Capítulo 18
Capítulo 18
O Convite
O tempo foi passando. Jobson conseguiu colocar algumas contas da casa em dia, fazer alguns mimos para a mãe e, pouco depois, voltou ao trabalho. Continuava subordinado ao doutor Ricardo, mas com uma carga horária menor, porque a empresa lhe oferecera dois cursos: um técnico em segurança e outro de auxiliar de administração. Como ainda estava no último ano da escola, recebeu também a promessa de que ganharia um curso superior, na área que escolhesse, desde que fosse algo ligado à empresa.
Ele chegou até a aparecer no noticiário. Como parte do pacote, a empresa anunciou uma série de mudanças: ampliação da brigada de incêndio e da equipe de primeiros socorros, o que significava sair de quase nada para alguma estrutura mínima, além de reformas na integração social entre os funcionários. O marketing da empresa entendeu que tudo isso ajudaria a recuperar a imagem arranhada pelo incêndio. E, como símbolo dessa renovação, escolheram justamente Nicolas e Jobson.
Por causa disso, as agendas dos dois passaram a se cruzar com frequência. Iam juntos a sessões de fotografia, encontros com influenciadores, entrevistas para veículos que funcionavam quase como propaganda paga. Voltaram a conversar e, aos poucos, tornaram-se amigos muito próximos. Agora Jobson tinha celular, afinal.
Nicolas começou a dividir com ele as conversas que mantinha com Cristina, a “sua garota”. E havia também Dafne. Depois de voltar ao trabalho, ela finalmente criou coragem e pediu o número dele. Ia pedir também o de Jobson, mas o rapaz já não aparecia mais na lanchonete. Os novos horários impediam que ele almoçasse ali.
Uma troca de mensagens aqui, outra ali, e Nicolas e Dafne decidiram convidar Cristina e Jobson para um encontro duplo. Não havia obrigação de que acontecesse qualquer coisa. Mas havia, com certeza, a intenção de que algo acontecesse. A ideia era passar o fim de semana prolongado pelo feriado numa casa de praia da família de Nicolas.
O rapaz tinha acabado de completar dezoito anos, a escola já tinha terminado e ele agora estava habilitado a dirigir. Para Nicolas, aquele plano servia também como forma de empurrar Dafne um pouco para perto de Jobson e, assim, aliviar a própria insistência dela sobre ele. Queria ver o amigo feliz e acreditava que Jobson ainda tinha um interesse forte pela garota.
Quanto a Cristina, ela fazia tudo o que Nicolas queria. Na visão dele, já passara da hora de oficializar alguma coisa com ela. Sabia que dificilmente sentiria um interesse sentimental verdadeiro por qualquer pessoa. Sempre achara que quem se aproximava dele vinha movido por algum tipo de interesse. Por isso, não conseguia se envolver de verdade. A única exceção sempre fora Cristina. Apesar de ter sido sua primeira experiência sexual, e a única com alguém que conhecia há mais de um dia, ela seguia sendo, para ele, a amiga da vida inteira.
Decidiu então que aquele seria o momento perfeito para que todos fossem felizes. Inclusive os pais deles, que, havia muito tempo, já cobravam algum tipo de compromisso formal.
No começo, tudo correu exatamente como o planejado. Com Dafne e Jobson no banco de trás, a viagem foi leve. As conversas eram amistosas, divertidas. Riram muito, contaram histórias do passado, comeram na estrada. Na praia, aproveitaram o dia de Sol, o mar, um jogo de vôlei, comida boa e bebida, surpreendentemente com moderação. Só depois voltaram para a casa, que até então tinha servido quase apenas como ponto de apoio para trocar de roupa.
Apesar de haver um vigilante na guarita do lado de fora, estavam sozinhos ali. Quando anoiteceu, foram para a piscina. Entre um gole e outro, agora de bebidas mais fortes, Nicolas pediu Cristina em noivado. Ela respondeu com um grito de “sim” tão alto que parecia estar preso em sua garganta desde a quinta série.
Depois do champanhe para comemorar, começaram um perigoso jogo de perguntas ou desafios.
Primeiro vieram perguntas tristes, quase traumáticas, até que Cristina resolveu mudar o rumo das coisas e apimentar a situação. Com a clara intenção de provocar algo entre o outro casal ainda não formado, perguntou qual dos três ali Dafne beijaria.
Sem pensar duas vezes, ela respondeu:
– Todos.
Na rodada seguinte, Jobson tirou Dafne, que escolheu desafio. Ele pensou muito antes de falar. Não pediu o próprio beijo. Quis saber se valia tudo. As duas garotas disseram que sim. A mente dele foi longe, mas acabou escolhendo algo mais leve: pediu um beijo entre Dafne e Cristina.
As duas riram muito. Cristina olhou para Nicolas, como se pedisse permissão, e ele apenas sorriu.
Ela se virou para Dafne e as duas se beijaram num beijo demorado, cheio de malícia.
O jogo continuou, agora cheio de perguntas mais quentes, até que Cristina tirou Jobson. Ele escolheu desafio de novo.
Cristina, já menos sóbria, riu e disse que havia machismo em aceitar que as mulheres se beijassem, mas não os homens. Queria saber se o noivo seria capaz daquilo e, então, lançou o desafio a Jobson. Nicolas respondeu que a provocação não era para ele, que aquilo nem o envolvia. Cristina rebateu dizendo que todos tinham concordado: valia tudo.
Os dois se entreolharam e deram um selinho. Cristina, insatisfeita, reclamou que aquilo precisava ser um beijo de verdade. Eles então se beijaram com língua, rápido, sem a intensidade do beijo das meninas, mas ainda assim foi o bastante para deixar algo na cabeça dos dois rapazes. Seria possível que tivesse sido bom?
Dali em diante, os limites que tinham se rompido foram se perdendo cada vez mais. As roupas deixaram de parecer necessárias. O desejo já era evidente entre os dois rapazes e gritante nas duas garotas.
Quando os quatro acordaram na mesma cama, praticamente empilhados, cada um apoiado em alguma parte do corpo do outro, já não sabiam mais dizer quem tinha começado com quem, nem quem tinha terminado com quem. Sabiam apenas de uma coisa: ao longo da noite, todos tinham passado por todos. E, com toda certeza, nenhum deles jamais tinha sentido tanto prazer quanto naquela noite.
E também naquela manhã, depois do café.
Mesmo com um pouco de ressaca, algum sono e agora sóbrios, começaram tudo de novo por iniciativa de Dafne. Dessa vez, sabiam exatamente o que estavam fazendo e lembrariam de cada detalhe. Exaustos, acabaram sentados no ofurô, sem trocar palavra alguma. Na cabeça de cada um passavam consequências diferentes para tudo o que tinha acontecido.
Jobson tinha medo de ter se tornado gay. Em sua cabeça, ser negro, pobre e gay era o pior dos mundos. Não imaginava forma maior de sofrer preconceito. Mas bastava olhar para Dafne e perceber os pelos loiros arrepiando quando o braço dela tocava o seu para voltar a se excitar. Já não sabia mais o que era.
Dafne acreditava ter conseguido, com sucesso, transformar aqueles dois casais em parceiros permanentes. Isso, na visão dela, lhe garantiria três companhias diferentes, sexuais e afetivas, além de uma certa segurança financeira. Quase como se ela também tivesse sido pedida em casamento.
Cristina, porém, achava que tinha estragado tudo. Que o grande momento da sua vida ficaria manchado por aquela noite, maravilhosa, sim, mas capaz de colocar em risco tudo o que esperara desde criança alcançar. Pensava no que a mãe diria se soubesse. Pensava na possibilidade de Nicolas escolher Dafne, por ser mais bonita, ou, pior ainda, descobrir que seu amor verdadeiro talvez fosse Jobson. Afinal, ela já tinha percebido o quanto o rapaz vinha se afastando dela para se aproximar do amigo.
Nicolas era, entre os quatro, o mais tranquilo. Para ele, aquilo tinha sido uma espécie de despedida de solteiro. Acreditava que talvez nunca mais sentisse vontade de repetir. E, se sentisse algum dia, por que não? Mas imaginava algo muito distante, eventual, sem qualquer previsão próxima.
O silêncio se estendeu por algum tempo.
Todos pensaram que talvez não conseguissem mais conversar alegremente como antes. Talvez tivessem perdido a intimidade. Talvez até a amizade. Pediram o almoço e passaram bastante tempo trocando poucas palavras.
Até que anoiteceu de novo. Dafne disse que ia tomar banho e chamou Cristina para ajudá-la com uma coisa.
Cristina achou suspeito, mas, com o clima estranho entre eles, concluiu que talvez fosse mesmo algum assunto de mulher. E era. Dafne fechou a porta do banheiro e começou a beijá-la. Num primeiro impulso, Cristina se afastou. Na segunda tentativa, porém, quando percebeu pelo olhar de Dafne que, no fundo, era exatamente aquilo que queria, não resistiu. Beijaram-se mais e mais, tiraram a roupa e foram para a banheira.
Nicolas e Jobson conversavam amenidades, sem profundidade alguma, até que Nicolas percebeu a demora de Cristina.
Resolveram ir ver o que podia ter acontecido. Encostaram na porta e ouviram gemidos e risos. Entenderam na hora. Nicolas tentou abrir devagar, e a porta estava destrancada. Dafne deixara assim de propósito. Queria que os dois viessem. Eles observaram as duas se tocando e se beijando de um jeito tão intenso na banheira. Quando Dafne percebeu a presença deles, sorriu de maneira provocante. Cristina se assustou e deu um pulo.
– O que vocês estão esperando para tirar a roupa e vir também? Um convite? Ou vocês acham que eu não reparei o volume dos dois?
Dafne usava todos os truques que conhecia para manter aquele cenário em movimento.
Os dois também tiraram a roupa. Apesar de já terem feito muito mais um com o outro do que apenas se olhar, ainda não tinham realmente reparado em seus corpos nus. Fizeram isso pela primeira vez. E foi, estranhamente, excitante para ambos.
– Apesar de serem de cores diferentes, não é que vocês são bem parecidos? – disse Cristina, entrando no jogo de Dafne enquanto tocava os dois ao mesmo tempo.
Enquanto isso, Dafne beijava o pescoço dela e massageava seus seios.
Ali, Nicolas percebeu que, pelo prazer que sentia e pelo prazer que todos ali demonstravam sentir, a relação entre os quatro dificilmente seria algo esporádico. E começou a pensar se deveria mesmo ser.
Dafne olhou para Nicolas e sentiu que ele também tinha chegado a essa conclusão. Só então percebeu que estava plenamente satisfeita, em todos os sentidos.
Foram criativos, permissivos e curiosos, repetidas vezes, experimentando coisas novas e se conhecendo como nenhum dos quatro havia imaginado antes.
Aos poucos, um por um foi se esgotando e virando-se para dormir, mesmo enquanto os outros ainda continuavam. Primeiro Dafne adormeceu. Depois Nicolas, abraçado a ela. Cristina e Jobson ficaram mais um pouco, até que a garota também pediu para parar. Ele permaneceu deitado com ela aconchegada em seu peito.
Durante a noite, os corpos se moveram. A certa altura, Jobson e Nicolas terminaram abraçados um ao outro, com as duas garotas praticamente presas às suas costas. A luz do Sol entrando pela janela e iluminando os quatro formava uma cena linda, quase como se alguém tivesse montado aquela imagem cuidadosamente.
Será que algum dia já tinham sido tão felizes quanto naquela hora?