Capítulo 28
Capítulo 28
Mundos
Pessoas que passavam pela rua presenciaram a queda de Jobson. Ninguém conseguia imaginar como ele poderia ter sobrevivido àquilo, mas ainda houve um breve movimento, como se ele tentasse fazer força para se levantar. Não conseguiu nem mesmo se virar. Um socorrista do prédio, que agora contava com uma brigada de incêndio treinada, afastou os curiosos até a chegada dos bombeiros. Eles o moveram com o cuidado com que se toca algo prestes a se desfazer. Qualquer gesto errado poderia matá-lo. Levaram-no ao hospital, onde ele entrou em coma.
Jobson tinha lesões gravíssimas na coluna, nos membros, no cérebro, no tórax e no abdômen. Costelas, braços e pernas estavam quebrados em múltiplos pontos. Nenhum órgão vital tinha sido atingido diretamente, o que só aumentava o espanto em torno da sua sobrevivência. Passou por várias cirurgias, recebeu um cateter craniano para reduzir o inchaço cerebral e mais de quinze litros de sangue em transfusões. Ninguém sabia ao certo como ele continuava vivo. Menos ainda se continuaria.
Evidentemente, o casamento não aconteceu.
Depois de tudo, Nicolas passou a ficar ao lado de Jobson o tempo todo. Karina fez o mesmo. Os dois chegaram a discutir mais de uma vez, até que a mãe de Jobson pediu que não aparecessem mais. Mesmo assim, ambos continuaram fazendo plantão do lado de fora, em turnos silenciosos, ocupando espaços diferentes da sala de espera e aguardando qualquer chance de saber notícias.
Nicolas assumiu publicamente que tinha se envolvido com o amigo. Deu entrevista a um jornal, dizendo que queria acabar de vez com a história dos rótulos, com a obrigação das aparências e com a cultura sensacionalista em torno da vida social das pessoas.
Karina publicou uma nota pedindo desculpas pelo que tinha feito. Contou que desistira da publicação da matéria e admitiu que estava apaixonada por Jobson. A confissão gerou, na mesma hora, uma avalanche de acusadores e defensores nas redes sociais, algo que ela não pretendia ter provocado. Diante disso, decidiu encerrar sua passagem pela revista. Concluiu que já tinha acumulado dinheiro suficiente para parar por um tempo e descobrir se ainda era capaz de ser diferente, talvez até de se aproximar da mulher que Jobson tinha enxergado nela.
O pai de Nicolas, diante de todos os acontecimentos, foi o primeiro a agir de verdade. Logo após o atendimento inicial, entrou em contato com médicos e providenciou a transferência de Jobson para um hospital de ponta, administrado por um amigo. Todos os procedimentos dali em diante ficaram por conta dele. Também montou uma estrutura de acolhimento para Fernanda, a mãe de Jobson, oferecendo-lhe uma casa próxima ao hospital como parte de um “pacote de indenização” e criando um fundo que lhe garantiria uma renda mensal equivalente ao salário que o filho recebia, além de um valor extra. Ela assinou os papéis, embora achasse a esmola grande demais.
Com o passar dos dias, e com Jobson ainda sem despertar, Fernanda acabou permitindo, aos poucos, uma reaproximação. Primeiro de Nicolas. Depois, algum tempo mais tarde, comovida pelo sofrimento evidente de Karina, também dela.
Mais de dois meses se passaram e Jobson, embora já não dependesse de aparelhos para continuar vivo, não acordava. Não tinha dado um único sinal. Ainda assim, sempre havia alguém ao lado dele: a mãe, os irmãos, Nicolas, Karina, Dafne e Cristina, que, após o cancelamento do casamento, tinham finalmente assumido um namoro. Mas, sem dúvida, os mais constantes eram Nicolas e Karina.
Até que, um dia, Jobson acordou.
Era Nicolas quem estava com ele quando abriu os olhos. Jobson tentava se mexer, tentava falar, mas não conseguia. Entrou em crise. Enfermeiros invadiram o quarto e precisaram sedá-lo.
Quando a situação se estabilizou, Nicolas começou a explicar, com o maior cuidado que conseguiu, em que estado ele se encontrava. Contou que estava desacordado havia mais de dois meses, que não apresentava respostas musculares e que tudo indicava que talvez não recuperasse os movimentos se voltasse a despertar por completo. Disse também que o cérebro tinha sido afetado e que ninguém sabia ainda quais seriam as sequelas. Pediu calma.
Em seguida, perguntou se Jobson conseguia entender o que ele dizia. Como não podia mover o pescoço, Jobson tentou mexer os olhos para cima e para baixo. Nicolas então testou: pediu que ele movesse os olhos para os lados se quisesse dizer não. E Jobson conseguiu. Nicolas explodiu de felicidade.
Foi nesse momento que Jobson começou a chorar. Nicolas também não segurou as lágrimas. Abraçou-o, com todo o cuidado do mundo.
Depois disso, começou a lhe contar o que tinha acontecido. Disse que a mãe estava bem, falou da casa nova, dos irmãos, agora mais responsáveis. Falou também de Karina, do arrependimento dela e da dedicação diária com que vinha acompanhando tudo, a ponto de ter conquistado inclusive a amizade de Fernanda.
Jobson pareceu se agitar. O rosto mudou. Nicolas pediu que ele tentasse descansar e pensar com calma. Já tinham avisado à sua mãe, e ela estava a caminho.
Quando Fernanda chegou, a emoção foi ainda maior. Disse ao filho, entre lágrimas, o quanto o amava. Pediu que ele entendesse que nada mais importava. Que ele era seu filho e que nada, jamais, poderia se colocar acima do amor de uma mãe. Abraçou-o sem saber sequer se podia tocá-lo daquele modo. Nicolas a amparou enquanto ela chorava.
No dia seguinte, quando Karina foi vê-lo acordado pela primeira vez, estava tomada de medo. Mesmo tendo pedido perdão, mesmo tendo se declarado, Jobson não olhou para ela. Ainda assim, continuou indo ao hospital. Ficava do lado de fora, esperava notícias com Nicolas ou Fernanda, fazia vigília na recepção.
Os dias passaram. Aos poucos, vieram pequenas conquistas que, para todos, eram imensas vitórias: um leve movimento da cabeça, um tremor do maxilar, um som arrancado pela língua. Infelizmente, o diagnóstico médico era duro. Braços e pernas dificilmente voltariam a apresentar movimento, pelo longo tempo sem resposta neurológica.
Os fisioterapeutas, no entanto, eram ativos e dedicados. Karina passou a acompanhar as sessões de longe, muitas vezes feitas numa área mais aberta do hospital. Um dia, Nicolas foi buscá-la porque, de alguma maneira, Jobson tinha sinalizado que a queria ali por perto. A partir daí, Karina voltou a integrar o círculo mais próximo.
Ela passou a ler para ele os textos que escrevia. Tanto os ensaios sobre história e filosofia, área em que agora se especializava, quanto os contos que vinha começando a produzir. Para ela, era maravilhoso perceber o interesse no olhar dele ao ouvi-la.
Com a ajuda da tecnologia, Jobson finalmente começou a conseguir se comunicar. Sensores ligados à sua cabeça permitiam que uma máquina falasse por ele. Ainda não era capaz de dizer qualquer coisa. Em muitos momentos, as frases saíam truncadas, confusas. E a máquina interrompia tudo quando detectava um nível alto de estresse.
O tempo continuou andando. Os meses se acumularam, depois vieram anos. A vida foi lentamente se reorganizando em volta de Jobson. Fernanda, em parceria com Viviane, montou uma ONG de apoio a vítimas de trauma, qualquer trauma, qualquer pessoa que sentisse precisar de ajuda. Nicolas terminou a faculdade de Direito e começou a advogar. Karina estava prestes a receber um prêmio importante por um de seus livros.
E os dois fingiam, com grande esforço, que não estavam se apaixonando um pelo outro tendo Jobson como centro de aproximação.
Jobson percebeu tudo.
Sabia que os dois faziam força demais para negar a si mesmos o que estava se formando ali. Um dia, usando a máquina, disse com todas as letras:
“Fiquem juntos!”
Os dois não entenderam de imediato. Então Jobson insistiu:
“Felicidade. Quero felicidade.”
Ele percebia que o aprofundamento do sentimento entre os dois, depois de tanto tempo compartilhado em torno dele, era justamente o que faltava para que pudessem ser felizes. Sentia que ambos continuavam tristes. E não era por sua causa. O que tinha doído nele já estava assentando. Neles, não. Ele conseguia dizer tudo isso apenas com olhares, expressões e poucas palavras.
Algum tempo depois, com a ajuda de Karina, Jobson conseguiu escrever o próprio livro.
Num dos trechos mais famosos, daquele que acabou se tornando um best-seller, ele dizia:
“O grande problema de nós, humanos, é achar que existe o nosso mundo e o mundo dos outros. Depois a gente inventa mais um monte: mundo de rico, de pobre, de preto, de branco, de homem, de mulher, de quem ama de um jeito ou de outro. Mas o sofrimento atravessa todos. O desejo também. No fim, existe um mundo só. E talvez a nossa desgraça comece justamente quando esquecemos disso.”