Capítulo 10 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 10 de 28
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Capítulo 10

Capítulo 10

As Investigações

Fernanda já estava fora de perigo, embora permanecesse muito machucada e muito abalada. O exame de corpo de delito foi realizado, mas os policiais diziam a Jobson que não havia muito o que fazer. Não existiam testemunhas e, segundo o que tinham apurado, sua mãe não estava em condições de descrever bem os criminosos.

Ele deveria ficar agradecido por ela ter sobrevivido e, de acordo com o conselho dos homens da lei, ela precisava tomar mais cuidado por onde andava e em que horas ficava “por aí”.

Jobson não se conformava. Depois de tanta luta, sua mãe ainda acabava tratada como culpada por morar onde morava e trabalhar até a hora em que trabalhava. Ela mal dormia. Sua vida inteira era trabalhar.

Pôde ir vê-la. Segundo os médicos, logo ela receberia alta também. Não porque estivesse bem. Além de completamente ferida, seus olhos pareciam perdidos. Ela sequer conseguia olhar o filho de frente. Mas o leito de internação, diziam, seria necessário para “casos mais graves”.

Enquanto isso, Nicolas, que havia passado algumas horas sozinho numa cela, acabava de ser solto. Os pais pagaram sua fiança e uma investigação começaria para descobrir o que havia por trás de tudo aquilo.

O advogado já trabalhava com a teoria de que tudo fora premeditado para atingir a imagem do pai de Nicolas.

Doutor Carlos tinha sofrido recentemente alguns ataques on-line, principalmente depois de comprar uma empresa de publicidade. Em pouco tempo, tudo se resolveu e, com uma negociação rápida com o promotor, a acusação nem sequer constaria da ficha do garoto.

De volta para casa, a mãe de Jobson já não conseguia se levantar para trabalhar. Mesmo com atestado de alguns dias, havia um dos empregos em que ela só recebia se comparecesse, já que não tinha registro formal. Tentou, mas não tinha forças. Tampouco tinha coragem de sair à rua. Passou a ter pesadelos horríveis. Teve febre alta. Os filhos de Fernanda não sabiam o que fazer. Ela não queria que chamassem ninguém para ajudar. Sentia uma vergonha enorme e um verdadeiro pavor de contar a história para alguém e reviver tudo o que tinha acontecido.

Jobson não foi à escola. Nenhum deles foi. Pensou que precisava cuidar da mãe, mas, acima de tudo, precisava encontrar uma forma de levantar dinheiro para segurar as contas. A mãe era o chão da família, e, sem ela de pé, parecia não haver mais nada.

Tinha ouvido falar de uma empresa que contrataria jovens aprendizes de origem mais simples. Já queria ter tentado antes, mas a mãe dizia que precisava dele em casa, ajudando com os irmãos. Estava esperando a maioridade, que se aproximava, para buscar uma vaga efetiva em algum lugar e ganhar um pouco mais. Se ainda estava indeciso alguns dias antes, agora tinha certeza de que precisava agir. A entrevista coletiva aconteceria naquele mesmo dia.

Preparou-se como pôde. Treinou mentalmente tudo o que achava que deveria fazer. Quando chegou lá, porém, foi dispensado sem maiores explicações, logo depois de preencher a ficha, junto com alguns outros candidatos.

Tentou não pensar no fato de que, entre a maioria dos dispensados, havia muitos negros, e entre a maioria dos que ficaram, muitos brancos. Ainda assim, não conseguiu deixar de perceber.

Saiu triste e, logo na entrada do prédio, encontrou Maycon, o motorista, parado perto da porta do mesmo carro em que o conhecera. Coincidentemente, aquele prédio, aquela empresa, pertencia ao doutor Carlos, e era por ele que Maycon esperava. O motorista perguntou o que o garoto fazia ali. Jobson contou o que tinha acontecido e, compadecido, Maycon disse que o ajudaria.

Pediu o número dele, mas o telefone de Jobson estava sem funcionar. Então mandou que ele esperasse ali. Poderia demorar um pouco, mas ele voltaria ou mandaria alguma notícia. Em menos de uma hora, alguém chamou Jobson de volta à sala de Recursos Humanos. Lá estava o mesmo recrutador que o tinha dispensado, agora dizendo que ele seria contratado.

Não precisou de teste, entrevista nem de mais nada. Começaria no dia seguinte. Bastava aparecer no horário combinado com os documentos da lista que recebeu. Jobson mal conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer, nem na sorte que, de uma hora para outra, parecia ter mudado de lado.

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