Terceira Parte — Entre dois berços Livro das Noivas · Capítulo 25 de 29
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Terceira Parte — Entre dois berços

A gente antiga costuma dizer, ao ver os recém-nascidos sorrirem a dormir, que eles sonham com os anjos. É a explicação que acham para a doçura celestial daquele riso que desabrocha, como uma flor, todo rescendente de poesia e de graça.

Efetivamente, eu não sei que haja nada mais suavemente lindo que uma criança adormecida!

Naquele repouso leve como que se adivinha a proteção de uma asa, para nós oculta, para eles visível, que os enche de confiança, cobrindo-os todos.

Entre o linho dos lençóis a criança estende-se molemente, numa atitude que não mostra nem o cansaço nem a languidez.

A sua carnação branca e delicada, cor de leite e cor de rosa, faz lembrar um lírio todo iluminado pela luz da aurora, a mais cândida das flores na mais augusta das horas, que tivesse vindo de um jardim sagrado, e sido deposta ali, levemente, com todo o mimo e cuidado.

Nos berços dos meus filhos quantas coisas vejo que os meus olhos de mãe se não cansam de admirar! O mais velhinho tem agora dois anos.

O seu sono já não tem a mesma pacificação do primeiro ano; agora revolve-se, agita a cabecinha encaracolada e loira, atira os braços para o lado, e dos seus lábios vermelhinhos sai uma ou outra palavra que me permite reconstruir ou imaginar os seus sonhos; e vejo assim galoparem cavalinhos de pau, de crina hirsuta e rabo ao vento, enquanto sobre uma lata de bolachas milk, um gato de algodão branco com olhos de vidro e orelhas de coelho, volta a cabeça e mia lamentosamente....

Ele trabalha em sonhos as suas travessuras do dia; sobe em cadeiras, recolhendo e misturando as chaves das portas; desenha cavalinhos fantásticos, com o lápis, deitadinho de bruços no chão, sobre um papel já muito rabiscado; brinca com uma garrafa vazia, fazendo-a de boneca, e pasma interessado em frente a um urubu que bate as grandes azas sobre o muro do quintal, ou ri-se para os pombinhos que se atrevem a chegar à porta da sala de jantar, levantando para ele as cabecinhas graciosas.

Ah! aos dois anos já os sonhos às vezes atormentam, e o corpo das crianças pesa no colchão, como um corpo cansado! A imaginação já trabalha, o corpo move-se muito, a prostração é inevitável e apodera-se da criança à hora do sono; mas, mesmo assim, que diferença há entre o seu dormir e o dormir do homem! Este, quando adormece, cai como um morto; aquela, quando dorme, parece ensaiar as azas para o voo!

Erguendo a vista de sobre o meu filho mais velho, olho para o mais novo. No seu rostinho muito redondo, emoldurado pela rendinha da touca, há uma serenidade encantadora. De vez em quando suspira... depois sorri-se... e eu, lembrando-me do que diz a gente antiga, parece-me que vejo através das suas pálpebras mimosas, um cortejo de anjinhos, entre nuvens e grinaldas de flores, cantando todos uma deliciosa canção inocente e embaladora!

(1891)

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