Capítulo 4
Capítulo 4
Maria Aparecida
Mais uma noite mal dormida. O médico do posto de saúde já havia dito que ela não podia ficar sem o calmante nem sem o remédio da pressão. Mas fazia quinze dias que, religiosamente, todas as manhãs, ela ia até lá perguntar se os medicamentos já tinham chegado. Eram caros demais para serem comprados, mais caros do que ela gastava com comida no mês, embora ainda custassem menos do que o marido devia em bebida no bar.
Às cinco da manhã, Maria Aparecida, a Dona Cida, já estava de pé, preparando o café. As mãos trêmulas já não ajudavam como antes, e a dificuldade parecia do tamanho da colher que usava para evitar qualquer desperdício.
Não eram só os movimentos. A vista falhava de longe, mas era de perto que mais atrapalhava. Forçava tanto os olhos que, no fim do dia, a dor de cabeça só passava com analgésico. Esse, pelo menos, o posto de saúde ainda tinha.
Ligava o rádio e ouvia as notícias do seu programa preferido. Era uma pena que o locutor da sua geração tivesse morrido, mas o jornalista que o substituíra era muito bom. Ainda bem que tinham mantido o jornal. Para ela, as notícias eram sempre as mesmas, mas, a cada manhã, a esperança de que naquele dia fossem diferentes se renovava.
Logo o marido iria acordar. Costa era um homem carinhoso, gentil, educado, um guerreiro. Quando pensava nisso, logo em seguida lembrava a si mesma que a guerreira era ela. Apesar de tudo, depois de tantos anos de crises e melhoras, ainda olhava para o marido pelo lado positivo. Tentava esquecer o tormento que era, naquela idade, continuar refém do vício de uma vida inteira. Tantas vezes ele parou, tantas outras voltou.
Mas estava particularmente preocupada com a filha mais nova. Desde a última vez que a vira, na semana anterior, sentia que ela precisava de ajuda. Debilitada agora, Dona Cida, que sempre fizera de tudo pelos filhos, já não era mais a mesma. A caçula tinha vindo ao mundo quando ela nem acreditava mais ser possível engravidar, já depois dos cinquenta. E era justamente com ela que Cida mais acreditava ter falhado.
Naquele dia, estava decidida a preparar sua especialidade. Tinha economizado e faria um picadinho delicioso, que pretendia levar para a filha e os netos.
Ainda precisava convencer o marido a ir ao banco resolver um problema da miserável aposentadoria que ele havia conquistado com tanto custo e pela qual ambos agradeciam tanto, afinal, era o único sustento da casa. Embora ele dissesse que ainda trabalhava, prestava serviço de graça aos amigos. Sempre fora assim. Mecânico, fazia pequenos reparos que seriam pagos depois, mas esse depois nunca chegava. Agora, Cida já nem falava mais. No fim das contas, dava menos trabalho deixar o marido se ocupar com aquilo que funcionava como sua terapia. Onde estaria ele? Passando mais tempo no bar?
A única coisa que ainda dizia era para ele perceber que já era um homem velho e descuidado, sem forças para fazer esforço como antes, correndo o risco de se machucar gravemente. É claro que ele não a escutava, e a vida dos dois seguia em frente. Ela só pedia a Deus que alguma tranquilidade ainda viesse visitá-los naquele fim de vida. Mas, depois de tanto tempo, já nem acreditava tanto nisso, embora continuasse devota de seu amado São Miguel.
Perdida em pensamentos, esqueceu o leite fervendo. Deu uma corridinha para desligar antes que ele vazasse e sujasse o fogão inteiro, e quase caiu. Pensou que, até pouco tempo atrás, teria preferido cair a ter de limpar um fogão que já esfregara no dia anterior. Depois refletiu melhor e percebeu que, até pouco tempo atrás, dificilmente teria quase caído numa corridinha daquelas. Era melhor não arriscar uma próxima vez.
Coou o café no copo para ela e para o marido e tentou lembrar qual remédio deveria tomar naquele horário. Sempre lhe vinha à cabeça a piada de que era o remédio da memória, claro. Ela ria sozinha e acabava se confundindo ainda mais.
– Meu bem, qual é o remédio que tenho que tomar agora mesmo? – gritou para o marido, que estava no quarto. Sabia que ele já estava acordado, embora permanecesse de olhos fechados.
– Deve ser o da memória! – gritou ele de lá, rindo.
Ela pensou consigo mesma: “Que idiota! Como podemos ser tão parecidos?”
Voltou para a cozinha, vencendo a preguiça, e tentou decifrar o roteiro que o filho tinha deixado pregado com os oito remédios regulares que precisava tomar. Fez as contas na cabeça, tentando se lembrar.