Capítulo 16
Capítulo 16
Dafne
– Mãe, você pegou meu secador de cabelo de novo?
A pergunta era frequente naquela casa. A resposta, quase sempre a mesma.
– Dafne Cristina, eu pego o seu secador quantas vezes eu quiser, a hora que eu quiser. Quem comprou fui eu. Aliás, a dívida do cartão ainda está lá. Se você quiser, pode pagar, aí talvez possa exigir que eu não pegue.
A mãe sempre respondia nervosa, como se qualquer pergunta soasse como acusação.
– Mas, mãe, será que você não pode colocar de volta no lugar depois de usar? Ou pelo menos deixar sempre no mesmo canto? Cada hora ele está num lugar, e eu tenho que sair procurando, atrasada.
Muitas vezes, naquela casa, a filha parecia ser a mãe.
É comum que, com o tempo, algumas pessoas que passaram a vida inteira soterradas por responsabilidades decidam que chegou a hora de tentar recuperar o tempo perdido. Era o caso de Auxiliadora, mãe de três filhos: dois homens já casados, ambos com mais de trinta anos, e Dafne, que acabara de completar dezoito.
Desde mais ou menos os doze anos, Dafne sentia que precisava cobrar a mãe sobre quase tudo. Com o fim do relacionamento e com a maturidade precoce da filha, produzida pelas circunstâncias, Auxiliadora passou a viver uma espécie de adolescência rebelde fora de tempo. Ia a baladas, passava mal, se atrasava para o trabalho, dependia da ajuda de estranhos, se envolvia rápido demais e, quase sempre, com pessoas que mal conhecia.
Para Dafne, era difícil administrar aquilo. Ainda mais porque eram duas mulheres bonitas sob o mesmo teto, e ela ainda era muito jovem. O número de homens aproveitadores, depravados, canalhas, tentando abusar de uma ou das duas, era enorme.
Auxiliadora tinha a sorte de ser filha de um tenente do Exército que morrera em serviço. Sobrevivia graças à pensão do pai e a um seguro de vida bem administrado, que lhe garantia uma renda mensal. Levavam uma vida de classe média, sem luxos, mas sem faltar nada. Ainda assim, ela precisava trabalhar e tinha cursado enfermagem. Era boa no que fazia. Gostava da profissão.
E talvez, por sorte também, contasse com uma espécie de anjo da guarda. Coronel Wilson, melhor amigo de seu pai, se tornara um protetor da família. Dava liberdade a Auxiliadora, sem cobranças exageradas, mas com conselhos que, às vezes, a própria Dafne achava que precisavam ser mais duros. Ainda assim, era um resolvedor de problemas. Quando o calo apertava, era para ele que as duas deviam ligar. E ele sempre resolvia.
Provavelmente, nada de mais grave tinha acontecido com elas justamente por causa da existência daquela figura em suas vidas. Os filhos de Auxiliadora, depois que tomaram rumo, e cedo, aliás, afastaram-se ainda mais. Sempre foram distantes. Nunca aceitaram bem o fato de a mãe ter se separado do pai depois de uma traição assumida. E, quando ela iniciou um novo relacionamento e teve Dafne, o afastamento se aprofundou. Passavam mais tempo na casa do pai e, quando apareciam na dela, permaneciam trancados em jogos e universos paralelos.
Foi graças ao coronel Wilson que Dafne conseguiu a indicação para o primeiro emprego. Trabalharia numa grande multinacional. Ninguém sabia dizer ao certo o que a empresa fazia. Era uma espécie de máquina de marketing e de recuperação de outras empresas: comprava, reformava, revendia, reerguia negócios que estavam quase falidos. Parecia coisa de gente grande, dessas que sempre cheiram a dinheiro. Ainda assim, para começar, Dafne seria apenas atendente da lanchonete dos funcionários.
Ela, que tinha se animado com a possibilidade, ficou decepcionada com a vaga. Mesmo assim, a promessa de que faria cursos dentro da própria empresa para, depois, mudar de cargo devolveu parte do entusiasmo. Não era o que sonhava, mas podia ser uma porta. E Dafne sempre soubera reconhecer portas. Foi ainda no primeiro mês de trabalho que conheceu Nicolas e, consequentemente, Jobson.
Quando viu aquele rapaz charmoso, jovem, alto, bem vestido, forte sem exagero, dono de um corpo esbelto, seus olhos brilharam e ela suspirou. Valéria, supervisora da lanchonete, avisou logo que ele era o filho do dono. E isso só não a deixou ainda mais interessada porque já não havia mais espaço para crescer o interesse. Dafne praticamente perdeu a capacidade de atender qualquer outra pessoa enquanto se dedicava a olhá-lo sem parar.
Evidentemente, o garoto percebeu. No auge da própria desenvoltura, retribuiu, não exatamente com interesse real, mas com a satisfação vaidosa de quem se sente admirado.
Quando Jobson apareceu, porém, ela na mesma hora se entristeceu. Depois daquele diálogo rápido entre os dois, Nicolas já nem parecia notar que ela estava ali. Chegou a pensar, por um instante, que ele pudesse ser gay. Depois descartou a hipótese. Achou que ele era apenas simpático, ainda mais depois de saber que tinha pedido mudanças nas regras de convivência entre os funcionários. Mesmo assim, sentiu ciúme de Jobson. E até uma pontinha de raiva.
Mais tarde, vendo Jobson aparecer ali de vez em quando, sentiu pena dele. Ele parecia procurar um amigo. Também dava sinais de que a achava bonita, chegou até a dizer isso, mas sem a insistência masculina típica de quem repete a mesma frase para qualquer mulher. Jobson parecia sozinho, como ela. E parecia, sobretudo, o tipo de homem que ainda sabia olhar de verdade.
Então veio o incêndio.
A lanchonete ficava nos andares mais baixos do prédio, mas justo naquela hora Dafne tinha subido para entregar um almoço. Naquele dia, Diego, o rapaz que fazia esse serviço, estava de folga, e ela o substituía nas entregas. Estava dentro do elevador quando tudo aconteceu. Quando o alarme disparou, as portas se abriram, e ela acabou saindo acima do andar em que o incêndio tinha começado.
Permaneceu ao lado de Nicolas durante boa parte do tempo. Aproximou-se dele. Chegou a acreditar que o desastre era obra do destino e que uma troca de olhares, que ela acreditou existir, bastava para fazer valer a pena até mesmo morrer ali.
Mas então veio a cena do resgate. E a constatação de que Jobson tinha arquitetado todo o plano e que foi pelos braços dele que ela saiu daquele piso em chamas fez um filme passar diante de seus olhos. Um filme sobre tudo o que ela e a mãe tinham valorizado na vida, e sobre o que, no fundo, ela sempre sonhara em valorizar de verdade.
Não por acaso, desmaiou.