Capítulo 23 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 23 de 28
Obra Menu

Capítulo 23

Capítulo 23

A Jornalista

Karina Costa era o que se poderia chamar de fenômeno em sua profissão. Daquelas pessoas que explodem cedo, viram nome, viram rosto, viram assunto, mesmo sem ter acumulado tanta estrada.

Ela sempre tinha estudado muito. Formara-se numa das faculdades mais reconhecidas do país, tirava notas excelentes e se dedicava a textos jornalísticos densos, bem pesquisados, construídos com rigor antes da publicação. Ainda assim, sua notoriedade só explodiu de verdade quando decidiu adotar uma imagem mais ousada, valorizando a própria aparência como nunca antes, aproveitando-se do fato de ser muito bonita e cobrando favores que pessoas influentes deviam a seus pais.

As matérias também mudaram de tom. Passaram a buscar mais um título forte e chamativo do que a notícia em si. Karina entrara numa fase em que as pautas corriam atrás dela, e não o contrário. Aprendera a farejar onde havia escândalo, desejo, dinheiro e aparência. E quase sempre acertava.

No jantar, sob a condição de não gravar, fotografar nem divulgar nada como matéria, foi como convidada. E cumpriu à risca o combinado. Mas essa posição lhe permitiu algo ainda mais valioso: observar de perto, com calma e sem levantar suspeitas, cada comportamento em volta daquele casamento. Percebeu logo que havia material demais ali. Material para uma reportagem grande, demorada, talvez até para algo maior. Sabia que exigiria investigação de campo, tempo, proximidade, mas tinha a intuição certeira de que valeria a pena.

E, evidentemente, os personagens mais interessantes da noite, na opinião dela, não eram os noivos, nem os pais dos noivos. O que chamava sua atenção era um casal de padrinhos sentado na mesa seis. Não era a mais distante da mesa principal. Pelo contrário: estava exatamente atrás dos noivos, o que sugeria proximidade. Mas havia um detalhe importante. Eles ocupavam o centro da mesa e, ainda assim, eram os mais próximos da parede. Uma posição que parecia destacar, mas no fundo isolava.

Karina percebeu que os dois conversavam entre si, mas sem intimidade real. Também percebeu, sem esforço algum, o quanto a moça observava a noiva e, principalmente, a mãe do noivo. Não era preciso uma análise comportamental sofisticada. Qualquer pessoa que passasse alguns minutos olhando para Dafne chegaria à mesma conclusão.

Mas o verdadeiro achado, e esse Karina atribuiu ao próprio faro, estava em Jobson. Na forma como ele olhava para Nicolas, na maneira como sorria em certos momentos. Não era um olhar amistoso, nem o olhar casual de colegas que dividem experiências. Havia ali algo que ia além. Um brilho que Karina aprendera a reconhecer em gente apaixonada. Não precisaria provar aquilo de imediato. Bastava marcar o ponto e seguir cavando.

Trocando mensagens com a própria equipe ainda durante o evento, recebeu em poucos minutos a ficha completa do casal de padrinhos. Tão completa que parecia resultado de uma investigação longa. E já vinha sendo. Outros jornalistas tinham recebido de Viviane a missão de levantar detalhes sobre os dois. Assim, Karina já tinha em mãos um relatório quase exaustivo sobre Jobson e Dafne.

De Jobson ela logo se lembrou: o herói do incêndio. Não associou de imediato, mas bastou começar a leitura para que os pontos se conectassem. O resto do material foi apenas confirmando a sensação inicial. Se existisse ali uma relação a quatro, se houvesse profundidade real naquele emaranhado de afetos, a forma como tudo pudesse ser contado seria explosiva. E ela teria tempo. A semana do casamento parecia perfeita para colher material. A matéria poderia virar capa, ainda que só saísse meses depois. Era o tipo de reportagem que exigia fôlego, paciência e estômago. Karina já sabia por onde começaria.

No dia seguinte ao jantar, publicou apenas uma nota pequena em seu veículo on-line, do jeito que Viviane desejava: um relato elogioso sobre como o evento tinha sido maravilhoso, sem qualquer foto ou material exclusivo, sob a justificativa de que fora convidada e respeitara a intimidade da ocasião.

Viviane não esperava esse comportamento. Queria mesmo que imagens vazassem para que ela pudesse polemizar nas próprias redes e ganhar visibilidade. No fim, porém, preferiu elogiar publicamente a postura ética de Karina, enaltecendo o respeito ao momento familiar. Isso gerou visualizações, engajamento e, no fim das contas, a deixou satisfeita.

Karina esperou alguns dias. Aproveitou a menção de Viviane para pedir autorização para cobrir os preparativos do casamento. A influenciadora ficou radiante e autorizou na hora. A primeira sessão de fotos foi marcada com Nicolas. E Karina escolheu de propósito a empresa como cenário.

Sem criar nenhum desconforto, sem fazer perguntas difíceis e mantendo tudo leve, encerrou rápido a participação no horário que já sabia, de antemão, ser o fim do expediente de Jobson.

Armou então um encontro casual.

Passaram a caminhar lado a lado. E, sabendo que Jobson iria para o curso, Karina agendou um falso compromisso numa faculdade do outro lado da avenida.

Jobson notou a presença dela. Ela caminhou um pouco à frente de modo que fosse impossível não percebê-la, nem que fosse apenas como figura. Ao entrarem na instituição, diminuiu o passo até os dois estarem lado a lado.

– Olá, como vai? Posso te perguntar uma coisa? Você não é o rapaz que apareceu naquela reportagem sobre o incêndio da empresa? – puxou assunto.

Jobson abriu um sorriso tímido.

– Sim, sou eu.

– Poxa, que legal. Parabéns. É uma feliz coincidência, porque eu sou jornalista e estou justamente fazendo uma matéria sobre pessoas negras que se destacam, que são incríveis. Será que você me passaria seu contato para que a minha equipe faça algumas perguntas depois? Quem sabe a gente consegue colocar alguma coisa na matéria? Seria muito bom.

Karina tinha claramente aprendido a conseguir o que queria sem parecer invasiva. E, de fato, tinha treinado muito isso.

– Eu... eu não sei. Bom, acho que não tem problema. Anota aí.

Por dentro, ela ficou eufórica. Missão cumprida. Anotou o número, viu na mesma hora a foto dele surgir no aplicativo e, além de confirmar que o contato era verdadeiro, entendeu o quão inexperiente ele era em matéria de privacidade digital. Parecia que metade do trabalho já estava pronta.

Agradeceu, despediu-se e se preparou para seguir até a sala do diretor para sustentar a desculpa de que realmente tinha um compromisso ali.

– Ei, moça, espera! – chamou Jobson.

– O que foi? – perguntou ela, surpresa.

– Você, por acaso, não é a jornalista Karina Costa?

Ela quase não acreditou que ele a reconhecesse, justamente por causa do tipo de conteúdo que costumava abordar.

– Sim, sou eu.

– Eu lia os seus artigos políticos. Era o melhor conteúdo sobre o tema. Você fazia paralelos filosóficos sem se prender a posições fechadas. Foi uma pena quando parou de publicar aquilo.

Karina ficou com o rosto de quem, pela primeira vez em muito tempo, não sabia o que responder. E isso era raríssimo.

– O... obrigada. Às vezes a gente sente que, para ser ouvida, precisa primeiro ganhar algum destaque, mesmo que não seja exatamente do jeito que gostaria – respondeu. E foi a primeira vez, em muito tempo, que falou como falava aos colegas da faculdade, aos professores, aos poucos leitores entusiastas de antes.

– Eu sei como é. Mas acho que, enquanto a gente puder, nunca deve desistir de quem é, do que pensa, do que sente, do que deseja. E, mesmo quando a vida empurra a gente para longe de si, uma hora a gente se encontra de novo.

O que Jobson disse a deixou perplexa.

– Até mais. Desculpe ter prolongado a conversa – despediu-se ele.

– Imagina. Até mais – respondeu Karina.

Aquela conversa perseguiu seu pensamento pela noite inteira e ainda pela manhã seguinte. Só foi interrompida quando uma nova briga de casal famoso estourou e ela precisou comentá-la. Isso a fez, ao menos temporariamente, deixar de lado toda a espiral de pensamentos antropológicos e sociológicos provocada pelo simples fato de Jobson tê-la confrontado, com tanta simplicidade, com palavras tão certeiras.

1/1
Menu

Fazer anotação