Capítulo 6
Capítulo 6
A Escola
Aquele sinal barulhento, uma espécie de corneta distorcida e estridente que precisava ser consertada havia muito tempo, tentava impor alguma ordem àquela reunião social que, vista de longe, mais parecia uma convulsão coletiva. Jobson ainda ia à escola muito por causa dos irmãos, para incentivá-los e acompanhá-los, e também porque sua mãe insistia que ele precisava continuar. Mas estudar era uma das poucas coisas que ele de fato conseguia fazer ali.
Preferia realizar em casa a maior parte das tarefas que os poucos professores ainda interessados passavam. Mesmo precisando se dividir entre outras obrigações domésticas, ainda encontrava ali algum sossego. Na escola, porém, a bagunça lhe dava dor de cabeça sempre que tentava ler. Nas aulas vagas, quando algum professor faltava, tentava se isolar com um livro, quase sempre sem sucesso, ou buscava a “pseudo” biblioteca da escola, embora o cheiro de lá não fosse nada agradável.
E havia outra coisa: sem saber bem por quê, atraía as pessoas. Todo mundo gostava dele. Jobson não se achava bonito, nem atraente. Também não se considerava simpático. Era gentil, cordial, tinha bom coração e respondia bem a todos que falavam com ele. Mas definitivamente não buscava, nem queria, a atenção que recebia. Bastava se sentar num canto para ler e logo aparecia alguém perguntando o que era aquele livro. Ele respondia, a conversa começava, os assuntos iam surgindo. Em pouco tempo, um pequeno evento se formava ao seu redor, mais gente aparecia, ideias se cruzavam e tudo virava uma festa.
Também gostava muito de atividade física. Bastava haver alguma coisa acontecendo na quadra e a bola parecia chamá-lo. Não era talentoso, mas era esforçado. Incansável era a palavra certa. Adorava esportes em geral. Sentia-se renovado, realizado, principalmente quando vencia. Gostava de jogos, todos eles. Adorava competir, era muito competitivo, mas não de um jeito chato. Entregava-se de verdade.
E, de uns tempos para cá, havia uma garota. Sempre tem uma garota. Na primeira vez em que percebeu que ela o observava atentamente e sorriu para ele, Jobson levou uma bolada no rosto. Era uma bola de basquete. A queda não doeu tanto quanto os risos dela e do grupinho ao redor. Ela estudava um ano acima. Mas parecia bem mais velha. Experiente, confiante, tudo o que Jobson não se sentia ser.
Com o tempo, as rodas de conversa dela e das amigas passaram a acontecer perto das quadras, justamente enquanto ele jogava. Aquilo acabou se tornando uma motivação nova para Jobson querer ir à escola. Kelly, esperta e observadora, percebeu rapidamente o que acontecia. Evidentemente, Jobson desconversou quando a irmã começou com piadinhas e deboches.
“Aí tem coisa!”, dizia ela.
Jobson respondia que não tinha nada. E, de fato, não tinha. Afinal, eles sequer tinham trocado uma palavra. Bem que ele gostaria que houvesse alguma coisa, como a irmã insinuava. E achava injusto sonhar com aquilo quando existiam tantos outros sonhos que deveriam vir antes. Mas, antes até dos sonhos, havia a realidade, e essa era muito mais difícil.
Faltava cada vez menos para sair da escola, e ele não se sentia preparado para conseguir nenhuma oportunidade real de continuar estudando. Isso o deixava pesaroso. Sabia como seria quase impossível retomar os estudos no futuro se não pensasse nessa continuidade desde já, nem que fosse por meio de um curso técnico.
Tinha recebido a indicação de um professor para tentar uma bolsa num curso não muito conhecido, cujas vagas abririam em breve. Talvez, justamente por isso, tivesse um pouco mais de chance de conseguir. Mas o lugar da inscrição era distante, e ele não fazia ideia de como chegaria até lá. Pensou que provavelmente aquilo acabaria sendo mais um não acontecimento, algo que ficaria guardado apenas como lembrança em sua vida, como tantos dos seus sonhos.