortinar; que não há no mundo coisa indigna de reparo e de nenhum cuidado, sobretudo quando dela depende um pouco da felicidade de alguém.
Enfim:
A poesia da vida consiste em tudo; agora a do casamento, essa consiste principalmente no amor.