Capítulo 2 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 2 de 28
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Capítulo 2

Capítulo 2

Nicolas

A água não estava tão gelada. Os treinos na piscina fechada do condomínio costumavam ser difíceis porque o Sol iluminava aquele espaço por pouco tempo e a água não era aquecida. A mãe de Nicolas já tinha até proposto contribuir com um valor maior do que o dos vizinhos para a instalação de um aquecedor, mas a assembleia não concordou, ao menos por enquanto, porque o condomínio ainda estava reformando a quadra de tênis.

Nicolas tinha recebido uma nova carga de treinos, um pouco mais pesada. Quando precisava treinar em casa, sozinho, a vontade de não fazer nada era grande, mas o treinador sempre percebia quando ele não tinha cumprido as séries corretamente. Às vezes, Nicolas acreditava que era observado pelas câmeras de segurança, mas logo se lembrava de que isso era proibido pelas regras do condomínio. Com a influência de seu pai, não seria difícil conseguir algo assim, mas ele preferia acreditar na capacidade do treinador de perceber sua evolução.

Ficava triste naquela solidão da piscina olímpica. Lembrava de quando era menor e sua mãe comparecia a muitos treinos, orgulhosa dele. Desde pequeno, era um nadador prodígio. Aos poucos, porém, a memória devolvia algumas realidades que provavelmente ficavam soterradas sob as lembranças boas. Na maioria das vezes, quem estava ali era Naiá, sua babá, e não sua mãe. Ainda assim, alguém o acompanhava. Viviane, sua mãe, estava no quadragésimo quarto andar daquele mesmo prédio, provavelmente vendo algum perfil de moda, acompanhando um tutorial ou planejando um de seus vídeos. Infelizmente, o sucesso que ela acreditava ter na internet era bem menor do que a realidade, mas, apesar disso, gostava do status que aquilo lhe trazia.

Carlos, seu pai, era empresário e basicamente trabalhava com investimentos. Nicolas nunca sabia ao certo o que ele fazia. A família de sua mãe também tinha muito dinheiro. O avô materno foi uma figura muito conhecida no interior, dono de grandes comércios e, mais tarde, político. Deixou uma boa herança para a avó de Nicolas, que soube cuidar bem dos negócios e unir riquezas ao avô dele, que também tinha muitas posses. Como diz o ditado, riqueza parece atrair riqueza.

Mas Nicolas não se sentia tão sortudo assim, apesar de amar nadar e de estar cercado pelo conforto daquela enorme piscina. Ele tinha fobia social, mas também carregava um desejo enorme de que, pelo menos uma vez, alguém entrasse por aquela porta e, mesmo de longe, lhe fizesse companhia. Isso nunca aconteceu.

Nicolas refez mentalmente sua agenda. Naquela semana, ainda teria treino de tênis, aula de piano, reforço de alemão e ainda não sabia se poderia ir à equitação, porque, na semana anterior, o tempo tinha sido muito chuvoso e deixara o haras enlameado e perigoso. Seu pai não permitia que ele fosse nessas condições.

Na escola, sua turma tinha sido inserida num novo programa de estudo avançado para o vestibular, em que cada aluno teria um acompanhamento personalizado em cada matéria para se preparar para os exames de acesso às faculdades públicas. Ele ainda não precisava escolher o curso que faria, mas teria de definir com alguma precisão se pretendia se dedicar a humanas, exatas ou biológicas. Seu pai gostaria muito que ele fizesse direito. O desejo de Nicolas era não fazer mais nada quando os estudos terminassem. Talvez, assim, pudesse finalmente aproveitar o tempo para viver. Ou então poderia fingir que fazia alguma coisa, como acreditava que seus pais faziam na vida real.

Não sabia se conseguiria suportar tanta pressão. Acreditava que ninguém deveria ser obrigado a viver sob tamanho peso, tamanha angústia. Não tinha amigos, não se sentia querido, não tinha liberdade, não podia fazer escolhas.

Deu mais uma volta completa na piscina, a última.

Seu relógio, que monitorava a frequência cardíaca, vibrou, informando que ele tinha completado o treino e que já era hora de passar para a próxima missão do dia. O motorista já o esperava para levá-lo ao curso de programação. Esse era, pelo menos, o compromisso de que mais gostava. As máquinas lhe pareciam mais fáceis de entender do que as pessoas. Por mais complexa que pudesse ser a teoria, a prática quase sempre se refletia em realidade. Já as atitudes humanas eram, para ele, um verdadeiro mistério inexplicável.

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