Capítulo 5
Capítulo 5
O Colégio
Na maior parte do tempo, Nicolas não se sentia à vontade no colégio. Não era para menos. Havia câmeras espalhadas por todos os lados, e a grande maioria podia ser acessada remotamente pelos pais. Não que ele acreditasse que os seus estivessem realmente observando cada passo seu. Com certeza, estariam ocupados demais para isso. Ainda assim, a sensação de viver quase sempre vigiado lhe parecia estranha.
O lugar lembrava uma mistura de shopping center com centro empresarial. Era realmente bonito, recém-reformado, e tinha conseguido atrair, além de pais dispostos a gastar, ou, como preferiam dizer, investir no futuro dos filhos, também empresas interessadas em associar suas marcas à formação dos alunos. Havia universidades particulares, companhias que prometiam empregar as mentes mais brilhantes antes mesmo de elas concluírem os estudos, turmas batizadas com nomes de patrocinadores, treinamentos específicos, estruturas impecáveis.
Mas, para Nicolas, tudo aquilo tinha um ar de prisão de primeira classe. Catracas na entrada, portões automáticos, cercas elétricas sobre muros altos. Diziam que era para a própria segurança deles.
Tudo também era muito moderno. Ele tinha vivido a transição em que livros e apostilas passaram a caber em notebooks, tablets e telas embutidas nas mesas. Todo o conteúdo era informatizado. Podia acessar seu perfil e o material no sistema, de qualquer dispositivo, apenas com a digital. Os professores eram muito bons, tanto na sala de aula quanto nas apresentações por tela. O contato com os colegas, porém, já não era mais tão próximo. O tempo dedicado à recreação e às atividades físicas coletivas, além de reduzido, permitia pouca interação. E, quando existia, ela era cada vez mais virtual. Nicolas não tinha muitos amigos, nem muitos colegas. Não era muito sociável. Não era sociável em nada. Sempre havia algumas garotas interessadas nele, mas a maioria parecia motivada pelo interesse dos próprios pais. Elas mesmas diziam isso.
Mas havia uma garota. Sempre há uma garota. Só que não do jeito dos filmes adolescentes clichês da geração de seus pais. Cristina era sua parceira, sua confidente. Estava ali desde sempre, desde que ele se entendia por gente. Era pequena, frágil, sempre muito magra. Nicolas tinha com ela um impulso protetor. Era assim que Cristina o via, como um príncipe encantado. E era assim que ele se enxergava ao lado dela, como um justiceiro, um super-herói. Embora já tivessem arriscado algum romance e vivido, juntos, as primeiras experiências tímidas, ambos se consideravam atrapalhados demais para namorar com quem quer que fosse e despreparados demais para sustentar um relacionamento, para viver um amor. Também não sentiam falta disso. Para os dois, a presença um do outro bastava. E não havia a sensação de prisão, de compromisso pesado, daquele tipo de vínculo em que se precisa do outro o tempo todo. Sabiam apenas que, mais cedo ou mais tarde, quando precisassem, estariam ali.
Mesmo assim, Nicolas não se sentia feliz. Trocar mensagens, dividir o dia, ter alguém com quem conversar era bom, mas isso ainda estava muito longe de fazê-lo feliz de verdade.
Naquela semana, em especial, ele andava mais estressado do que o normal. Os exames finais se aproximavam, faltavam poucos meses, e a carga de estudos tinha se multiplicado. Na opinião dele, era humanamente impossível dar conta de todo o conteúdo programático, mesmo se as matérias de cada professor fossem isoladas. Será que eles não percebiam que todos passavam a mesma avalanche de leituras, pesquisas e apresentações? Não conversavam entre si? Talvez não. Afinal, nem os alunos quase conversavam mais.
A melhor tática talvez fosse mesmo abrir mão de algumas disciplinas em favor de outras. Talvez fosse mais inteligente se dedicar às matérias em que tinha mais dificuldade e contar com a sorte naquelas em que tinha mais facilidade. Assim, talvez tivesse alguma chance de ir bem em tudo e orgulhar os pais. Mas será que teria mesmo?