Terceira Parte — Carta de uma sogra
Bem sabes, desejei sempre uma filha. Vi crescer meu Luiz, triste por não lhe ter dado uma irmã, suave companheira que lhe quebrasse os ímpetos e lhe excitasse o ânimo. A sorte não o quis e, sentia-o bem, meu amor de mãe não bastava a meu filho. Toda a infância é triste quando não tem outra infância a sorrir ao seu lado. E ainda há quem deseje um filho só! Loucos, que não sabem quanta magia encerra o amor fraternal, que alegrias douradas ele transborda de si, que largos círculos ele abre à alma.
Meu filho cresceu sozinho, muito unido a mim, e eu sentindo que me dedicava a ele ainda mais do que devia! Aquele excesso, aquele desdobramento de ternura era com certeza prejudicial a ambos.
Por tudo isso, os amores de meu filho não me assustavam; deixa-me dizer-te que às vezes até os desejava!
Entretanto, nunca te saberei explicar o que senti quando o ouvi, um dia destes, muito embaraçado, quase a pedir-me perdão, dizer que amava uma criatura divinal (os namorados são sempre os mesmos) e que me pedia licença para se casar!
Não minto: tive ciúmes dessa outra, um recuo instintivo para o saudoso passado, em que o via só meu, só meu! Mas... meditei, beijei-o e pedi-lhe que me trouxesse a noiva. Queria vê-la, beijá-la também, encarnar nela a doce visão de meu sonho, aquela filha que não nasceu de minha carne, mas que habitara meu pensamento e que deveria existir para alegrar meu filho, suavizar-lhe a vida e alegrar-lhe a casa.
No dia seguinte, anunciaram-me a visita de minha nora. Meu reumatismo privou-me do prazer de ir ao seu encontro. Parece que isso lhe desagradou. Não sei por que eu esperava que ela entrasse tímida, mas risonha, e que viesse beijar-me nas duas faces, tal qual como a outra o faria!
Não! Esta entrou com um ar um pouco seco, um pouco desconfiado, o que me entristeceu.
É bonita, loura, leve e elegante; fala cerimoniosamente, contando as sílabas.
Quis pô-la à vontade. Falei-lhe muito de meu filho, de sua infância, de seu talento; repeti-lhe suas frases de menino espirituoso, sua bondade; enfim, disse-lhe quanto o amava e quanto tenho a esperar dela! Surpreendi-me chorando diante de seus olhos, desgraçadamente enxutos!
Encolhi-me e pedi-lhe que me falasse dela, de seu amor, de suas esperanças....
Olhou-me atônita, respondendo com voz músical e talvez ofendida:
— Mas não sei o que lhe hei de dizer!
Não sabia o que me havia de dizer! Entendeste? Cruel, não achas?
Falam do egoísmo das sogras! Por que não viria esta nora, criança, bonita, feliz, ao encontro de meu coração, falando-me de meu filho e seu noivo, de como se viram, de como se amaram, quais os seus sonhos, quais as suas aspirações? Por que não pôs mais doçura em seu beijo, mais firmeza em seu aperto de mão, mais alegria em seu rosto de virgem venturosa?
Não! Não era esta a filha que eu pedia a Deus, e como eu compreendo e desejaria que fossem todas as mulheres: ternas, simples, expansivas sem demasia, amando no esposo todos os que o amassem, curvando-se um pouco para os velhos, que serão talvez um dia o melhor arrimo de seus filhos pequenos!
Eu queria uma filha; vem-me uma nora.
Ah! Afirmo-te que, se todas as noras fossem como filhas, nós seríamos todas como mães! — Tua, Adriana. »
Do álbum de Bertha
« Fui hoje visitar minha futura sogra. Eu, como não a conhecia, senti-me um pouco vexada quando a vi sentada em sua poltrona, sem se esforçar por vir, ao menos, ao umbral da porta, dar-me as boas-vindas!
Não foi sem comoção que entrei naquela casa, que será bem depressa a minha; entretanto, venci a impressão que me causaram aquelas paredes, onde não poderei pregar um quadro sem pedir licença à mamãe, aquele chão, que não poderá ser lavado tão amiúde quanto desejo, por causa de seu reumatismo, e toda a mobília, severa, triste, tão diferente da que sempre imaginei para meu ninho!
Seria bem melhor que vivêssemos à parte....
A mãe de meu noivo assustou-me um pouco. Parece-me que nunca me achará capaz de fazer a felicidade do filho! Falando dele... chorou! Que força ignota motivaria aquele pranto? Ciúmes de mim? Desconfiança? Antipatia? Fosse o que fosse, não me pareceu ocasião para isso! Saí apreensiva. Que me reservará o futuro? »
« Minha filha. — Deixa que eu acrescente algumas linhas nesta página, como tenho feito em tantas outras deste mesmo livro que nunca fechaste aos meus olhos.
Fizeste bem, porque às tuas vacilações de menina ofereci-te o apoio de minha experiência, e não imaginas com que desvanecimento e ternura procurei esclarecer-te e animar-te! É talvez esta a última vez que escrevo em teu livro; amanhã terás um novo guia a quem submeterás teus cuidados e receios. Confio nele e em teu critério, tanto como em teu coração.
Em teu egoísmo, tão bem refletido nesta frase: Seria bem melhor que vivêssemos à parte, desejas fazer um ninho onde tua personalidade se imponha. Foi por isso que sentiste tristeza entrando numa casa que será a tua e em que tudo já está criado e estabelecido. Tua decepção transforma-se em desconfiança irritante contra a pobre senhora, porque seus joelhos doentes não lhe consentiram caminhar para ti! Afasta esse pensamento e força-a amar-te por tua doçura e tua bondade. Para viveres bem em sua companhia, basta que a trates como me tens tratado: sem reservas.
Descansa, que tua influência há de modificar os usos e costumes da casa. Tua mocidade, tua alegria e teu amor farão daquele ninho de rola um ninho de canários, e ela te agradecerá essa transformação. Procura revestir teus atos de serenidade e de justiça e, sobretudo, trata de manter na casa o respeito por tua sogra.
Lembra-te sempre de que foram sua abnegação e seu amor que formaram o caráter do homem que te dará o nome e o melhor de sua alma!
Não te esqueças deste exemplo: nossa lavadeira, que é uma rapariga pobre e ignorante, disse-me há dias: minha sogra tem noventa anos e está sem juízo nem tino; dá-me mais trabalho do que todos os meus filhos juntos. É preciso que eu a lave, que a vista e que lhe ponha a comida na boca!
— Por que não a põe em um asilo? — perguntei-lhe, distraidamente.
— Cabe-me o dever de amá-la. É a mãe dele!
Lembra-te disto, filha, e não te receies das lágrimas de tua futura sogra. Quando teu noivo te pediu, eu também chorei, e amargamente, mas tu não viste e tudo passou. Agora, a mim, que serei a sogra de teu noivo, como à mãe dele, que será a tua, resta-nos, para consolação deste título, não sei por que desagradável, a esperança de termos o de avó, e avó do mesmo ente em que nos amemos todos e nos confundamos.
Repito: sê boa, que hás de ser feliz. — Maria. »