Capítulo 14
Capítulo 14
Reputação
Os dois foram dormir lembrando da conversa amistosa que tiveram no almoço. Ambos carregavam uma sensação estranha, a respeito de uma amizade, de um jeito que nunca tinham sentido antes. Nada parecia ter mudado na rotina de nenhum deles até a chegada ao trabalho. Jobson, inclusive, teve mais uma manhã suave, como se aquilo já começasse a se transformar em rotina.
Nicolas, por outro lado, teve um começo de dia bastante agitado.
Ao se aproximar do escritório, percebeu que os olhares dirigidos a ele eram mais cortantes do que no primeiro dia. O bom-dia de Sandra veio seco, sem que ela sequer desviasse os olhos das tarefas. Quando entrou em sua sala, encontrou o pai sentado em sua cadeira.
– Bom dia, filho! – disse doutor Carlos, num tom entre autoritário e conciliador, que Nicolas raramente conseguia distinguir.
– Bom dia, doutor Carlos. Que bom que pôde vir me ver depois de eu ter pedido uma audiência – respondeu o filho, em tom de ironia. Afinal, além do pedido feito à mãe para jantarem juntos, ele já tinha tentado outras duas vezes encontrar o pai.
– O deboche não é necessário, Nicolas. Você sabe que tenho muitos compromissos na agenda, mas mantenho tudo o que está acontecendo ao meu alcance – respondeu o pai, endurecendo a voz.
– Talvez, às vezes, fosse bom ouvir de mim, e não de intermediários, o que acontece comigo. Não acha? – retrucou Nicolas.
– É exatamente por isso que estou aqui – continuou o pai. – Você pode me explicar a sua versão dos fatos a respeito do seu almoço de ontem?
– Meu almoço de ontem? Você está aqui por causa do meu almoço de ontem? – perguntou Nicolas, indignado.
– Não se faça de desentendido. Você sabe muito bem do que estou falando. Qual foi sua intenção ao almoçar no refeitório da equipe de limpeza e dos seguranças? – o pai tentou recolocar a conversa no fato em si, desviando do foco que o filho queria dar à sua ausência.
– Equipe de limpeza e seguranças? Você realmente acredita nisso ou não sabe que existe discriminação social dentro da sua empresa? – Nicolas sequer tinha pensado naquilo antes, mas, como pensava rápido e era muito inteligente, percebeu na hora que aquela seria uma ótima saída para o diálogo.
– Então, no seu segundo dia, você já queria provocar uma rebelião dentro da empresa? Era essa a sua intenção? Começar a arranhar nossa reputação? – o pai elevou o tom de voz.
– Evidentemente que não. Eu só estava fazendo o que sua esposa me pediu: tentando me enturmar. Encontrei entre os novos funcionários um rapaz que ajudou o nosso motorista, Maycon, a trocar o pneu do carro quando estávamos atrasados. O pobre garoto trabalha aqui, não tinha dinheiro para comprar uma água na lanchonete, ainda não tinha recebido a caneca da empresa, estava com sede e não conseguia sequer se hidratar. Eu paguei a água dele e o convidei para sentar comigo, mas ele precisava comer no refeitório reservado a ele. Se ele não podia ficar, eu o acompanhei. Se a minha reputação for a de alguém que ajuda um funcionário recém-contratado e almoça com os mais humildes da empresa, não vejo como isso pode manchar a reputação da família.
O semblante do pai mudou. Continuava contrariado, mas já não parecia tão nervoso.
– Admiro suas intenções, filho, mas as pessoas comentam, distorcem e transformam as histórias. Você precisa se preocupar mais com isso – disse ele, mais calmo.
– E você precisa se preocupar mais em tentar me ouvir, às vezes. Mas, se puder priorizar alguma coisa, leve à diretoria a necessidade de derrubar fatores que criam segregação social entre os funcionários. A chance de um processo futuro é muito grande.
No fim das contas, a argumentação do filho despertou no doutor Carlos uma pontinha de orgulho. Ainda assim, ele se levantou, despediu-se com um aceno de cabeça e saiu da sala sem dizer mais nenhuma palavra.
Jobson almoçou naquele dia e nos seguintes passando rapidamente pela lanchonete, sempre no mesmo horário, pensando em conversar de novo com Nicolas. Mas não o viu mais. O filho do dono não voltou a almoçar fora da própria sala. Também não mudou mais de projeto, permanecendo na última escolha, apesar de o trabalho ser maçante, repetitivo e pouco criativo.
Jobson recebeu, ao fim da primeira semana, sua primeira parabenização do chefe. Doutor Ricardo percebeu a grande mudança feita não apenas na organização dos documentos, mas em toda a sua sala.
– Jobson, onde você aprendeu a organizar assim? – perguntou ele a um garoto que na mesma hora ficou tenso, achando que tinha feito algo errado.
– Eu ajudava uma vizinha bibliotecária, doutor Ricardo. Desculpe se mudei o seu padrão sem perguntar – respondeu mansamente.
– Padrão? Eu não tinha padrão nenhum, e essa era justamente a minha maior dificuldade. Eu estava procurando esse livro de Direito Administrativo desde a faculdade. Estou realmente impressionado. Parabéns. Continue assim. Era exatamente disso que eu precisava. Contratei tanta gente, e foi um jovem aprendiz quem finalmente conseguiu entender o que eu queria.
Jobson sentiu orgulho, embora pensasse que talvez fosse um pouco injusto com os antecessores, já que em nenhum momento doutor Ricardo tinha dito exatamente o que queria.
Naquele dia, recebeu o primeiro adiantamento de salário e um valor de vale-refeição. Fez questão de preparar uma surpresa para a mãe, levando duas pizzas para casa. A festa foi tão grande que parecia ter levado a notícia de um prêmio de loteria. Eram memórias que ele construía, dia após dia, de momentos de felicidade que não se lembrava de já ter vivido. Esperava, com o medo silencioso de estar errado, que aqueles momentos passassem a se repetir muito mais vezes. Sua família, e principalmente sua mãe, merecia tanto aquilo.