Segunda Parte — Notas de uma ménagère Livro das Noivas · Capítulo 19 de 29
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Segunda Parte — Notas de uma ménagère

Dizendo eu hoje a meu pai que desejo me mudar, ele aconselhou:

— Procura habitação arejada, clara, seca e, se puder ser, perto de arvoredo. Antes da mudança, manda desinfetar a casa com todo o rigor, desde a porta da rua até a do quintal, e fazer depois grandes lavagens com água fervida e potassa; não será excesso de limpeza mandar empregar também o sabão e a águarrás, esta na lavagem de pias, esgotos etc.

Todo o cuidado é pouco. Muita gente adoece sem saber por quê. Se indagassem, haveriam de encontrar a causa nas paredes, no chão, nas portas, nos canos de esgoto, em todos os recantos da casa, que outros, às vezes pouco escrupulosos, deixaram com micróbios de moléstias infeciosas. Procura sempre saber se na casa morreu alguém e de que morreu. Nem é preciso ter morrido; basta ter havido algum doente de moléstia contagiosa para o perigo ser enorme.

Vou te dar um exemplo disso:

Há meses tive um doente de bexigas em uma casa. Ficou bom; pois bem, pouco tempo depois vi de lá sair um enterro. Era de um novo morador, que falecera da mesma doença! Apesar do meu aviso, a casa não fora convenientemente desinfetada. Entre tantas moléstias que de todos os lados nos assaltam, nunca são demais as precauções.

É bom deitar algumas gotas de Fenol Bobeuf na água com que lavamos a boca e presidir à toilette das crianças para que não esqueçam isso. O fenol é um excelente preservativo contra moléstias da garganta e dos dentes. Só depois da lavagem da boca é que se deve beber o café da manhã, coisa que, por um hábito preguiçoso e pernicioso, muita gente toma ainda na cama.

Convenci-me hoje de que todas as mulheres devem ter uma profissão.

Conheço duas senhoras desgraçadas. Uma ficou órfã, a outra viúva, e nenhuma está habilitada a ganhar bem a vida. Lembrei-lhes o comércio. Não sabem contabilidade. Lembrei-lhes a tipografia, a telegrafia, a gravura, a farmácia, mas de que expedientes se hão de valer para sustentar a família enquanto estudam?

Este exemplo fez-me tremer. Se eu tiver filhas... por Deus! Hei de prepará-las para poderem vencer estas dificuldades!

Todas as famílias devem perguntar ao seu médico com que devem desinfetar diariamente a casa em tempos de epidemia e quais os remédios que é bom ter sempre à mão.

Capacitei-me da absoluta necessidade de um livro de assentos. Fiquei ontem perplexa quando vi que todo o meu dinheiro havia acabado. Mas como?! Em quê?! Confesso que ordenar a papelada me confunde e aterra! As contas, os recibos, as notas dos fornecedores... tudo isso está a reclamar a minha atenção e o meu cuidado. Parece-me que o melhor meio é, além do livro onde registre as minhas despesas, ter uma gavetinha exclusivamente destinada às contas e aos recibos, que deverão estar sempre bem emassados, com a data do ano, por fora, em carateres claros.

Perfeitamente! Este mês correu tudo às mil maravilhas! O meu livro de assentos cá está, todo somado e completo. Agora, sim! Não dou tratos à memória para adivinhar onde e em que gastei o dinheiro.

Vejo-me atrapalhada quando tenho de ensinar um criado novo a arear metais de diversas qualidades. Hei de pedir a meu marido um livro de receitas úteis em que tudo isso venha explicado. Estou convencida de que, com um bom livro, qualquer senhora caprichosa será boa mestra.

Escrevo aqui um conselho de minha mãe:

Não indagues nunca os nomes nem os hábitos dos teus vizinhos. Toda a curiosidade nesse caso é embirrativa e de má educação. Fica certa de que, quanto mais longe morares das tuas amigas, melhor te darás com elas. Despreza as intrigas e proíbe que venham dizer na tua casa o que se passa na dos outros.

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