Capítulo 20
Capítulo 20
A Briga
Enquanto Cristina e Dafne tinham se tornado unha e carne, Nicolas e Jobson já não estavam mais tão próximos. Dafne era despudorada o bastante para jogar a realidade na cara de Cristina, sempre com bom humor, e dizer que seria impossível para ela acompanhar aquele estilo de vida se a outra continuasse gastando, numa única saída, o equivalente ao salário inteiro dela.
Tudo se resolvia rapidamente, porque, para Cristina, pagar esse valor a Dafne não consumia nem mesmo toda a sua mesada, sem contar os vários cartões que tinha à disposição para diferentes situações. O aumento de despesa sequer foi notado pelos pais da garota.
Com Jobson, a lógica era outra. Mesmo que Nicolas entendesse o problema, o que não aconteceu, ele seria orgulhoso demais para aceitar qualquer tipo de ajuda. Nas primeiras saídas com Nicolas e outros amigos, percebeu que, se houvesse uma segunda rodada daquilo, não teria mais dinheiro para levar para casa, e ainda era dia oito do mês. Por mais que Nicolas pagasse a maior parte das despesas sempre que saíam, qualquer pequena coisa que Jobson insistisse em pagar para não parecer deslocado diante da turma já significava, para sua casa, uma semana a menos de mistura na mesa, gasto que, mesmo com a renda maior, ele ainda não podia repor com facilidade.
A mãe de Jobson já tinha percebido que alguma coisa andava pesando em sua cabeça. E, como fazem muitas mães da geração dela, em vez de perguntar diretamente o que estava acontecendo, chegou usando a tática clássica:
– Eu falei que não ia dar certo essa história de sair com gente que não é a gente.
Jobson olhou para a mãe e já sabia exatamente aonde aquilo chegaria.
– Mas você não me escuta. Acha que sua mãe não entende nada da vida – continuou ela.
Jobson não pensava isso nem por um segundo. Muito pelo contrário. Sabia tudo o que ela já tinha sofrido e aprendido, e ele próprio tinha acompanhado e absorvido uma parte daquele sofrimento.
– Mas eu não vou falar mais nada. A consciência é sua.
Jobson realmente desejou que ela parasse ali. Mesmo se não dissesse mais nada, a forma como lavava a louça, quase quebrando pratos e copos de tanta força, já falava por ela.
– Quando um escravo se envolve com a realeza, parece que os dois vão sofrer em igualdade se alguma coisa der errado. Mas o sofrimento do rico nunca vai ser igual ao sofrimento do pobre. Nunca, meu filho. Nunca.
Fernanda começou a chorar, e Jobson não soube o que fazer. Levantou e tentou abraçá-la, colocando o braço sobre seus ombros.
– Não. Não precisa disso, não – disse ela, recusando o toque e tentando demonstrar que estava bem, ainda que segurasse o choro. – Se você quiser mesmo fazer isso com a sua vida, você faz. Eu sei de tudo o que está acontecendo, mesmo sem você saber direito, e sei que isso vai ser o meu martírio. Porque eu sei, meu filho, que você só tem duas escolhas: sofrer muito se parar agora e nem se permitir tentar... ou sofrer violentamente, desesperadamente, catastroficamente...
Jobson nunca tinha imaginado a mãe usando palavras daquelas.
– ...a ponto de não sobrar quase nada de você para juntar, se resolver tentar o que ainda nem sabe direito o que seria.
Jobson se sentou e abaixou a cabeça. A mãe tinha razão, mesmo que ele mesmo ainda não entendesse direito tudo aquilo. Sabia que estava dentro de um mundo ao qual não pertencia e ao qual jamais pertenceria. E sabia, também, que não deveria continuar ali. Mas saber o que precisa ser feito é bem diferente de conseguir fazer. Além disso, tudo o que tinha conquistado até aquele momento vinha justamente do fato de ter entrado naquele mundo, de ter aceitado o primeiro gole. Voltar atrás agora significaria recomeçar de um ponto em que ele nem sequer tinha certeza de haver começo. E significaria, também, recomeçar de coração partido. Jobson já nem entendia ao certo por quem seu coração batia.
Continuava indo normalmente ao trabalho e à escola. Havia dias que não trocava mensagens com Nicolas. Não respondia, não atendia as ligações. Já tinha inventado desculpas para não saírem naquela semana e não conseguia mais achar um assunto novo que lhe permitisse escapar de outro convite. Vira Dafne apenas duas vezes nos últimos dez dias e, pelo visto, ainda eram namorados, embora a garota falasse muito mais de Cristina e do casamento do que de qualquer outra coisa. Ainda assim, ela não parecia disposta a abrir mão dele, mesmo que Jobson desconfiasse de que fazia parte dos interesses dela e não exatamente de seus afetos.
Jobson não estava feliz. E não sabia o que fazer com aquilo.
Naquele dia, ao sair do escritório, encontrou Nicolas esperando por ele na porta do prédio.
– O que aconteceu? – perguntou Nicolas.
– Era para ter acontecido alguma coisa? – devolveu Jobson, sem parar de andar.
– Não se faça de bobo. Do nada, você passou a me evitar. Não atende, não responde mensagem.
Nicolas o seguia falando alto, quase como uma namorada abandonada, chamando a atenção de quem passava. Jobson achou melhor tirá-lo dali e o puxou pela manga do paletó para a lateral do prédio.
– Eu só estou muito atarefado. Trabalho, curso, problemas em casa... – tentou justificar.
– Agora você vai botar a culpa nos problemas de favela que você tem e eu não tenho?
Assim que terminou de dizer aquilo, Nicolas percebeu, pelo olhar de Jobson, que tinha ido longe demais. Até então, o outro nem sequer o encarava diretamente.
– Sim, Nick. Eu tenho problemas de favela que você nunca vai sonhar em ter. Você nunca vai saber o que é não ter certeza se vai ter comida para comer. Eu já passei dias comendo pão velho de padaria, mas sem saber se conseguiria dar alguma coisa para os meus irmãos pequenos. Você nunca vai saber o que é ouvir criança chorando de fome e não conseguir resolver. Você nunca vai saber o que é deitar à noite numa posição pensada para diminuir a chance de levar bala perdida se estourar um tiroteio. Você nunca vai saber o que é querer estudar e ouvir de professor que preto, escroto, que estuda, não vai ser nada na vida. Você nunca vai saber o que é levar sua mãe para um hospital depois de ela ter sido estuprada, depois de doze horas de trabalho, e ainda ser olhado como possível estuprador, cúmplice ou criminoso, enquanto ela é culpada pelo próprio estupro. Você tem razão, Nicolas. Você nunca vai viver os meus problemas de favela. E, se quer saber, só por isso você já devia ser feliz.
Jobson despejou tudo de uma vez e saiu. Pensou melhor, voltou alguns passos e continuou:
– E quer saber de mais uma coisa? Além dos meus problemas de favela, eu tenho outros, sim. Outros que você também provavelmente nunca vai saber o que são. Ver alguém que parece ser sua namorada interessada em você só para continuar fazendo parte de um grupo de pessoas que têm muito dinheiro e podem tirá-la de uma vida que ela tem certeza de que não foi feita para ela, embora essa vida não tenha sido feita para ninguém. E ver que você gosta de alguém, mas não tem a menor chance, qualquer chance, de fazer isso dar certo. Nem pela metade. Porque parece que a gente vive no mesmo mundo, mas somos de mundos completamente diferentes. E não existe nave nenhuma capaz de me levar até lá.
Terminou de falar e foi embora, deixando Nicolas completamente atônito.