Capítulo 25 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 25 de 28
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Capítulo 25

Capítulo 25

Traição

A amizade tinha evoluído muito. As conversas começavam com um bom-dia assim que um dos dois abria os olhos e, muitas vezes, terminavam tarde da madrugada, entre teorias da conspiração, quadrinhos e discussões sobre roteiristas, pouco antes do boa-noite.

Havia fotos de pratos de almoço, áudios sem assunto nenhum, enviados só para dizer que um tinha lembrado do outro no meio da tarde.

Karina tinha se tornado a melhor amiga de Jobson, mas, sem perceber direito como, ele também passara a ocupar a vida dela. Ela ainda tinha plena consciência do objetivo profissional que a aproximara dele. Mesmo assim, quando se flagrava pensando em Jobson do nada, agarrava-se à ideia de que aquilo era apenas consequência de estar mergulhada até o pescoço na matéria. Em poucas semanas, já tinha chegado à história do primeiro encontro sexual do grupo na praia, ainda sem muitos detalhes.

Jobson se aproximara de Nicolas de novo e comentou com ele sobre a amizade com Karina.

Dessa vez, Nicolas não pareceu gostar. Não ofereceu o mesmo apoio que tinha dado quando Jobson comentou sobre Dafne, nem demonstrou o mesmo entusiasmo da ocasião da entrevista, quando lhe emprestou roupa e até perfume. Jobson não entendeu direito o motivo, mas preferiu não tocar mais no assunto.

Dafne também percebeu Jobson um pouco mais distante. E, com o casamento se aproximando e a amizade com Cristina cada vez maior, não queria correr riscos. Achava que talvez pudesse cogitar um término depois do casamento, mas antes dele, jamais. Além disso, decidiu relaxar um pouco. Já fazia tempo que não ficava com alguém de verdade, tirando uns deslizes com Cris, que, para ela, sequer contavam como sexo.

Armou, então, o que considerou uma emboscada para Jobson: um encontro que obviamente terminaria numa noite a dois num motel. Foi exatamente o que aconteceu. E, para ambos, a experiência bastou para consolidar a ideia de que, sim, o relacionamento seguia bem.

Acostumado a contar tudo a Karina desde o início daquela amizade, Jobson comentou que tinha passado a noite com Dafne e que, no fim das contas, parecia que o namoro seguia firme. A reação de Karina foi estranhamente parecida com a de Nicolas quando ouviu sobre ela própria. Em nenhum dos dois casos Jobson cogitou que pudesse ser ciúme. Muito menos nos dois ao mesmo tempo. Mas era exatamente disso que se tratava.

Karina, é claro, não admitiria isso nem para si mesma. Concluiu que talvez estivesse precisando aceitar, enfim, o convite de Robert, que a chamava havia tempos para um momento de diversão, como já tinham vivido antes. Talvez fosse só isso. Talvez precisasse dar vazão à sexualidade sem compromisso que andava represada, e já nem lembrava desde quando. Ou talvez quisesse apenas se provar que Jobson ainda não tinha bagunçado o seu eixo.

Teve com ele uma noite intensa, daquelas dignas de filme quente, com repetição, variação e fôlego. Ainda assim, ao fim, não sentiu vontade sequer de dormir, embora tenha dormido. Robert foi educado, gentil, impecável. Era o tipo de homem que muitas pessoas chamariam de perfeito. Já tinha deixado claro que estava disponível para o que ela quisesse: sexo casual, relacionamento, liberdade com companhia. Sabia que Karina prezava independência, espaço e autonomia, e isso não o intimidava. Era intenso, carinhoso e presente. Um homem raro, pensava ela. Ainda assim, havia alguma coisa que a impedia de se entregar de verdade.

Respondeu ao bom-dia de Jobson ainda dentro do carro de Robert.

– Quem é esse? Eu sei que você não quer nada sério e tudo mais, mas, dentro do meu carro, saindo do motel, você vai me permitir pelo menos perguntar, né? – brincou ele, deixando claro que a curiosidade era real.

– Calma, gato. Isso aqui faz parte de um projeto de longo prazo para uma matéria. Tive que me aprofundar para chegar no íntimo da história. Não tem nada a ver, até por isso respondi – explicou Karina.

– Olha, imagino que seja uma matéria ótima. Porque, além de você nunca ter respondido meu bom-dia no exato minuto em que eu mandei, eu também não consigo imaginar que tenha feito isso com esse sorriso que abriu agora.

A observação soava como ciúme, mas não deixava de ser verdadeira. Karina até pensou sobre aquilo. Concluiu, mais uma vez, que talvez estivesse envolvida demais com a matéria.

Achou então que era hora de avançar. Se quisesse tirar de Jobson detalhes mais profundos sobre os encontros a quatro com Nicolas, Cristina e Dafne, precisaria aquecer o terreno. A intimidade entre eles parecia suficiente para isso. E a ideia de amizade talvez funcionasse como disfarce para qualquer suspeita.

Usou a própria noite como gancho. Contou a ele o que sentia em relação a Robert, descreveu-o como um homem perfeito e perguntou se ele já tinha vivido algo parecido.

Jobson refletiu e percebeu que, em parte, sentia um pouco isso com Dafne. Era bom estar com ela. Ela era bonita, decidida, cheia de presença. Mas talvez, sim, faltasse alguma coisa.

– Fico pensando se talvez eu devesse tentar alguma coisa com outra mulher – lançou Karina, jogando verde.

– Você já sentiu desejo por mulher? – perguntou ele, curioso.

– Não. Mas vai saber, né? E você? Já sentiu por homem? – devolveu ela.

– Não. Acho que eu não tenho nem os pré-requisitos para me interessar por homem – respondeu Jobson, em tom de piada.

– Como assim? – perguntou Karina, rindo.

– Sou negro e pobre. Não dá para ser viado.

– Nossa, Jobson, nunca imaginei você usando esse termo assim. Você não parece uma pessoa preconceituosa.

Karina não viu ali um preconceito real, mas estava investindo na possibilidade de arrancar dele algum indício mais profundo.

– De jeito nenhum. Claro que não. Foi só um modo de falar. Afinal, ainda é muito o que a sociedade pensa, mesmo quando finge que não pensa.

Karina sabia que ele tinha razão. Percebeu também que precisaria se esforçar mais para arrancar alguma coisa dele. Deixou o assunto morrer por enquanto e passaram a falar de outras coisas.

Naquela mesma semana, a matéria que reunia Jobson e tantas outras personalidades admiráveis foi publicada na revista. O resultado foi excelente. A assinatura era de Karina, embora, no fundo, a execução material tivesse ficado quase toda a cargo da equipe de estagiários. A pauta, afinal, existira muito mais como uma desculpa para aproximá-la de Jobson. Ainda assim, o texto foi um sucesso de crítica e amplamente elogiado. Durante dias, só se falou daquilo em veículos e redes sociais.

Por onde passava, Jobson era reconhecido e cumprimentado. A matéria tratava todos os retratados com sinceridade, humanidade e emoção.

– Obrigado pela matéria. Me emocionou de verdade. Não só o que você escreveu sobre mim, mas sobre todo mundo. Reunir tanta gente vencedora, com histórias que as pessoas não conheciam a fundo, foi genial. Essa foi a verdadeira Karina Costa.

Foi esse o áudio que ele mandou a ela. A maioria das mensagens de colegas seguia a mesma linha.

Karina agradeceu, parabenizou a equipe, distribuiu bônus com parte do dinheiro que entrou em contratos de patrocínio naquela semana e chegou a promover dois estagiários para contratação assim que terminassem o curso.

– Obrigado, Karina. A gente agradece o reconhecimento, mas você deixou nas anotações todo o caminho que deveríamos seguir. Tudo o que fizemos foi seguir os seus sinais – respondeu um deles.

Aquilo a deixou confusa. Voltou às próprias anotações, releu. Nem se lembrava mais de ter escrito daquele jeito. Havia ali uma Karina menos cínica, menos montada, mais próxima da jornalista que tinha querido ser.

“A verdadeira Karina Costa.”

A voz de Jobson ecoava na cabeça dela.

Será que ainda existia alguma chance de voltar a escrever do jeito que realmente a interessava? Não sabia. Nem sabia mais se aqueles temas continuavam sendo o centro do prazer que sentia ao escrever.

“O público quer polêmica”, piscou de novo na sua cabeça.

Foi então que decidiu avançar.

– Jobson, vai ter um encontro do pessoal aqui da revista para comemorar o sucesso da matéria. Bem reservado, na casa de um dos editores. Achei que talvez você gostasse de ir. Hoje à noite.

– Nossa, Karina, seria muito legal, mas duvido que Dafne consiga ir assim, de última hora.

– Bom, estou pensando mais num agradecimento pela matéria mesmo. Acho que não teria problema se você fosse sozinho. Imagino que a Dafne também tenha encontros com amigos e compromissos noturnos que não precisam ser marcados na sua agenda.

Karina acertou em cheio. Jobson sabia que Dafne tinha passado a ter uma vida noturna movimentada, feita de eventos e encontros dos quais ele quase nunca participava. Nunca fora controlador, embora aquilo o incomodasse mais do que gostava de admitir.

Depois dessa última investida, ele concordou.

Pela primeira vez desde que a amizade com Kari se consolidara, um pensamento meio absurdo lhe atravessou a cabeça: “É um convite da Karina Costa.”

E, dessa vez, o impacto visual não passou despercebido.

Karina estava deslumbrante. Dificilmente alguém a olharia naquela noite e pensaria outra coisa senão que ela tinha tomado o lugar inteiro para si. Ninguém, ali, conseguiria ofuscar o brilho que ela carregava. Jobson, que sempre chegava cedo, já estava no local quando a viu entrar. E, mesmo cumprimentando outras pessoas, os olhos dela procuravam por ele o tempo inteiro.

Jobson ainda não tinha percebido, mas já estava derrotado naquela batalha. Na cabeça de Karina, a noite já tinha dono. Ela só precisava conduzi-la até o fim.

Logo que se encontraram, começaram a conversar como velhos amigos. Vieram sorrisos, elogios, piadas internas. Uma bebida, depois outra. Ninguém se aproximou deles. O clima já era visível no ar. Se estivessem cercados por jornalistas de outras revistas, as fotos daquele encontro já teriam se espalhado.

Mais tarde, mudaram para o terraço. Sem o barulho do restante da festa, podiam se ouvir melhor. Só que, junto com o silêncio, vieram os olhares. E os olhares diziam tudo.

Já não havia como evitar o beijo.

Ele veio. E veio acompanhado das mãos. E as mãos aproximaram os corpos.

Jobson mal conseguia acreditar que estava ali, vivendo aquilo com uma mulher que parecia ter saído diretamente de algum sonho antigo. Chegou a pensar em Dafne, mas entendeu, naquele instante, que o sentimento que tinha por ela já não era suficiente para impedir o que estava acontecendo.

Karina tinha planejado aquele momento. Estava convencida de que precisava ir até as últimas consequências para arrancar a verdade de Jobson, e que isso exigia aquele tipo de envolvimento. Ainda acreditava, sinceramente, que fazia aquilo pela matéria, e não pelo desejo que o rapaz lhe despertava. Só não contava com a intensidade do que sentia. Havia muito tempo que não experimentava tamanho incêndio. Talvez nunca tivesse sentido tanto.

Desceram para outro apartamento, de uma amiga de Karina, previamente combinado.

Quando começou a despir Karina, Jobson desacelerou. A urgência dos beijos cedeu lugar a outra coisa. Na penumbra do quarto, ele não olhava para ela apenas como um todo, mas para cada detalhe, como se tentasse compreendê-la por inteiro. Para ele, ela era muito mais do que bonita. Havia algo quase inacreditável ali.

Começou a beijá-la devagar, com paciência, como se não quisesse deixar escapar nenhum fragmento daquele corpo. A lentidão aumentava ainda mais a vertigem de Karina. Os toques dele não eram bruscos. Eram medidos, suaves em alguns instantes, firmes no momento exato. Havia nisso uma atenção que a desmontava muito mais do que qualquer pressa poderia fazer.

O que começou como desejo rapidamente se transformou em outra coisa. Numa entrega inteira. Num tipo de prazer que Karina não tinha memória de já ter vivido. Quando percebeu, já não controlava o próprio corpo como estava acostumada a controlar o restante da vida.

– Pelo amor de Deus, me pega – pediu ela, num fio de voz.

Mas Jobson ainda insistiu em demorar um pouco mais, como se não quisesse deixar nenhuma parte dela de fora daquele momento. E, quando finalmente a noite avançou de vez, já não havia mais cálculo algum, nem matéria, nem estratégia. Só intensidade.

Ao final, Karina já não saberia dizer quantas vezes tinha se perdido e se reencontrado no corpo dele. Só sabia que não lhe restava força para nada além de dormir.

A única coisa que queria era ser abraçada.

Jobson a envolveu por trás, como se pudesse cobri-la com o próprio corpo, e os dois adormeceram assim.

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