Primeira Parte — A roupa branca
Não há nada mais gostoso, entre os nossos hábitos caseiros, do que ter sempre bem arranjadinha a roupa branca. É nela que o nosso capricho e o nosso zelo melhor se podem revelar.
Uma gaveta denuncia fatalmente a dona; se ela for esmerada, lá terá divididos em rumas, de grandes ou pequenas dimensões, todos os objetos de uso. Seria intolerável surpreender a roupa branca no pêle-mêle em que às vezes descaem as fitas e as rendas com outras miudezas. Não; a roupa branca deve ter um lugar seu, onde deitemos de vez em quando um ramo de flores frescas. O aroma das plantas impregna-se suavemente no linho e no morim. Pôr essências nessa roupa, não dá prova de muito boa educação caseira, tanto mais que o linho bem lavado tem, naturalmente, umas exalações levemente perfumadas, um brando frescor de madrugadas claras, alguma coisa em si que faz lembrar outras melhores, que não sei bem quais sejam, — talvez o campo, talvez a primavera.... Foram as ervinhas rasteiras dos coradouros, foi a brisa, impregnada do aroma sutil das rosas bravas das cercas, que lhe deixaram esse vestígio doce, tão grato ao nosso olfato.
As pessoas que residem em cidades populosas devem procurar sempre, com o máximo cuidado, dar a sua roupa de uso a lavadeiras que morem fora, em arrabaldes isolados, onde a água corra abundantemente e as ervas tenham frescor, viço e perfume.
Detestei sempre as roupas lavadas em tanques e nas tinas dos cortiços ou dos quintais apertados da cidade. Ali, com o mesmo sabão e na mesma água as lavadeiras misturam a roupa de toda a gente, sem distinção, estendendo-a depois a secar sobre pedras ou sobre zinco, em um ar viciado e doentio. À noite recolhem e guardam a roupa no mesmo quarto em que dormem com a filharada, entre o amontoado dos trastes e dos trapos.
As lavadeiras do campo têm geralmente mais largueza, vivem em casas maiores; ninguém ignora que as casas da cidade são mais caras, a vida mais cheia de exigências e que, portanto, os pobres têm de se acumular e restringir enormemente.
Quem tem crianças nada perderá lavando a roupinha delas em casa, desde que o espaço o permita e que a sua lavadeira não seja de absoluta confiança.
Assim, a roupa de seus filhos não se misturará com outras menos cuidadas e de cujo contato possa advir qualquer mal. Agora, só poderá fazer isso quem dispuser de um quintal onde bata o sol e haja muita limpeza.
Conheço um médico que afirma serem muitas vezes provenientes dos quintais as moléstias das crianças.
É absolutamente indispensável que não deitem para o quintal o mais pequeno resíduo de matérias orgânicas, lixo, etc. O meio mais eficaz para isso é ajardiná-lo, deixando um relvado para coradouro das roupas das crianças e exigindo que o tanque esteja sempre limpo e a água de sabão bem escoada.
É indispensável também, por experiência o digo, fazer sempre dois rols quando mandamos a roupa para a lavagem. Um desses rols ficará no nosso livro, em que já estará assente o nome e a morada da lavadeira; o outro ser-lhe-á entregue com a roupa, não nos esquecendo de pôr nele o nosso nome e a data do dia em que o fazemos. A letra precisa de ser bem clara, para que nenhuma palavra ou algarismo possa oferecer dúvidas.
Além das iniciais, com que quase toda a gente marca a sua roupa branca, não é mau adotar um sinal que sirva para distinguir todas as peças de uma só casa. Isso não é difícil. Uma seta, uma tesoura, uma estrela, um triângulo, qualquer coisa indicará à lavadeira (que geralmente não sabe ler) que todos os panos de pratos, todas as toalhas, fronhas, lençóis, saias, ceroulas ou camisas pertencem à mesma casa, visto terem o mesmo sinal.
O meu enxoval de casamento passou todo pelas mãos de uma senhora muito prática e metódica, que não se esqueceu de bordar uma chavinha em todas as peças da roupa branca. Veio dela esse conselho, tenho-me dado bem e conservo o sistema como proveitoso, sabe-o ela melhor que ninguém, pois foram ainda os seus dedos habilidosos que marcaram as roupinhas do meu primeiro e do meu quarto filho.
Logo que esvaziamos a cesta da roupa suja é bom termos o cuidado de a mandar por algumas horas expor ao sol e ao ar, assim como devemos conservá-la sempre em um canto claro, ou em um quarto em que não durma ninguém.
A roupa branca deve ser ampla, talhada com gosto, bordada com carinho; há pontos elegantes adequados a cada peça, modelos graciosos, variados, desde os mais singelos até os mais complicados e trabalhosos. A mania burguesa do crochet, o martírio das colegiais é a mais inútil das coisas que se aprendem em criança, vai felizmente desaparecendo.
Ainda há bem pouco tempo era frequente a barbaridade de usarem, algumas senhoras, essa renda vistosa e áspera em contato com o corpo. Uma gola de crochet era tida em alta valia. Quanto mais elegantes e flexíveis são as rendas de linho, as valenciennes e outras do mesmo gênero!
Para fazer costura branca é preciso ter um gênio especial, sereno e paciente. Nela os olhos não se recreiam na variedade das cores, nos cambiantes brandos e refrangíveis dos setins, nos múltiplos e engenhosos feitios das toilettes de baile ou caseiras, de visita ou de passeio, de jantar ou de soirée; nela não há os cintilantes tecidos de prata ou de ouro velho, não há fulgurantes tons, nem invenções artísticas, nem exagerações arrojadas; há simetria, igualdade e perfeição.
A modista deve ter imaginação, largas fantasias e ímpetos inventivos. Criar novidades, executar todas as modas, ter a sua maneira, adivinhar as cores convenientes às claras ou às trigueiras; insinuar-se, impor-se.
Uma jovem esbelta, pálida, loira, pede-lhe uma toilette?
Tê-la-á suave, mística, leve, clara, cor da folha da ervilha, ou da do pessegueiro, ou branca, ou azul, ou creme; com umas rendas finas como flocos de espuma, e umas alegres grinaldas de rosas orvalhadas, frescas... toilette lírica, que lembre o nenúfar de um lago ou a fina nuvem rósea do alvorecer do dia....
É uma senhora morena, alta, majestosa, quem lhe encomenda um vestido para o próximo baile? Fá-lo-á de veludo vermelho ou de setim brilhante, enfeitá-lo-á com cores novas, esquisitas, com bouquets de plumas de aves selvagens, ou de grandes flores fantásticas... aconselhará adereço de brilhantes, que será o complemento dessa toilette realista, rutilante como o esplêndido clarão do pôr do sol....
A modista olha contente para a sua obra e imprime-lhe com orgulho o seu nome em letras douradas; a propícia aragem da fama há de fazê-lo voar pelas salas, e todas as elegantes virão bater à sua porta.
A pespontadeira de morim, não. Tem o seu gosto pautado pelas regras; não há alterações de vulto. Cada fio de linha cose pontos iguais, pequenos, certos.
Supõe-se ser uma rapariga franzina, pálida, de sorriso doloroso, olhar resignado, fronte estreita e pouco inteligente, humilde, pequenina e dócil: aprendeu paciente, afez-se a esse trabalho material, acabrunhador, mal pago.
O seu nome?
Não o inscreve; e como necessariamente as lágrimas são sem cor, como o pano onde caem, nenhum vestígio vemos do seu eu....
Uma boa dona de casa compreende todas essas coisas. Por quê? porque de tudo ela aprendeu um pouco.
Não é só a necessidade que a ensina a cerzir, a repassar, a prender malhas e a compreender a utilidade da agulha; é o cuidado, é o zelo, é o amor que dedica às coisas que lhe pertencem e em que parece adivinhar uma palpitação da vida que as animou anteriormente.
Não se deve ter roupa demais nem de menos, diz a condessa de Bassanville em um dos seus livros de ménage. E continua: «quando a roupa é demasiada amarelece sem servir, enche inutilmente os armários e representa dinheiro inerte que poderia produzir mais vantajosamente. De menos é ainda pior, porque não nos dá tempo de a arranjarmos e consertarmos convenientemente.»
Para que o movimento da casa seja regular e perfeito devemos ter lugares especiais para cada objeto; assim, a roupa branca obedecerá ao mesmo preceito.
Em um gavetão só estarão lençóis, nunca menos de duas dúzias para cada leito. Uma dúzia seria o necessário para o uso ordinário, se não devêssemos estar apercebidas para as doenças e os tempos de chuva, em que as lavadeiras falham. Em outro gavetão podem-se guardar em rumas as peças miúdas; fronhas, toalhas de rosto, etc.
Deve também haver um lugar destinado para os aventais das criadas, as suas roupas de cama, e os panos da cozinha. Desses é bom haver grande fartura em todas as casas, para que os pratos venham para a mesa limpos e brilhantes.
Os nossos criados, mal educados como são, não vacilam em se aproveitar dos guardanapos de linho adamascados para o serviço da copa, se não lhes metermos nas mãos os panos apropriados.
É bom e é econômico fazer algumas dúzias, seis pelo menos, de panos de algodão trançado, mole e de fio grosso para os pratos, e de tecido mais delicado para as xícaras, não esquecendo completá-los com a marca da casa, e uma alça de cadarço numa extremidade por onde os pendurem na copa. A melhor marca é sempre a bordada a algodão vermelho. Para o serviço da mesa é agradável ter-se bonito linho e guardanapos amplos. Creio que não se pode exigir menos de uma dúzia de toalhas para uso, mais seis para os dias de recepção e duas de cor para lunch ou para o chá.
Além do cuidado pela nossa roupa devemos tê-lo também pela roupa do quarto da criada, que é de obrigação ser fornecida por nós. Para a sua cama bastarão doze lençóis e doze fronhas. Terá além disso seis enxugadores pequenos e doze toalhas de rosto. Geralmente, há por aí muito descuido nesse sentido; mas como nos será lícito exigir dela que tenha o quarto arrumado e fresco, se lhe não facilitarmos os meios para isso?
Como na roupa branca há sempre que coser: botões arrancados, cadarços partidos ou rendas esgarçadas, é prudente examiná-la na ocasião de a passar a ferro, coisa de imprescindível urgência para que o desmazelo não vá entrando como um hábito na casa, e para que se vão imediatamente reparando as faltas. Para isso teremos sempre um pequeno sortimento de botões, de fitas de linho, de carretéis, de linha de bordar e de retrós para cerzir meias, etc.
É na roupa branca, afirmo ainda, que mais limpidamente se espelha a boa administração de uma dona de casa: portanto, não lhe deve faltar um botão, um cadarço, um ponto.