Capítulo 8 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 8 de 28
Obra Menu

Capítulo 8

Capítulo 8

O Dia Sem Fim

Jobson achou estranho que, até aquele horário, a mãe ainda não tivesse chegado. Às vezes ela fazia hora extra, por isso um atraso de uma ou duas horas não o assustava. Mas já era tarde da noite e, apesar do dia longo que tivera, decidiu que precisava fazer alguma coisa.

Chamou uma das vizinhas, Dona Idalina, que, mais do que depressa, preocupada, foi até o fim da rua procurar o cunhado, que talvez soubesse a quem recorrer. Não adiantava ir atrás da polícia. Desaparecimentos só podiam ser oficialmente registrados depois de vinte e quatro horas. E Jobson sabia que, passadas vinte e quatro horas, se algo assim acontecesse, o que restaria seria apenas cumprir uma burocracia na delegacia.

Vander tinha trabalhado muitos anos como segurança e conservava alguns contatos que poderiam ajudar naquele momento. Em poucos telefonemas, conseguiu a informação de um lugar onde talvez valesse a pena começar a procurar por ela. Dona Idalina ficou com os irmãos de Jobson, e ele entrou na Parati de Vander para ir até lá. Segundo a pista que o ex-segurança recebera, alguns bandidos vinham atacando naquela região, e certas vítimas, mulheres, tinham sido encontradas naquele lugar. Um sentimento de pavor tomou conta de Jobson.

– Se acalme. Independente de qualquer coisa, você precisa ser forte. Você é o homem da sua família, é você quem tem que ser forte – dizia Vander.

Eram palavras duras para um garoto, mas realistas. De algum jeito, faziam com que ele tentasse permanecer o mais firme possível.

Chegaram a um ponto em que Vander pôde deixar o carro. Dali, seguiram um trecho a pé, subindo por alguns becos. E, num misto de alívio e desespero, Jobson encontrou a mãe caída no chão. Estava viva, mexia-se, mas muito machucada.

Vander correu, pegou-a no colo e os dois dispararam de volta para o carro.

– Jobson, vou levar vocês para o hospital, mas não vou ficar com vocês. Sua mãe está praticamente inconsciente, mas vai ficar bem. Vai demorar até ela conseguir falar, e vão me encher de perguntas. Até ela conseguir ser ouvida e contar que eu não tenho nada a ver com isso, o negão aqui já está pelo menos uma semana no xadrez. E, preso, se quiserem inventar qualquer coisa contra mim, eu nunca mais saio de lá. Já vi isso acontecer.

Vander falava, e Jobson concordava com ele. Também sentia na pele, ou, mais precisamente, na cor dela, todo o medo que o homem demonstrava. Vander os deixou na esquina do pronto-socorro. Jobson agradeceu a ajuda e carregou a mãe como pôde, até que, já próximo da entrada do hospital, algumas pessoas vieram ajudá-lo.

Ela realmente estava mal, e parecia piorar a cada instante. O fato de a terem colocado numa maca e levado para dentro, para o pronto-atendimento, sem sequer fazer ficha, revelava a gravidade da situação. Naquele pronto-socorro, às vezes, até pessoas praticamente morrendo precisavam preencher cadastro e esperar. Talvez fosse o espancamento, talvez a quantidade de sangue, talvez a violência tão visível dos ferimentos. Ninguém iria querer deixar alguém naquele estado parado diante de uma recepção. Mesmo assim, Jobson não pôde acompanhá-la. Precisou fornecer todo tipo de informação e entregar o máximo de documentos que tinha. Por sorte, o avô sempre insistira para que ele carregasse uma carteira com tudo dentro.

“Mesmo que nunca tenha um centavo na carteira, jamais saia de casa sem ela, com seus documentos. Jamais!” O conselho do avô ecoava na cabeça dele.

Jobson parecia mais velho do que realmente era, e sua mãe mais nova. O teor das perguntas da atendente, somado ao segurança já postado ao lado, deixava claro que ele era visto como suspeito. Apresentar o RG, o comprovante de residência, o cartão do SUS e até a cópia do documento da mãe, que ele também carregava por precaução, ajudou a diminuir um pouco a desconfiança.

Sobre a forma como tinha encontrado a mãe, precisou mentir. Disse que refez o caminho dela e foi pedindo informações. Contou que algumas pessoas num bar disseram ter visto homens carregando uma mulher mais cedo, indicaram o local e ele a encontrou. Carregou-a até onde conseguiu e depois pediu ajuda a quem apareceu, até ganhar uma carona.

– Você foi muito corajoso, garoto. Provavelmente salvou a vida da sua mãe – disse a atendente, agora com um tom bem diferente daquele do início. – Ela vai ser transferida. Vai precisar de uma cirurgia. Você pode ir lá para os fundos. Vai com ela na ambulância.

O garoto não perguntou nada, não falou nada, não pensou nada. Apenas seguiu as instruções que lhe davam, completamente entorpecido, como se não estivesse dentro do próprio corpo.

1/1
Menu

Fazer anotação