Segunda Parte — Floricultura Livro das Noivas · Capítulo 20 de 29
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Segunda Parte — Floricultura

Conheço algumas jovens que vivem imersas numa indiferença lamentável.

O tempo há de forçosamente parecer-lhes monótono.

Está provado que a aplicação é a coisa mais necessária da vida. Sem ocupações, os dias são intermináveis, tediosos e doentios; vêm-nos o enfado, o mal-estar e a melancolia. Pois bem, minhas amigas! Quereis um belo meio de tornar risonhas e proveitosas, ao menos, duas horas em cada um dos vossos dias?

Cultivai flores.

Isso, que parece tão simples, render-vos-á mil proveitos.

O cultivo das flores afina o gosto pelas sutilezas da natureza e exercita o espírito para as ocupações maternas.

Tratar de uma flor delicada com desvelo é como que um pequeno ensaio para tratar de uma criança com carinho.

Resguardar do sol uma planta débil, colocá-la na estufa, regá-la cuidadosamente, zelar pelo seu crescimento, cortando as folhas amarelecidas, sem magoar nem de leve os novos rebentos, podá-la, enxertá-la, dirigi-la, é uma ocupação carinhosa e digna da mulher.

Um jardim feito por nós merece-nos mais amor, embora seja mais pobre que outro tratado mercenariamente.

Adoramos a sombra desta ou daquela árvore, envaidecendo-nos com a lembrança de ter sido plantada por nós! O primeiro ramalhete oferecido à mãe ou ao pai enche a jovem jardineira de orgulho e de alegria.

Que belas manhãs, passadas ao ar livre, num banho de luz radiante, com um avental resguardando a mousseline do vestido, o chapéu desabado, de palha, ou a grande touca de linho com a sua telha e tufos salientes, os sapatos brancos e, na mão, o sacho, ativamente manejado! Uma cesta, os utensílios de jardinagem, polidos a capricho, sorriem ao espaço azul, com as suas cintilações do aço honesto — isto é, do aço dos instrumentos de trabalho!

E ela, a jardineira, canta, ri, goza, surpreende de um dia para outro promessas de flores, botões pequeninos, tenros, muito verdes, que ela acompanha no seu desenvolvimento até vê-los desabrochados em grandes rosas aromáticas e belíssimas!

Move-se no meio das suas flores como entre um bando de amigas! Cumprimenta umas, chega a falar-lhes, entretece com imensa delicadeza as hastes das trepadeiras, arrenega-se se por desastre quebra algum frágil galho, cuida que magoou o arbusto e só lhe falta pedir perdão!

Se a terra está seca, é ela mesma quem, erguendo o regador, proporcionado à sua força, deixa cair em cima a chuva benéfica da água fresquinha e límpida que foi buscar ao lago, à fonte, à bica ou ao poço.

Cansa-se ao princípio com as idas e vindas, mas vai pouco a pouco sentindo que esse exercício lhe faz bem, abre-lhe o apetite para o almoço e faz-lhe vontade de tagarelar e de rir! Tem sempre uma anedota que relatar aos pais e aos irmãos, esquisitices observadas no mundo tão vasto e variado das plantas! Chega assim ao conhecimento da melhor época para esta ou aquela sementeira, acorda-se-lhe a curiosidade pelo estudo, e o seu espírito enriquece-se e distrai-se à proporção que ela se torna mais saudável e muito mais útil!

Não é preciso muito engenho nem muita perspicácia para dirigir um jardim, nesta terra fecunda, que, mal recebendo as sementeiras, transforma-as em plantas cheias de pujança e de brilho. Em todo caso, não errará quem procurar conselho autorizado que lhe ensine a tornar o terreno leve, fofo, bem arejado e ventilado, onde as raízes se estendam, as sementes germinem, resguardadas do sol abrasador ou das chuvas copiosas.

Em poucos países o prazer da jardinagem poderá ser tão bem recompensado como no nosso. As maravilhosas orquídeas de formas fantásticas, coloridos originalíssimos, perfume penetrante, bastam para fazer a delícia de qualquer colecionador inteligente. E quantas há, aí pelos matos, ignoradas, desabrochando só para as estrelas e para os ninhos!

Havia há alguns anos em Palmeiras, nesse abençoado cantinho do mundo, um jardim, por sinal de um inglês, que me causou impressão; não pela beleza do desenho nem pelos cuidados artísticos que encerrava. Não havia nele repuxos, nem lagos, nem estátuas, nem aleias, nem os grandes relvados dos parques aveludados e convidativos. Havia unicamente isto: flores do mato!

Estavam ali agrupadas plantas silvestres quase desconhecidas! Que davam a esse recinto um aspecto pitoresco e por demais curioso!

Há flores feias? Não, eu pelo menos ainda não vi uma única em que não tivesse o que admirar!

Quando não é a forma, é a cor; quando não é a cor, é o aroma, é a originalidade, é o pólen, é qualquer desses lindos mistérios que elas contêm!

Os meses mais propícios para as sementeiras são, no Brasil, os de fevereiro, março, agosto e setembro.

Os dois primeiros são sobretudo profícuos aos amores-perfeitos, anêmonas, baunilha, balsamina, margaridas, dálias, ervilha-de-cheiro, gloxínia, papoulas, primaveras, flox, ranúnculos, petúnias, violetas, portulaca, resedá, verbena, saudades, zínias, monsenhores, damas, cravinas, aquilégia, cinerária, viscária etc., etc.

No mês de abril deve começar a transplantação dos vasos ou dos viveiros para o jardim. Em junho e julho, meses em que o inverno é mais rigoroso, cabe a vez às acácias, aos ciprestes, aos cedros, à critoméria, Cupressus, tuia-da-China, aos cravos e às saudades.

Em agosto e setembro, tempo da primavera, semearemos: begônias, cravos, fúcsias, portulacas, calceolárias, gloxínia, cinerárias, orelhas-de-urso, petúnia, cravinas, amores-perfeitos, belas-margaridas, lobélia, miosótis, não-me-deixes, papoulas, flox, zínias etc.

Em novembro e dezembro procede-se à transplantação e limpeza das plantas.

Pensemos agora no tempo próprio para a plantação dos bulbos, tubérculos e raízes de flores.

Em janeiro, pobre mês abrasador! Nada. Em fevereiro, março e abril, tudo.

São principalmente benéficos às:

Anêmonas, amarílis, cíclames, angélicas, tulipas, ranúnculos, jacintos, narcisos, gladíolos, laços-de-ouro, lílios, junquilhos etc.

Em agosto, setembro e outubro plantam-se os tubérculos das dálias que, depois da floração, devem ser desenterrados para de novo serem plantados em igual época do ano imediato.

Há, contudo, entre os tubérculos, alguns que se plantam duas vezes no ano. Estes devem descansar dois meses fora da terra, entre a floração extinta e a nova plantação. São os seguintes:

Gladíolos, Amorphophallus, angélicas, agapantos, Scilla, amarílis, fritilária etc.

Os bulbos e tubérculos, quando em descanso, devem ser conservados em um lugar bem seco.

Mas... demo-nos pressa em falar da roseira.

À tout seigneur tout honneur!

A rosa é a flor amada, a rainha das flores, como a denomina toda a gente, e creio também que é a flor de mais fácil cultivo, tanto que se espalhou por toda parte. A rosa desabrocha nas hortas, da forma mais despretensiosa, como se estivesse no ménage, com um vestuário caseiro! E é então denominada de todo o ano; nasce em vasos artísticos, entre bronzes e mármore, junto ao repuxo cantante, cheio de relevos e de figuras bizarras; nasce no caixote de pinho à janela de uma costureirinha pobre; por toda parte lança as suas raízes, num poderoso domínio de graça e de beleza!

A roseira multiplica-se por diversas formas: enxerto, galho, alporque etc. A maneira preferível é a de alporque, que constitui o que se chama pé franco.

Das outras formas, as flores vêm a desabrochar tardiamente.

Poda-se, porém, em diversas épocas do ano, sendo a melhor o mês de julho. Em agosto, as roseiras cobrir-se-ão de flores.

Faz-se nova poda em janeiro.

Ah, que linda cultura, a das rosas, para uma senhora! E há tão poucas entre nós que se dediquem a isso! Eu, por mim, não chego mesmo a saber que haja uma!

Entretanto, a rosa é o ornamento mais docemente encantador para uma mulher.

Brancas, são como o símbolo da pureza. Não sei de flores mais delicadas e poéticas!

Vermelhas, são as flores ardentes, as rosas que falam de amor na doida eloquência da paixão!

Vermelhas, brancas, amarelas, rosadas, musgosas, simples e dobradas....

Qual será entre todas a mais bela? Ninguém poderá dizê-lo! Se umas têm a cor brilhante do sangue que fascina, as outras têm a pureza do leite, que encanta! Se umas têm o brilho do ouro, outras o róseo do pudor.... Estas têm a forma rebelde, as pétalas crespas como se fossem agitadas por ataques de nervos e sofressem muito! Mas... aspirai-lhes o aroma! É tudo quanto há de mais doce e de mais tranquilo!

A rosa! Não é sem razão que o mundo inteiro lhe presta homenagens, como à mais caprichosa e ao mesmo tempo à mais angélica das flores.

Os modernos floricultores europeus dedicam-lhe estudos especialíssimos, entregam-se com amor paciente ao seu cultivo e, por isso, surge de vez em quando um novo exemplar de rosa, para regalo do mundo inteiro.

Nós, que vivemos na terra fecunda, em que as flores vicejam quase espontaneamente, por que não lhes havemos de seguir o exemplo?

Se alguma das minhas leitoras se desse a esse estudo e conseguisse alguma coisa, como seria bom!

Às rosas! Vamos, minhas amigas! Cultivai rosas.

Elas têm hoje uma variedade infinita. Os catálogos aumentam dia a dia... concorramos para o seu engrandecimento. Seria realmente bonita uma sociedade de moças, por exemplo, que se dedicasse ao desenvolvimento da floricultura, que promovesse exposições onde todas as sócias tivessem o dever de apresentar os produtos da sua jardinagem e que os vendessem por fim em leilão, em benefício dos pobres.

Há tanta moça rica e ociosa... e há tanto que fazer!

Apresentar uma rosa nova deve dar igual orgulho ao de expor uma tela onde brilhem talento e arte, e ao de publicar um livro original e galante!

De abril a setembro ostentam-se vaidosamente as formosas camélias.

São Paulo e Petrópolis são, do Sul do Brasil, que eu saiba, os lugares mais afamados para esse gênero de flor.

Eu não me canso de admirar as que tenho diante de mim neste momento!

Como as estátuas das Vênus, elas simbolizam a perfeição suprema, juntando à graça da forma o esplendor da carnação e a pureza da cor!

Falta-lhes a vida, falta-lhes a alma, o aroma que as denuncie ao longe, que venha pelo ar até nós, como uma carícia que inunde os jardins, que se espalhe ondeante e doce pelos cômoros relvosos, pelas grutas, pelas plantas rasteiras e pelo espaço azul e cristalino!

Entre as folhas escuras, mostram-se friamente, imaculadas e altivas, como os mármores dos museus sobre o veludo sombrio que lhes dá relevo, fazendo-os sobressair!

Mas que distinção e que lindeza a sua!

Não sei a quanto atinge o número das variedades que há dessa flor; não sendo certamente tão vasto como o das rosas, é, contudo, muito considerável!

Tenho sobre a minha mesa a descrição de setenta e cinco camélias tiradas ao acaso, de uma coleção de duzentas qualidades!

Qual será a mais bela? É o caso de dizer: il n'y a que l'embarras du choix!

Alvas de neve, pulverizadas de vermelho, estriadas de rosa, imbricadas, simples, da forma das anêmonas, das rosas ou das peônias, têm todas a mesma encantadora frescura, a mesma graça altiva, emergindo esplêndidas da folhagem verde do arbusto, com a látea nudez da mitológica deusa dos amores, ao surgir entre as espumas das ondas verdes do mar!

Desejaria falar das magnólias, urnas de luar, dos lírios doces e lânguidos, das ixoras variadas, desde a rubra e inodora até a rosada embriagadora, com os seus lindos bouquets aromáticos; dos jasmins, de que temos tão lindos exemplares no Brasil, desde o pequenino, branco, ingênuo, até ao do Cabo, quase tão lindo como a camélia, mas pródigo em aroma; e ao jasmim-manga, original de forma e de cor, com o seu cheiro agradável, fresco e ácido! Quereria falar dos cravos, de que há tantas espécies; das fúcsias, miosótis, resedá e tantas, tantas, que me andam a dançar na memória, embaralhando as suas cores, confundindo o seu perfume, seduzindo-me, mas pondo-me por isso mesmo numa enorme confusão!

Entre as flores que ultimamente têm conquistado grande simpatia figura a azaleia.

Cresce, no entanto, morosamente, e o seu arbusto atinge de um metro a metro e meio. A multiplicação é fácil: faz-se por meio de botura, alporque e também por meio de enxerto. Processo igual ao da plantação da cameleira.

Há-as vermelhas, brancas, lilases, róseas, rajadas, cor de laranja, cor de açafrão, com manchas brancas, com manchas quase negras, dobradas, crespas, singelas... é a flor dos maciços dos jardins ingleses, sorrindo entre a verdura na sua floração abundante!

Mas deixemos as dálias, as azaleias, as rosas, as estefanotes, os rododendros, os arbustos, as plantas rasteiras e as trepadeiras vigorosas e belas que sobem pelas grades, pelas paredes ou pelas árvores, protegendo as nossas janelas dos raios vivos do sol e dando um ar encantador à casa.

Deixemos o heliotrópio, com o seu pequeno arbusto de folhas ásperas e lanceoladas, os hibiscos com o seu deslumbrante colorido, a flor-do-imperador, pequenina, cor de marfim, unida ao galho, inebriante de aromas; as violetas adoráveis, as malvas-maçã, inglesa e rosa; o manacá de aroma doce, a magnólia violácea, as esponjas, a cidrilha, os catos carnudos, espinhentos, com as suas flores originais, cor de ouro, ou brancas, ou vermelhas, singulares de cheiro e de forma, e conversemos um pouco acerca das plantas ornamentais.

Nos vestíbulos, nas salas de espera, nos refeitórios ou nos salões, a planta ornamental sente-se à vontade. Cuidai dela e vereis como o seu viço e elegância vos compensarão do trabalho. Sobre os mármores dos alpendres ou junto aos espelhos, entre bronzes caros e bibelots caprichosos, têm o mesmo vigor e a mesma formosura. Não há lugar em que fique deslocada. Eis a grande vantagem destas plantas!

Os crótons, com o seu esplêndido colorido, as suas folhas recortadas bruscamente, ou agudas e lisas como pequeninas espadas onde o sangue se houvesse tornado em ferrugem, são talvez a espécie mais original e mais vasta.

Há quem prefira os caládios, variadíssimos, verdes, róseos, brancos, vermelhos, manchados, compactos ou transparentes, com a sua mimosa rede de nervos e a sua forma distinta.

Há ainda quem prefira a todas a alocásia e a férrea, com as suas ventarolas escuras, rijas e metálicas.

Eu adoro todas. As inúmeras palmeiras, cujas designações ignoro, o musgo fofo, fresco, aveludado, a avenca, com as suas hastezinhas muito finas, onde as folhinhas pousam apenas, como borboletas em miniatura, os cóleus grosseiros com ramagem de chita, as begônias carnudas, prateadas ou não, tudo que nasce da terra com uma forma de folha, com uma essência de flor!

É sempre conveniente ter plantas em casa, porque, além de alegrarem a vista e deleitarem o olfato, purificam o ar e afastam de nós os insetos que, atraídos por elas, para elas vão, deixando-nos em paz.

O jardim é sobretudo útil onde houver crianças. Esses pequeninos seres, tão delicados e tão puros, vivem adoravelmente em companhia dos jasmins e dos lírios!

Eu passava horas inteiras, em pequena, moendo no jardim as maravilhas, fazendo falar as flores, dando-lhes nomes, humanizando-as — perversidade inconsciente da infância! — e, depois desse tempo, quantas crianças não tenho eu visto fazer o mesmo, exatamente o mesmo!

As mães sentem-se tranquilas, porque ali as suas filhinhas podem rolar à vontade pela areia branca que não enxovalha as roupas, ou pela grama macia, quando o tempo está seco. Depois, os seus olhos ingênuos e curiosos terão em frente um espetáculo delicadíssimo, alegre, perfumado, são.

Ao recolherem-se para o lunch, para qualquer das refeições, para o banho ou para o estudo, virão impregnadas do aroma das ervas, trarão nas faces a cor purpurina das rosas de Alexandria, e no olhar como que um reflexo do céu, iluminado e brilhante!

A pouco e pouco afeiçoar-se-ão à jardinagem, terão amor às plantas, à terra que as fecunda e no-las dá prodigamente, ao ar que as alimenta, à água que as avigora! Cada qual quererá ter o seu canteiro e, num desafio, num grande estímulo, cultivá-lo a capricho para fazê-lo sobressair aos dos outros.

Ir-se-ão assim revelando as tendências. Esta, que é débil e delicada, saberá qual o tempo apropriado para a sementeira dos miosótis, dos amores-perfeitos, das violetas e dos junquilhos... aquele, que é robusto, gosta das plantas de raízes fundas e braços vigorosos, planta as gardênias, as ipomeias que sobem até muito alto e as palmeiras graciosas... esta aqui dá preferência às rosas; aquela outra aos cravos; e o jardim floresce, risonho, variado, bonito!

Não sei onde li, ou não sei onde ouvi este adorável conselho: “Sempre que puderes, planta uma árvore, pois, se nem tu nem os teus semelhantes a aproveitarem, aproveitá-la-ão os passarinhos!”

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