Terceira Parte — As crianças
I
Ce qui s'aprend au berceau dure toujours.
Não sei que haja, para uma mulher de coração, prazer comparável ao de criar seus filhos! Eu, confesso, sinto um grande desvanecimento e um íntimo orgulho quando olho para o meu filho, criança robusta, que espalha por toda a casa o seu riso sonoro; e para a minha filhinha, que tem ainda o olhar inconsciente dos que principiam apenas a viver, e medito em que, tanto estes dois, como o meu adorado filhinho, morto aos dez meses, não tiveram nunca outra ama que não fosse eu!
(Isso, se não serve de lenitivo à enorme saudade que ele deixou, é ainda assim uma consolação, fácil de compreender pelas mulheres que se consagram ao mais penoso trabalho do amor, a criação de um filho.
Nestas páginas íntimas há de perpassar férvida e chorosa a lembrança desse ente adorado; é uma coisa que não pode disfarçar uma mãe, desde que, tendo perdido um filho pequenino, tem de falar em crianças! As minhas leitoras que me desculpem, lembrando-se de que isto não é literatura, mas uma palestra apenas.)
Fechado este parêntese, continuarei:
Não há nada mais encantador do que acompanhar o desenvolvimento de uma criança; e só a mãe pode seguir com atenção, desde que o crie, o desabrochar da inteligência e dos sentimentos de um filho.
Tenho comigo o livro de notas e impressões de uma jovem mãe empenhada nessa grande e doce obra; respigarei algumas para aqui.
É um livrinho sentimental, sem estilo, e muito repetido; às vezes monótono, às vezes pueril, mas sempre verdadeiro e sempre meigo. A minha amiga, que tão benevolamente mo confiou, que me perdoe a indiscrição:
— « 21 de janeiro. Faz hoje um mês o meu Jorge; as feições começam agora a acentuar-se. Já não está feio nem tem já a cor dos recém-nascidos. Sinto que o amo, e que o meu amor vai crescendo com ele!
Nos primeiros dias o meu sofrimento físico tolhia-me o entusiasmo; é agora, posso afirmá-lo, que principia para mim o embevecimento materno! »
— « 22 de janeiro. Sinto uma grande alegria quando vejo meu marido beijar o filho. Espero-o com impaciência, olhando de minuto a minuto para o relógio. Quando lhe ouço os passos, bate-me o coração. De onde vem este alvoroço? Sempre o adorei, sempre com alegria o vi chegar; mas agora, depois que Jorge nasceu, parece-me que ainda o amo mais! »
— « 23 de janeiro. Hoje eu tinha o meu filhinho deitado em meus joelhos, quando reparei na maneira por que ele olhava para tudo; observava paredes, cortinado, quadros e teto, como quem examina com a maior atenção e inteligência. Tive medo. Lembrei-me das teorias espíritas de que meu marido se ri, e de que, por conseguinte, eu devo rir também.... Foi tudo rápido; o olhar do meu Jorge voltou depressa à imbecilidade da primeira infância. »
— « 25 de janeiro. Ainda é para mim o primeiro beijo de meu marido, quando ele entra da rua; mas o primeiro olhar, esse é de Jorge! E eu não tenho ciúmes! Ao contrário, regozijo-me ao ver quanto meu filhinho é amado pelo pai.... »
— « 28 de fevereiro. Jorge sorri, que é uma delícia! Tem um sorriso vago, lindo, que parece vir de um sonho.... Já não usa touca; pés quentes, cabeça fresca, li eu ontem, como preceito de higiene. Assim, conservo-lhe os pezinhos calçados, mas a cabecinha ao ar. »
— « 22 de março. Jorge já ri alto! Foi um alvoroço hoje em casa, quando ele soltou um riso dobrado, um pouco soluçado. Que beleza! Também, todos o amam; até as criadas... até o cozinheiro! »
— « 21 de abril. Quatro meses e já quer agarrar as coisas que vê perto dos olhos! Estupendo! Nunca vi criança tão inteligente! »
— « 25 de abril. Ontem a tia Josefina amarrou um lenço vermelho ao ferro do cortinado da caminha do Jorge, para o entreter. O pequenito fixou o lenço, agitando os pezinhos e as mãos. Notei entretanto que ele envesgava os olhos e retirei o lenço.
Contando eu hoje isso ao nosso médico, ele disse-me que fiz bem, acrescentando: — Fique certa de que há duas coisas que muito concorrem para o estrabismo nas crianças: a primeira é apertarem a cabeça dos recém-nascidos, para a tornar redonda à força, com lenços, toucas estreitas, etc.; a segunda é fazerem convergir para um ponto, demoradamente, o seu olhar.
Há muitas mães, efetivamente, que, para descanso próprio, amarram coisas vermelhas nos berços ou leitos dos filhinhos. A criança, como que magnetizada pela cor escarlate, fica largo tempo em silêncio, curiosa e atenta. Isto sempre me pareceu que havia de ser mau. »
— « 27 de abril. Foi hoje vacinado o meu Jorge. Era tempo; quatro meses e seis dias de idade.... Tenho agora mais socego; ao menos contra as bexigas já estou apercebida! »
— « 18 de junho. O meu filhinho já se senta e conserva-se sem almofadas, perfeitamente à vontade. Dizem haver crianças que se sentam mais cedo... pouco importa! Ao menos o meu não será torto da espinha! »
— « 23 de junho. Como o olhar do meu filhinho se torna dia a dia mais refletido e mais doce.... Já não tem a expressão selvagem, dura e sombria dos primeiros tempos; agora os olhos de Jorge são ternos como os de um animalzinho afagado.... »
— « 12 de julho. Tive hoje uma grande conversa com um médico higienista. Aprovou o meu sistema de banhar a criança com água apenas morna, e de não lhe haver dado nunca a porcaria das chuchas! Aconselhou-me que desse de mamar a horas certas.
(Aí está uma coisa que ainda não consegui.)
E que à noite não o retirasse da caminha — « passeios e balanços cansam a mãe, e prejudicam a criança, que se deve habituar a largos sonos tranquilos, num leito fixo. » Escutei-o com todo o cuidado. Ele olhou para o meu filho com satisfação; examinou-o da cabeça aos pés, e depois disse esta frase, que o meu orgulho de mãe não esquecerá nunca: « Que prazer dá à gente o beijar uma criança assim tão limpa! »
— « 8 de setembro. Voltávamos esta manhã do Passeio Público, quando a minha amiga Maria, tirando o meu filho dos braços da criada, exclamou: « Um dentinho! O primeiro dente de Jorge! » e com o dedo apalpava a gengiva da criança.
Fiquei alegre e ao mesmo tempo despeitada... queria ser eu a primeira a descobrir aquele dente! »
— « 6 de outubro. Jorge já diz « Papai.... »
— « 27 de outubro. Já diz « Mamãe... » e cada vez que ele, com a boquinha muito aberta, pronuncia essas duas sílabas, é como se me vazasse uma quantidade de mel no coração.... »
— « 5 de novembro. Jorge ensaia agora os seus primeiros passos e mostra num riso satisfeito as gengivas cor de rosa, onde os dentinhos parecem quatro gotas de leite coagulado.
É alvo, é gordo, é alegre, e eu chego a pensar que essa maciez de pele, essa gordura e essa alegria, sejam obra do meu leite, do meu cuidado e do meu amor! »
— « 21 de dezembro. Faz hoje um ano o meu Jorge. Começarei a desmamá-lo amanhã.
« Um ano de aleitamento; nem mais um mês! » disse-me o doutor. »
— « 15 de janeiro. Copio neste álbum a carta que escrevi agora à minha irmã Georgina:
« Minha querida. — Podes dar-me os parabéns, porque me sinto feliz! Acabei a criação do meu Jorge, teu afilhadinho. Como em breve também serás mãe, e mãe pela primeira vez, deixa-me dar-te aqui alguns conselhos que me foram dados pelo nosso médico e que eu segui com imenso proveito.
Escuta bem: Antes dos seis meses não dês nunca a teu filho, ou filha, leite que não seja o teu. És magra, és fraca? E eu também não o sou? E não criei meu filho, gordo, corado, lindo? Acostuma-o a passar a noite inteira, desde as oito horas, na sua caminha, sempre no teu quarto — não o deixes dormir com criadas.
Depois dos seis meses poderás auxiliar a amamentação, pelo menos eu assim o fiz, espaçando mais as horas de mamar. Aconselha-te com o teu médico sobre o que deves dar a teu filho. O meu tomava fosfatina duas vezes ao dia, num mingauzinho muito ralo, desfeita em leite de vaca.
Dei-me bem; mas dar-se-ão tão bem os outros? Até aí não me aventuro a dizer.
Lava o teu filho a horas certas; durante o primeiro ano eu prefiro a hora do meio-dia....
Enfim, minha querida, não o envolvas em muitas lãs, não o tragas sempre ao colo, e verás que lindeza de criança será a tua! É um ano de privações, o do aleitamento; mas, concluída a missão, que alegria e que orgulho para a nossa consciência! Uma coisa que também te aconselho: diverte-te; quero dizer, não te deixes ficar em casa a criar o mofo e a ferrugem da indolência. Apanha sol, ar, faze exercício, come bem, que assim o leite que sair do teu seio para a boquinha sôfrega da criança será mais abundante, mais sadio, mais puro, mais alegre, (deixa-me dizer assim, visto que da saúde depende a boa alegria!)
Ser mãe não é fácil, desde que a gente o queira ser — como se deve ser.
Tu verás, minha Georgina, como um filho desperta hinos de glória em nosso coração! Sofre-se muito, muito, muito, quando se é mãe; mas, crê-me, também se é muito feliz! Uma doença, um ai, um suspiro mais alto, às vezes só percetível aos nossos ouvidos, faz-nos estremecer, perder noites, chorar lágrimas quentes; mas um sorriso, um beijo ao despertar, um abraço estreito em que sentimos o nosso pescoço envolvido por dois bracinhos nus, muito redondos e branquinhos, é ventura que a miserável lingua humana não pode significar, e que só o coração entende — quando se é mãe! »
Fecho o livrinho de notas, que talvez ainda um dia eu reveja, não quando tratar das crianças, mas quando tratar das mães. Há nele uma série de observações, que não dizem respeito senão ao sentimento da mulher, e que omito por ser deslocada aqui.
O desfalecimento, a coragem, a luta, a agonia, o riso e a dor, tudo se embaralha nessas páginas escritas sem cuidado, na reserva da alcova, entre o berço e o leito conjugal. Selado o livro íntimo da minha amiga, continuarei a conversar sobre o nosso querido e batalhado assunto.
II
Minhas amigas, muitas vezes depende da nossa vontade, exclusivamente da nossa vontade, o amamentarmos nossos filhos.
Iludimo-nos frequentemente a respeito de nós mesmas! Temos força, e julgamo-nos fracas; temos coragem, e supomo-nos medrosas!
Dizem que somos débeis (e chegam a convencer-nos) porque somos franzinas, ou porque somos pálidas, ou porque somos tristes! Não se lembram de que tudo isso é efeito de uma educação mal feita — contra a qual devemos reagir a bem de nossos filhos — passada no interior da casa, sem exercício, sem convivência, sem jogos, sem despreocupações de preconceitos, sem estudo bem ordenado, sem viagens, sem variedade, sem alegria, enfim!
Essa tristeza e essa inércia vêm do leite das amas negras, escravas e mártires silenciosas, ou criaturas indiferentes e boçais; vêm da falta de método, de atividade física; vêm sobretudo da nossa vida concentrada e excessivamente caseira.
Para sermos boas amas, precisamos, antes de mais nada, submeter-nos a um regime novo. Não é a vida da sociedade, enervante e doentia, a que nos convém, nem a vida de clausura que habitualmente levamos, entre o calor do borralho e a estupidez das criadas.
Nós, as brasileiras, tratamos a nossa saúde sem inteligência nem cuidado.
Andar a pé! Quem nos fala nisso! Desconhecemos os passeios higiênicos feitos pela manhã, quando a vegetação rescende ainda o frescor perfumado da noite e o sol tem a temperatura branda que não nos fere a pele com as agulhadas brutais do calor do meio-dia.
Temos medo da água fria no inverno, de fantasmas à noite, e de sair sozinhas à plena luz do dia. Cercadas de sustos e de preconceitos, julgamo-nos algumas vezes inábeis para realizar uma empresa, como a da amamentação, que, se é em extremo fatigante, oferece também vantagens perfeitamente compensadoras; ou então, abraçamos de olhos fechados esse encargo, sem cogitarmos da sua responsabilidade, nem da nossa competência!
A amamentação não é coisa tão simples, para ser feita sem preocupações de espírito, nem tarefa que se leve ao fim sem fadiga do corpo.
Felizmente, a mulher brasileira não se poupa, em geral, ao trabalho de criar os filhos. A nossa índole meiga impele-nos para o cumprimento desse dever.
O que nos falta, não é bondade, nem paciência, nem desvelo, mas sim a ciência de educar, tão necessária à vida da mulher.
Todas as que vou dizer aqui, são coisas já muitas vezes ditas e repetidas. Não importa. O assunto requer insistência. À força de falarmos numa coisa, acabamos por habituar-nos a ela. Ora, é claro que a maior parte das mães sabem todos os preceitos de higiene durante o período da amamentação; mas é também certo que, infelizmente, a maior parte não os executa.
Por quê? Indolência? Não; hábito.
É comum, até nas casas ricas, de bom tratamento, verem-se crianças carregadas de bugigangas ao pescoço, com a cabeça cheia de caspa e os beicinhos numa sucção continuada, pelo hábito de sugarem o pano das abomináveis chuchas.
Revoltante.
Recomendo às minhas leitoras, isto é, àquelas a quem esta parte do livro possa interessar, que não deixem de ler as obras consagradas à higiene infantil e aos deveres das mães para com seus filhos. Eu li os conselhos do Dr. Garnier, guiei-me por eles e para este capítulo os irei trasladando, certa de fazer alguma coisa útil.
Tratar das crianças, tonificá-las, ensiná-las a rir, pôr-lhes rosas nas faces em vez de escrófulas no pescoço, ir corrigindo, tanto quanto possível, a organização depauperada e triste da geração atual, não é certamente coisa fácil, mas não será também tão difícil quanto à primeira vista possa parecer.
É coisa dita e repetida por moralistas e higienistas, que não basta ter-se sofrido as fadigas da gravidez e as dores do parto para se ser mãe! É ainda além disso preciso afrontar os trabalhos do aleitamento, levando a cabo o cumprimento da missão que a natureza impõe. Por quê? Porque o leite é o sangue, e no sangue pode ir a transmissão das paixões, das doenças, dos vícios constitucionais, de defeitos de gênio e de caráter, tanto como pela geração. Porque o leite de uma outra mulher pode infiltrar no nosso filhinho sentimentos de que mais tarde tenhamos de corar!
Eu considero como uma das maiores felicidades da minha vida o ter sido criada por minha mãe; tudo o que eu sinto de doçura na minha alma, parece-me ter vindo do seu coração, e é o que desejo transmitir no meu leite aos meus filhos!
E lamento realmente as pobres mães que, desejando amamentar os seus filhos, não o podem fazer! « A obrigação moral cessa de existir desde que, pela sua fraqueza ou má qualidade, o leite da mãe seja prejudicial à criança. »
— É bom saber-se que uma mãe não tem necessidade de reunir tantas condições físicas de força e de saúde como a ama mercenária; se assim não fosse, bem poucas poderiam criar.
Muitas mulheres delicadas, que seriam incapazes de amamentar crianças alheias, podem criar seus filhos muito melhor do que uma ama robusta.
Todas as senhoras devem, repito, ler com escrupuloso cuidado, antes do nascimento do seu primeiro filho, algum livro concernente à boa higiene das amas e à amamentação das crianças.
Ficarão sabendo assim que devem alimentar-se bem, evitando os alimentos muito avinagrados ou ardentes, não sendo o seu regime, nem exclusivamente vegetal, nem exclusivamente animal; que devem dormir pelo menos de seis a sete horas, fazer exercicios moderados ao ar livre; que devem secar o seio com uma esponja ou pano fino, cada vez que a criança acabar de mamar, evitando assim as escoriações ou as aftas (sapinhos) na boca do recemnascido; que não deverão nunca dar o seio à criancinha depois de um acesso de cólera, de um grande susto ou de uma grande alegria, sem esperar que se restabeleça a calma.
« A influência das impressões morais da mãe sobre o leite e a criança, é tão notável pela sua constância como pela instantaneidade da sua ação. »
A higiene das criancinhas é sabido no que consiste: ar puro e renovado, passeios a jardins, muito asseio, banhos diários com água fresca, seguidos de brandas fricções com uma esponja ou toalha seca; cabeça bem lavada, esfregada com uma escova macia, a fim de auxiliar o nascimento do cabelo e de não deixar a caspa acumular-se sob a forma de crosta, como a dos tinhosos, que as mães ignorantes ou pouco limpas respeitam como uma erupção inevitável!
Eu, que adoro as crianças, não tolero a vista dessas cabeças que, em vez de atraírem beijos, repelem-nos pela sua imundície!
Muitas vezes, passando pelas estreitas e escuras casas da cidade, tenho vontade de ir arrebanhando essas tristes e pálidas criancinhas que formigam às portas, arrastando os membros sujos e nus pelas calçadas, engatinhando apenas ou andando de um modo vacilante, cai não cai! O meu desejo é trazê-las a todas, tirar-lhes com óleo a caspa, com sabonete e água tépida as manchas negras dos seus corpos mimosos, vesti-las de limpo e levá-las, depois de uma sopinha quente, para um jardim onde se rissem, onde aparecessem tais quais são — como flores animadas e bonitas!
No Brasil ainda há pouco o hábito de passear as crianças nos parques e nos jardins!
Entretanto, essa é uma das medidas mais salutares nas cidades. Logo que as forças musculares o permitam, o exercício das crianças deve ser ativo, têm mais precisão dele do que os adultos. « Os ócios são mais perniciosos do que úteis. »
« O embalamento ou balanço do berço está sendo agora muito condenado, a menos que não seja suavíssimo! Os movimentos bruscos, as sacudidelas violentas, não podem senão impressionar o cérebro excitável da criança e determinar desordens graves, turbando as funções digestivas. O berço deve ser fixo como o leito dos adultos. »
Aconselham-nos também os higienistas a que deixemos as crianças aprenderem a andar por si; elas ensaiam-se primeiramente de gatas, como os animais, e erguem-se quando sentem a força precisa.
A natureza, como afirma Spencer, vem muitas vezes em nosso auxílio na educação da primeira infância. Outra coisa que é bom deixar de ensinar cedo, é a falar. Muitos vícios de pronúncia nos adultos têm a sua origem na tagarelice da infância.
Eu esperei pacientemente pelos primeiros passos de meu filho e não lhe ensinei a balbuciar uma única sílaba!
A questão principal, que mais nos assusta durante os primeiros meses, é o choro do nosso filho. Entretanto, dizem os livros autorizados, que, desde que os gritos não passem de certos limites, são um exercício favorável ao desenvolvimento dos pulmões e à atividade da digestão!
Logo que a criança não tenha fome, nem sede, nem incômodo de vestuários, nem nenhum outro mal-estar, podemos deixá-la chorar à vontade!
A criança deve mamar a espaços determinados e não estar muito tempo no colo, nem muito tempo na cama.
A educação vai começando assim, desde os primeiros dias.
O que o berço dá, a cova o leva, diz o provérbio.
Quando recemnascida, a criança é como que uma rosa, onde os olhos, como gotas de orvalho, refletem o mundo exterior, vagamente....
Para a mãe, aquele corpo pequeno e brando não tem nada de material! Para tratá-lo toda a delicadeza e cuidado lhe parecem poucos: quando o veste, quando o lava, julga as suas mãos pesadas e teme ofendê-lo!
Mas o tempo vai correndo. A carne mole e gelatinosa do infante torna-se dura e cor de leite: desponta como numa aurora o primeiro sorriso; o olhar abre-se curioso e é às vezes pensativo; ele vai pouco a pouco regularizando os movimentos, as mãozinhas já não param levantadas acima da cabeça, movem-se no ar como umas azas deliciosamente pequeninas... Cada dia é uma graça nova: hoje uma risada... em outro dia o ensaio para pegar em um objeto qualquer... até que chegam os grandes acontecimentos: o primeiro dente! A primeira palavra! O primeiro passo!
A família reúne-se; a mãe ri, ajoelhada, com os braços abertos, à espera do seu anjinho que, sentindo a falta das azas, mal se equilibra em pé, e com ar assustado, vai trêmulo e vacilante cair-lhe sobre o peito!
Tudo quanto pertence à criança da casa tem um certo encanto misterioso para os que a amam.
A caminha de Bebê, com o seu cortinado simples, parece um lugar sagrado, uma coisa divina; a cadeirinha de Bebê, a roupinha de Bebê, até os sapatinhos, acalcanhados pelos seus pés roliços, guardam um não sei quê, que vem dele, da sua graça, da sua pequenez...
Também, se Bebê morre!....
Fugindo desse pensamento horrível, procuremos sempre tornar os nossos filhinhos saudáveis. Todo o empenho que ponhamos nisso, desgraçadamente eu o sei, é, mesmo assim, algumas vezes inútil, e eles deixam-nos com o coração sangrando para a vida toda! Mas que ao menos às mães que passam por essa agonia, não as punja mais tarde o remorso de terem cometido uma ou outra falta, um ou outro desleixo!