Capítulo 3 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 3 de 28
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Capítulo 3

Capítulo 3

Viviane

“Um completo absurdo!” Era o que Viviane pensava sobre aquilo. Quem aquela garota imaginava que era? Com quem pensava que estava falando? Será que não conseguia perceber o quão sortuda era por trabalhar para aquela família? Quantas vizinhas não deviam morrer de inveja por vê-la passar a maior parte do dia no bairro mais rico da cidade, segura, bem alimentada e com bons benefícios? Afinal, sua família era muito boa com os empregados.

Viviane não gostava da ideia de sua governanta cuidar da contratação das empregadas. Afinal, governanta era algo tão provincial, antiquado. Mas seu finado pai valorizava tanto não só aquela função, como também a sua ocupante, que ela havia prometido a si mesma manter Aurora enquanto ainda estivesse viva. Ainda assim, talvez a velha já estivesse gagá. Teria de conversar com ela de novo, porque as contratações claramente não estavam à altura. Onde já se viu, logo no começo do dia, dar uma resposta atravessada à patroa? Viviane, porém, logo a colocou em seu devido lugar. Pelo menos, a moça tinha acertado no café da manhã. As frutas estavam bem selecionadas, o suco e o café bem preparados, os bolos escolhidos combinavam corretamente. Isso a deixou um pouco mais tranquila. Para ela, o problema era simples: a garota precisava de mais autoridade sobre si. Aliás, toda aquela geração precisava de mais pulso firme.

Para onde tinha ido o tradicional? Antigamente, responder atravessado a alguém mais velho, a um pai ou a um patrão era motivo, no mínimo, para um belo tapa na cara. Rapidamente se resolvia, pensava ela. Agora havia liberdade demais, regras demais, coisas que considerava muito prejudiciais ao desenvolvimento humano. Na idade daquela garota, Viviane já estava casada e tinha um filho. Tornava-se chefe de família. Pouco depois, passou a ser responsável por uma fortuna, herdeira e a nova cara de um dos clãs mais respeitados da sociedade. Seu filho, apenas poucos anos mais novo que a empregada, ainda precisava de estímulo para sair da cama e ir para a aula de alemão.

Mas não podia se preocupar com aquilo naquele momento. Precisava fazer sua meditação e sua aula de yoga, e toda aquela irritação não fazia bem para a pele. Ainda tinha de terminar alguns detalhes da apresentação mais tarde, e as roupas que havia separado para a gravação ainda não tinham chegado. Parecia que tudo o que ela tentava fazer acabava prejudicado pelo serviço ruim de alguém. Isso apesar de sempre pagar com antecedência e acima da média. Talvez, em sua opinião, o problema fosse exatamente esse. Receber antes dava às pessoas a confiança de que podiam trabalhar de qualquer jeito. Pensamento pequeno, de quem nunca teria nada na vida, porque, se arriscassem perder clientes bons como ela, jamais construiriam coisa alguma.

Olhou novamente para a mesa, ainda se recuperando daquilo que considerava uma decepção sofrida ali, num espaço sagrado demais para ela, e ficou pensativa.

Bastava o último pedaço do seu bolo de cenoura light preferido e estaria pronta para seguir até o solário.

Seu dia seria longo. Além de gravar os vídeos para as redes sociais e fazer a parte que considerava mais chata, responder aos comentários selecionados por sua equipe, ainda precisaria ir à academia à tarde, porque seu personal já tinha notificado pela segunda vez a ausência dela e, depois, seria muito difícil recuperar o cronograma de treinos. Ela olhava a vista pela janela e pensava em como conseguia dar conta de toda aquela rotina. Achou que faria bem mandar mensagem para a secretária e pedir que marcasse um spa para o fim de semana. Aliás, talvez fosse melhor ligar. Os jovens de hoje vivem com o celular na mão e, ainda assim, não veem as mensagens importantes.

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