Primeira Parte — Os doentes Livro das Noivas · Capítulo 5 de 29
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Primeira Parte — Os doentes

Tenho uma profunda e doce simpatia pelas irmãs de caridade dos hospitais.

Tratar de um doente que amamos não é dever — é paixão. O que eu admiro é a sublime paciência, a enorme abnegação das religiosas, que passam a vida inteira ao lado de camas estranhas, vendo morrer gente desconhecida, salvando a custo pessoas que lhes voltarão as costas sem lhes atirarem um simples — obrigado!

Dizem que não há quem saiba ajeitar tão bem os travesseiros a um doente como as mulheres, o que não admira, porque, sendo muito mais carinhosas que os homens, são mais que eles prontas para o sacrifício.

Quem se dedica ao trabalhoso encargo de zelar e proteger enfermos carece, mais que ninguém, de bondade e de paciência, esse delicado atributo que nos ampara e fortalece. Além disso, é precisa uma certa habilidade para desenrugar ou mudar os lençóis sem mover muito o corpo do enfermo, arejar convenientemente o quarto, desinfetá-lo e arrumá-lo.

Quando não tenhamos serenidade de espírito, procuraremos dominar com a vontade toda a impaciência e todo o nervosismo, domando a besta brava ou irrequieta do nosso temperamento, adoçando o nosso caráter, tornando-nos amáveis e maternais para com o enfermo.

Junto à cabeceira de um doente amado, em profundas e dolorosas angústias, a mais débil, a mais frágil mulher adquire providencialmente ânimo, e é com um sorriso tranquilizador que enxuga o suor do enfermo, que lhe aconchega as roupas e lhe diz palavras de esperança, que muita vez não sente....

É com aparente calma que passa horas inteiras no sombrio e silencioso quarto, atenta ao relógio, evitando pressurosa a fresta de uma porta mal fechada, a condensação do ar abafado ou uma réstia de luz; identificando-se, enfim, com o seu doente, para quem, a seus olhos, a menor falta é um crime.

Ela, a enfermeira, não sente a perda das suas noites bem dormidas senão quando vê o seu doente salvo; mede o espaço que vai do remédio ao alimento, emprega todos os meios para vencer a má vontade dele, tem império e é meiga, impõe e suplica-lhe, debruça-se sobre o seu leito, assídua, como tentando insuflar-lhe a sua própria vida, e observando todos os fenômenos da moléstia para relatá-los ao seu médico escrupulosamente.

O que é certo é que muitas vezes a cura depende dos cuidados domésticos.

Feliz o doente que tem a seu lado uma enfermeira boa!

As impertinências de um convalescente, o seu estado as desculpa, mas, deveras, cansam.

É na convalescença que principia a luta com os pequeninos desejos irrealizáveis. Durante o período agudo, tratando de um doente a quem amamos, tratamos de nós mesmas; não é a paciência que nos rege então, é o amor; porém, quando todas as sombras se dissipam e a amiga voz do nosso médico nos diz: «Ele não morrerá», oh! então, bebendo nova vida nessas palavras, voltamos a pensar em nós.

É então que a enfermeira, ao sentir-se exausta, precisa de paciência para levar ao fim a sua abençoada tarefa, e é assim que arrasta a cadeira até junto da janela, para que o débil convalescente respire o novo ar da manhã e alegre a vista na contemplação do jardim, que lhe arranja as almofadas na poltrona, que lhe dá o braço e anda vagarosamente no seu pequeno exercício, que brinca com bonecas se se trata de uma criança, e joga damas, dominó ou cartas se se trata de um velho; que lhe faz uns pratinhos especiais, se ele tem fastio, ou lhe lê um livro, se ele gosta de leitura....

Quando a saúde volta, a alegre e abençoada saúde, despejando os seus mágicos aromas pelo ambiente, tudo parece renascer, preparar-se para uma vida nova, forte, plenamente feliz.

O ex-doente, entrando naquele mesmo quarto em que passou horas de angustioso desalento, queimado de febre, respirando numa atmosfera morna e saturada do cheiro dos remédios, quando as noites lhe pareciam intermináveis e os dias tristes, e vendo-o todo arejado, sorridente de alvura, fresco, perfumado, alegre, bem arrumado, bonito, abençoa a carinhosa enfermeira, cujo vulto se grava na sua memória agradecida....

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