Primeira Parte — Os bailes Livro das Noivas · Capítulo 9 de 29
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Primeira Parte — Os bailes

Quando ontem cheguei do baile, corri a ver meu filho; vinha cheia de saudades, como se tivesse estado longe muito tempo....

Ele dormia serenamente sob o seu cortinado de filó, com o rostinho cor de leite iluminado pela tênue luz da lamparina, e as perninhas, gordas e brancas, sobre a coberta revolvida. Afastei o cortinado, curvei-me e contemplei-o longamente. A doçura daquele momento jamais me esquecerá! Como tudo o que eu deixara atrás de mim naquela festa rutilante e rica me pareceu mesquinho, triste e pálido à vista desse leito todo branco, onde o meu Afonso sonhava talvez com o sabor do leite ou com os afagos maternos!

Assaltou-me o remorso de o ter deixado, e pensei com pena nessas mães que correm sempre à busca das distrações lá de fora, deixando noites e dias consecutivos os seus filhinhos em casa, longe dos seus beijos e dos seus cuidados!

Pobre loucura a nossa! De todos os divertimentos com que a sociedade nos solicita, é o baile com certeza o mais prejudicial ao nosso lar. Se somos a ama de nosso filho, devemos procurar na boa higiene e no descanso tornar o nosso leite sadio e forte; que benefício nos traz a excitação nervosa de um baile? O dia seguinte é um dia de cansaço e de sono; não observamos, como das outras vezes, o alegre despertar do pequenino, que abre os olhos e se ri para nós, bonito como uma aurora! A criada entra-nos no quarto e leva-o consigo, deixando fechadas as venezianas das janelas, e nessa penumbra, e nesse silêncio dormimos até tarde; quando acordamos, o leito do filhinho está solitário, triste, e não ouvimos como nos outros dias o seu palrar encantador que nos soa ao ouvido como um gorjear de rouxinol!

Não vale a pena trocar por essa ventura o vaidoso prazer de arrastar num salão a longa cauda de um vestido de seda; não, minhas amigas, não vale a pena!...

E para as meninas solteiras?

Eu não sei bem o que pensam essas bonitas crianças que antes dos quinze anos já aparecem na sociedade com modo senhoril e muitas fitas. Essas futuras noivas, castas, puras, recatadas, não se contentam com o tule branco, nem só com as rosas do seu jardim; mostram, à claridade amarela e quente do gás dos clubes, os seus ombros e os seus braços nus, e nos decotes dos vestidos de seda prendem broches caros ou ramos de flores artificiais.

Para elas é muito maior falta não saber a valsa Boston ou a quadrilha americana que não saber falar corretamente. Esmeram-se, pelo menos, muito mais na dança.

O baile prende-as e apossa-se do seu espírito; é uma garra formidável e, para elas, deliciosa. É nele que ouvem as melífluas e banais lisonjas que as rejubilam (pobre inocência!); é nele que a sua coterie as envaidece, fazendo-as suporem-se com muito maior merecimento... e é nele que muitas vezes as compromete a assiduidade de um par pretensioso ou fútil.

Ó futuras noivas, recatadas e meigas, perdei menos noites na dança, e, quando fordes a um ou outro baile, pedi à vossa modista um vestido mais discreto, e ao jasmineiro do vosso jardim as suas florinhas estreladas e puras!...

Um dos males que nos afligem é a mania da dança. A propósito de qualquer coisa arma-se um baile. Assim, esta pobre população afogueada e doente, que vive a queixar-se de dispepsia e de dores, volteia na valsa noites inteiras, num furor que nada parece apaziguar!

Que importam os 31° do termômetro centígrado, se a orquestra rompe numa valsa de Strauss?

Não há dúvida que o baile é um divertimento galante, e, quanto mais luxuoso, mais atraente. Ele vem de tempos em que as cortes primavam em ostentar com esquisita gentileza todo o seu fausto e brilhantismo.

Nos minuetos, tão delicados e respeitosos, deslizava-se sobre os parquets, entre aromas de violetas e frescuras de rosas.

Lá fora ouvia-se, entre cascatas e luzes, o som da música cadenciada e doce como um suspiro.

Os cavalheiros, trajados de seda, curvavam-se diante das senhoras empoadas, e os espelhos refletiam os seus movimentos vagarosos e respeitadores, e as suas plumas cor da neve seguras com pedras finas.

Os bailes de hoje são mais cansativos, muito menos pitorescos e com certeza muito mais frequentes.

Vão lá saber por quê!

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