Capítulo 27 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 27 de 28
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Capítulo 27

Capítulo 27

O Arrependimento

A semana do casamento finalmente chegou, e os preparativos pareciam estar em ebulição.

Cristina estava ansiosa. Mas Dafne estava muito mais. Àquela altura, parecia ela a noiva, e não a amiga da noiva. A estratégia dela, pelo visto, tinha funcionado: Karina não voltara mais a procurar Jobson. A própria Dafne, percebendo que tinha sido omissa demais com o namorado, resolveu se aproximar mais dele. Passou a ajudá-lo a procurar uma casa nova para alugar, mais perto da região onde ela morava e, de quebra, num trajeto muito mais curto até a empresa. O lugar parecia ótimo. Era um apartamento, sonho antigo da mãe de Jobson.

– E o melhor é que há ótimas opções aqui perto também, caso, no futuro, a gente pense em morar junto. Você pode deixar a sua mãe bem instalada, num lugar justo, onde consiga ajudá-la, e ainda ter um espaço comigo. Eu sei, eu sei, não precisa pensar nisso agora. Mas uma coisa não impede a outra.

Jobson praticamente recebeu aquilo como um convite para casamento ou, ao menos, para uma vida a dois. Ele nem sabia se Dafne sonhava mesmo com isso. Ainda assim, não rejeitou a ideia. Pensava muito em Karina, claro, mas o silêncio dela, que já não respondia mais suas mensagens, o forçava a tentar deixar aquela história para trás. Para ele, sonhos nunca tinham sido a escolha mais segura. E, por mais que, nessa equação, Dafne fosse a realidade possível e Karina o sonho, a realidade ao lado de Dafne estava longe de ser ruim. Muito pelo contrário. Ela estava mais próxima, mais carinhosa, mais participativa. Só que o casamento precisava passar primeiro. As coisas, dizia a si mesmo, só poderiam ficar realmente claras depois do casamento.

Karina terminou a matéria sobre Nicolas. O texto estava devastador. A forma como ela construíra tudo era sensacionalista o suficiente para cair como uma bomba. Deixou o arquivo aberto, pronto para enviar ao editor para aprovação. Estava tudo alinhado. Cada frase empurrava o leitor para o choque certo. Então releu alguns trechos. E, à medida que lia, lembranças de Jobson começaram a invadir sua cabeça.

Ela sabia que, na sua profissão, sentimentos pessoais precisavam ser mantidos à distância. Mas já não sabia ao certo o que estava sentindo. Primeiro pensou que talvez só tivesse exagerado na dose em nome da matéria. Depois cogitou se aquilo não poderia ser verdade. Será que não sentia mesmo nada por Jobson? Com ele, tinha vivido a noite de prazer mais intensa da própria vida, e só isso já seria muito. Mas, se o que chamava de fantasia ou ilusão fosse paixão, aquilo seria terrível. Porque seria algo que nunca tinha sentido antes. Não daquele jeito.

Ela sabia que estava tendo dificuldade para não mandar mensagem. Para não responder às declarações que ele tinha enviado. O que era aquilo? Desejo? Culpa? Paixão? Pela primeira vez em muito tempo, Karina não conseguia nomear o que sentia com a mesma facilidade com que nomeava o mundo.

Não tinha amigos de verdade. E talvez Robert fosse a pessoa que melhor a conhecia. Ligou para ele. Começaram a conversar.

– Pode parar, Kari. Não precisa me contar mais nada. Eu já sei – interrompeu ele com pouco tempo de conversa. – Fico triste por você, mas, se era isso que queria me perguntar, eu já tenho certeza: você está completamente apaixonada por esse rapaz, como nunca esteve por ninguém. E publicar essa matéria vai ser uma violência da qual você não volta inteira.

– O que te faz dizer isso? – perguntou ela.

– Tudo. Você está tentando se enganar, mas está completamente envolvida. Se não estivesse, nem teria me ligado para perguntar. Você precisa cancelar essa matéria e contar toda a verdade para ele.

Karina foi para casa com aquilo ecoando na cabeça. Dormiu mal. Sonhou coisas confusas, desconexas, violentas. Quando acordou, veio o estalo: estava mesmo apaixonada. Mandou mensagem para Jobson, mas ele não visualizou. Decidiu ir pessoalmente até a empresa. Não queria perder mais tempo.

Chegou lá e pediu que o chamassem. Ele desceu.

– Jobson, tem uma coisa que eu preciso te dizer – falou assim que o viu.

– Tem a ver com isso aqui, Karina? – perguntou ele, jogando uma revista diante dela.

“O casamento conveniente moderno!”

O título de capa era suave demais perto do subtítulo e do conteúdo da matéria, que Karina nem precisava reler para saber de cor.

– O quê? Como isso foi publicado? – ela perguntou, sem entender.

– Como? Como? Com a ingenuidade de alguém, só pode ser. Você não sente vergonha? Veio aqui tripudiar? Você não fez uma simples fofoca sobre a alta sociedade. Você acabou com os sonhos e com a vida dos quatro principais envolvidos. E não foi só isso. Fez isso também com outras pessoas que não tinham nada a ver com a história. Com o sonho da minha mãe de sair da favela. Com a realização dela de ter um filho que venceu na vida pelo próprio esforço.

– Não fala assim. Isso é passageiro. Logo as pessoas esquecem – tentou ela, em vão.

– Isso só funciona para os ricos, Karina. Para gente pobre como eu, chance não se repete. Eu já fui demitido. E isso não vai ser nada perto do resto que ainda vou ter de enfrentar.

Eles estavam no saguão do prédio. Karina o puxou para a escada de emergência. Desceram alguns lances, até uma área mais isolada do estacionamento.

– Eu escrevi a matéria, sim. Mas me arrependi. Não ia enviar. Meu editor deve ter visto o arquivo aberto no computador. Eu desisti porque vim te contar que estou apaixonada por você.

– Apaixonada? Você leu o que escreveu? Você acha mesmo que alguém capaz de escrever isso consegue estar apaixonado por outra pessoa? Você debochou de mim. Debochou do Nicolas. Escreveu sobre intimidades minhas, escreveu sobre a Dafne. Como você imagina que eu vou acreditar que uma traição desse tamanho pode ser prova de paixão? Isso não parece paixão. Parece culpa. Minha vida acabou, Karina. Eu nem sei por que estou aqui, ainda te ouvindo.

Jobson virou as costas e saiu. Karina correu atrás, pedindo que ele esperasse, implorando perdão. Ele não olhou para trás.

Na recepção, disseram que Nicolas queria falar com ele. Jobson subiu.

– Eu não posso te culpar, porque eu mesmo incentivei essa aproximação de vocês. Nunca imaginei que ela fosse te usar dessa forma. Mas o que fez você contar aquilo? – Nicolas começou assim, sem rodeios.

– Eu não contei. Ela perguntou mais de uma vez, mas eu nunca contei nada.

Jobson ainda estava transtornado.

– Eu só queria te dizer que meu pai vai processar a revista. Mas ele acredita que eles devem ter alguma prova, porque não teriam publicado sem isso. Por causa disso, ele já pretende processar você também, por calúnia e difamação. Eu vou fazer de tudo para impedir.

Nicolas mal conseguia encará-lo.

– Com certeza a Dafne seria capaz de negar tudo em juízo, se fosse preciso, e ainda jogar toda a culpa em mim, dizendo que eu inventei essa história para a Karina.

Nicolas não respondeu. O silêncio foi resposta suficiente.

– Eu esperava muito mais de você, Nicolas. Por incrível que pareça, eu acreditei que a gente era amigo de verdade.

– Você foi o único amigo de verdade que eu já tive, Jobson – respondeu Nicolas.

– Foi, né? – devolveu Jobson, marcando o tempo verbal como quem fecha uma porta.

Virou-se e saiu.

Não teve coragem de voltar para casa. Não conseguiria olhar a mãe nos olhos. Pegou uma garrafa de uísque que ficava na recepção da sala de Nicolas e, em vez de descer para sair, subiu. Passou pelo heliporto, encontrou o único trecho do beiral de onde se conseguia ver a rua e sentou ali, bebendo diretamente no gargalo.

Ficou ali muito tempo. Dez minutos. Vinte. Talvez meia hora. Bebeu mais. E concluiu que já não existia jeito algum de voltar a se aproximar da felicidade que tinha experimentado nos últimos tempos. Não apenas pela falta de oportunidades que aquela situação geraria dali para a frente, mas pela descrença brutal que acabava de desenvolver em qualquer pessoa.

Olhou para baixo. Pensou que deveriam existir outras formas de morrer. Mas, se era mesmo suicídio que tinha diante de si, era agora. Se saísse dali, não teria coragem de tentar de novo. Pensou que talvez alguém aparecesse para impedi-lo. Afinal, a empresa era supermonitorada. Não parecia possível que sua ausência ainda não tivesse sido notada.

Levantou-se e subiu no parapeito. Pensou por mais alguns segundos. Ergueu os olhos para o céu. Seria verdade que suicidas iam direto para o inferno? Aquilo lhe pareceu injusto. Afinal, alguém que se mata já não chega ali depois de uma dor absoluta? Se fosse mesmo assim, então talvez não fosse só daquele mundo que já não quisesse fazer parte, mas do universo inteiro. Porque, se Deus permitisse que, depois de tudo, a queda dali ainda o levasse a um sofrimento eterno, então a própria realidade seria um projeto de desgraça infinita.

Colocou um pé à frente e, curiosamente, não pensou com clareza que iria pular. Não fez última prece. Não escreveu bilhete. Não teve sensação de último suspiro. O corpo apenas se inclinou.

E ele caiu.

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