Primeira Parte — Carta a uma noiva Livro das Noivas · Capítulo 13 de 29
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Primeira Parte — Carta a uma noiva

Minha Laura. — A tua carta veio surpreender-me entre as flores de borragem e de sabugueiro, com que, na minha quieta viuvez, curo a criançada da vizinhança.

Descansa, que ainda não uso os abomináveis óculos, nem o xale em bico, e que, se vieres passar comigo alguns dias, na tua viagem de núpcias, os teus formosos olhos castanhos não darão com uma Adriana taciturna e de touca, com reumatismo e suspiros saudosos; mas sim com uma criatura, fora a modéstia, que o embonpoint dos quarenta próximos tornou talvez mais bonita, e a quem os hábitos e o ar do campo têm avermelhado as faces, amaciado a pele, (tem as suas vantagens a falta de água de Lubin e do pó de arroz!), dando-lhe igualmente grande serenidade ao espírito.

Como sou um tanto revolucionária, mudei, logo à minha chegada aqui, o nome às coisas! Hás de convir que andei bem, começando pelo mais fácil. Por isso a minha humilde casa de campo, com quatro janelas emolduradas de glicínias e rosas, passou a ter a denominação de cottage; o quintal, que é na verdade espaçoso e bem plantado de árvores frutíferas, sem linhas regulares nem aleias, mas enfim sombrio, esse chama-se agora parque! Ao fundo, perto de uma horta de dez metros quadrados, tenho o galinheiro, onde mal cabem quinze aves, e um ranchito em que instalei de sociedade: uma vaca, uma cabra e um burro! A esse rancho, chamo eu, e chamam os outros, por ordem minha ménagerie. Ao quarto do caseiro, habitação baixa, de porta e janela, caiada apenas, chamo, muito convitamente, torreão!... O engraçado é que toda a gente aceita estas asneiras, e que a minha casa começa a ser citada como modelo de elegância e de conforto!

Estas extravagâncias cito-as para abrir-te a curiosidade de as vires ver de perto. Os meus criados têm de tratar-me por madame; expulsei uma excelente mulata, que embirrava em chamar-me — Nhá Adriana!

Passo os meus dias a fazer tapeçarias e a ler romances, a tocar Chopin, que eu começo agora a interpretar bem, e a transmitir ao meu mordomo (simples criado de trinta mil réis mensais) as minhas disposições de dona de casa.

Às vezes acho tudo isto ridículo; mas que diacho hei de fazer numa terrinha onde haverá ao todo umas quinhentas casas, onde o aspecto exterior é nulo, os montes são baixos e calvos, os campos monótonos e extensos; onde o mar não soluça, nem rumoreja o povo? Que farias tu, minha doce Laura? Viúva, sem filhos, sem irmãos, sem pais, com uma pequena renda que te não permitisse viajar, e um cantinho de terra que os tabeliães atestam ser tua?

No teu requintadíssimo escrúpulo de consciência e de modéstia, não procurarias, por certo, viver imaginariamente, como eu!

Ou passarias os teus dias numa grande estupidificação, ou haverias de chorar muito....

Chorar muito! A propósito, preciso dar-te um conselho.

Vais te casar e fazes do teu Raul (que aqui para nós, era bom que fosse titular, conde por exemplo, conde Raul, etc., ficaria bonito... mas prosigamos): vais casar-te com um rapaz distintíssimo, segundo afirmas, de família rica, educado a preceito, tendo como tu predileção pela música, cantando divinamente, citando de memória trechos dos melhores autores (isso é sempre de ótimo efeito); frequentando a sociedade chic e distinguindo-se como um dos melhores sportsmen de toda a república!

Em tais condições, e com o extraordinário amor que te vota, é de crer que venha a ser um marido exemplar, conforme o talão, o que não te priva de aceitar o conselho da tua prima Adriana, que também amou e foi amada por um homem de bem, suscetível e fino, que em toda a sua bela carreira praticou um único erro — viver pouco.

Esse conselho resume-se nestas palavras: não chores nunca ao pé de teu marido.

Se cometeres tal erro, verás o que acontece!

A primeira vez que Paulo me viu chorar... chorou também!... as lágrimas rolavam-lhe pelas faces trigueiras, embrenhando-se-lhes na barba. Lembras-te de como era bonita a barba dele? Sedosa, negra... pobre Paulo! A segunda vez que chorei ao pé de meu marido, ele enxugou-me o pranto com beijos, alisando-me as tranças com todo o carinho! na terceira vez limitou-se a dizer-me de longe uma palavra meiga; na quarta ficou silencioso, e na quinta... ah! minha Laura! na quinta vez, ele disse entre o sorriso e o sarcasmo:

— Agora choras! hás de lucrar muito com isso!

Esta cena passou-se depois de um baile, no gabinete alcatifado de branco, lembras-te? que tinha porta para o quarto. Ele passeava, abanando-se com o claque fechado, murmurando censuras pela minha toilette, pela maneira de valsar, pelas minhas palavras e pela má escolha dos pares.... Eu respondi ao princípio com altivez; mas Paulo, não me atendendo, com muito mais recursos oratórios que eu, atacou o assunto com mais veemência. Revoltei-me com a sua injustiça, doíam-me aquelas acusações em que entrava a suposta pretensão minha de o querer fazer passar como um marido ridículo e lorpa.

Ora, tu sabes como eu o adorava! Era demais! quis fugir da sala; mas antes que o pudesse fazer, num desespero de gata brava, rasguei com unhas e dentes as rendas caras do meu vestido decotado e airoso.

Paulo, parado diante de mim, redarguiu friamente:

— Isso que tu me fizeste, não se faz a um cão!

E o seu olhar caía sobre mim, numa frialdade de aço!

Então, minha Laura, eu, alquebrada, sem já poder conter a minha dor, — chorei, chorei muito! Mas desgraçadamente, pela quinta vez, ao pé de meu marido.

Ele continuava impassível, eu saí da sala como uma vencida. Na minha fragilidade de mulher, os desgostos explodiam em lágrimas! A palavra tarda-nos quase sempre nessas lutas, embora tenhamos do nosso lado a razão. Nervosas, fracas, doentes, a nossa suscetibilidade refina-se a um tal ponto, que a menor palavra do homem que amamos fere-nos o coração, fazendo-nos chorar.... Eles, os homens, têm, suponho eu, uma crença que nos prejudica barbaramente: julgam que choramos na vida, como as atrizes choram no palco, especulando com o seu sentimentalismo ou fazendo experiências com o seu amor! Como o seu organismo, muito mais forte que o nosso, não sofre os mesmos embates e resiste aos choques que nos derrubam a alma; como ficam sempre altivos, senhores da situação, analisando, até no momento da maior intensidade, a dor sentida; como são menos vibráteis, menos impressionáveis e menos doentes que nós todas (pobres nervosas!), julgam que se quiséssemos, discutiríamos como eles, de olhos secos, palavra incisiva, gestos veementes... sem explorarmos o recurso chocho e piegas das lágrimas, que, sendo repetidas, tornam-nos verdadeiramente ridículas! Para nós, a lágrima é uma coisa sagrada! É como que um bocado de alma que vem espedaçada, doente, e que na sua limpidez cristalina reflete um mundo negro de angústias indizíveis! Uma inimiga nossa que chore, e eis-nos prostradas! Para eles, filha, as lágrimas não são mais que:

«Água, sal, soda, muco e fosfato de cálcio»,

conforme atesta um poeta, isto é, um ente que, pela sua fina sensibilidade, mais analogia pode ter com a nossa maneira de sentir!

Enfim, sempre que te surpreender um desgosto, não procures, por um movimento instintivo que nos aproxima sempre, nas grandes crises, das pessoas que mais amamos, não procures, digo, os braços de teu marido como um refúgio consolador; mas, ao contrário, se estiveres a seu lado engole as lágrimas e foge, para que os teus soluços rebentem na solidão de teu quarto.

Agora outro conselho: se teu marido não gostar que dances nem que frequentes os bailes à corte... resigna-te e afasta-te desses divertimentos. As tuas tranças loiras terão mais poesia à luz doce do lampião caseiro, quando bordares os vestidinhos para o adorado mistério que há de vir, do que roçando na casimira negra de uma casaca que te leve em rodopios pelas salas muito cheias de flores, de luzes, de calor e de maledicência; mas se, por acaso, não tiveres força para resistir, e dançares; se, depois, teu marido se mostrar ciumento, e te comparar às esposas dos seus amigos, todas muito resignadas, bondosas, virtuosíssimas, etc., não te enfureças, e sobretudo não rasgues o teu vestido de baile, mesmo para evitares o trabalho de o consertar no dia imediato!

Bem vês que a tua imaginosa Adriana sabe também dizer coisas práticas e sensatas.

Quem nos diz que eu não daria uma excelente moralista?

Deus me livre disso!

Ah, é verdade! As minhas laranjeiras estão floridas; se não fosse a distância mandava-te um comboio de flores!

Tua

ADRIANA.

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