Terceira Parte — Carinhosa hospitalidade
Apanhou-nos um dia uma grande chuva na mata da Tijuca.
O céu, de azul, tornara-se de repente pardo e todo em grossos novelos de nuvens que se juntavam céleres. O pior era que o carro estava ali na estrada com uma roda partida, todo derreado sobre o flanco esquerdo. Minhas duas amigas e eu incitávamos em vão o cocheiro a consertá-lo depressa; mas o desgraçado do homem era pouco jeitoso; e, entretanto, a chuva aumentava, cortando com fios longos de prata luzidíssima a folhagem portentosa da floresta.
Nós, como uns pintos! Resolvemos por fim descer a pé, que remédio! Nossos chapéus de sol, vermelhos como papoulas e pouco maiores do que elas, mal nos resguardavam da água. Resignadas, até risonhas, suspendemos os vestidos e toca a andar! A mais de meio caminho, uma de minhas companheiras estacou:
— Esperem! — disse. — Tenho aqui uma amiga! Venham comigo.
Momentos depois, parávamos em frente a um jardim bem tratado, com jurujubas e rosas nos canteiros. Por entre as grades, viam-se os metais e os vidros reluzentes das janelas, com largas cortinas de renda branca, caídas discretamente de alto a baixo.
Ao toque da campainha, vieram depressa abrir, e num instante nos vimos em uma alegre sala aromatizada por flores naturais, com músicas de Mozart no piano aberto e uma mocinha de dezesseis anos, que nos sorria, estendendo-nos o rosto delicado para o beijo amigo.
Adorável Catarina!
Contamos-lhe o sucedido, um pouco embaraçadas; ela nos pôs bem depressa à vontade.
— O que é mau é estarem com os pés molhados... Tenham paciência, eu já venho... sim?
E saiu. Pouco depois voltou, sobraçando uma grande pele de urso que fora buscar no escritório do pai e que estendeu jeitosamente no chão; então, ajoelhando-se, desabotoou ela mesma nossas botinas, sem se alterar com nossos protestos, pondo naquele serviço, que a muitos pareceria servil, todo o orgulho de sua hospitalidade divina!
— Descansem os pés aqui, em cima da pele... Vou mandar limpar as botinas e secá-las na estufa do fogão... esperem um pouco, sim?
Aquele “sim?” interrogativo era sua fórmula de acabar as frases, que impregnava de ingenuidade e doçura todas as suas falas.
Enquanto as botinas secavam lá dentro, Catarina voltou, trazendo-nos licores que nos deu e xales com que nos envolveu os joelhos.
A mãe tinha ido visitar uma filha casada; ela fez sozinha as honras da casa.
Com a imaginação ainda alvoroçada pelos esplendores da mata, que as flores de quaresma e as de espinheiros atapetavam aqui e ali de roxo e amarelo, eu sentia um gozo tranquilo no meio daquela paz, entre paredes tão risonhamente limpas e felizes, ouvindo o tagarelar alegre de Catarina que, modesta e expansiva, deixava transparecer a lucidez de sua alma de anjo. Para que não nos aborrecêssemos, tocou seu último estudo, um romance de Mendelssohn, e mostrou-nos seus desenhos, empenhada em agradar às amigas de sua amiga; tudo aquilo com singeleza, rescendendo a cortesia e bondade.
A chuva estiou; vieram as botinas e um carro nos esperava à porta. Catarina levou-nos ao seu quarto para que reparássemos a desordem de nossa toilette.
No meio daquele ninho, todo azul, destaca-se bem em minha memória seu vulto gracioso, com o vestido claro e o aventalzinho guarnecido de rendas.
Despedimo-nos gratíssimas. Catarina acompanhou-nos ao carro, oferecendo-nos flores: magníficas anêmonas, rosas e cravos brancos. Partimos.
No caminho, minha amiga explicou:
— Não há só instinto na bondade desta menina; há também reflexos de proveitosíssimas lições. Os pais, apesar de muito ricos, educaram-na com toda a severidade a par da maior ternura. A hospitalidade que ela nos concedeu não demonstra isso mesmo? Faltar-lhe-iam porventura criadas para mandar vir água e licor à sala? Não!
— Não repararam na maneira, ao mesmo tempo meiga e altiva, por que se ajoelhou aos nossos pés para nos desabotoar as botinas? A voz, o olhar, o gesto, tudo nela parecia festejar nossa entrada em sua casa! E, se por acaso lá ficássemos todo o resto do dia e toda a noite, veríamos sempre a boa Catarina com o mesmo sorriso e o mesmo contentamento, abrindo-nos os braços, inundando-nos a alma de carinhos. Digo mais: se, em vez de ter conforto e de poder reparti-lo, ela fosse pobre, muito pobre, privar-se-ia de seu leito ou de seu pão para oferecê-lo a quem lhe fosse pedir pousada, com o mesmo sorriso, a mesma paz, o mesmo contentamento que lhe vimos. Ah! Meus amores, só lhes digo que, se algum dia o céu me conceder a ventura de ter uma filha, desejarei que ela seja como Catarina!