Capítulo 26
Capítulo 26
Compromissos
O casamento se aproximava, e, com ele, a relação dos quatro voltava a se estreitar. Entre provas de roupa e baladas, degustações de comes e bebes e idas a barzinhos, encontros de madrinhas e sessões de cinema, em menos de um mês os dois casais tinham voltado a ser melhores amigos, fazendo quase tudo juntos outra vez.
Jobson havia se afastado um pouco de Karina. A consciência pesava, mas ele não teve coragem de contar a verdade a Dafne. Na cabeça dele, isso não mudaria nada. Só serviria para magoá-la e transformar a relação dos dois em algo ainda mais mecânico. Decidiu então se comprometer de verdade com o namoro, e sabia que isso significava aceitar mais programas do mundo de Nicolas e Cristina. Curiosamente, deu certo. Ele e Dafne pareciam agora ainda mais íntimos do que já tinham sido em qualquer outro momento. A moça chegou até a falar em casamento.
Aparentemente, o empreendimento de Dafne também ia de vento em popa. Ela ganhava mais e mais seguidores e já começava a conseguir os primeiros patrocinadores, especialmente na linha de maquiagens e perfumes. Cristina, empolgadíssima, também transformou o feito em negócio. Criou uma agência de desenvolvimento de influenciadores. Montava estruturas, prometia retorno e cobrava por isso. E, para quem tinha dinheiro para investir, o retorno de fato vinha com relativa facilidade, sobretudo quando havia alguém famoso por trás ou uma boa rede de replicadores sociais.
Nicolas também avançava. O pai passou a lhe confiar cada vez mais atividades. Ele já estava próximo dos principais investidores e começava a atuar como articulador de projetos. Em determinado momento, pediu que Jobson assumisse o cargo que antes era dele, o que os colocava de novo muito próximos no ambiente de trabalho.
Karina, ao perceber o distanciamento de Jobson, esperou algum tempo antes de retomar o contato com força. Não o abandonou completamente, mas entendeu que precisava deixá-lo respirar para depois atacar de novo. Acreditava que ainda daria certo. Ou, ao menos, foi esse o argumento que usou para justificar a si mesma o próprio afastamento temporário. A verdade era simples: aquela noite entre os dois continuava viva dentro dela. E, sempre que lembrava, tentava diminuir o peso do que tinha sentido.
Quando decidiu voltar a investir, foi direta. Sabia exatamente onde encontrá-lo e em que dias ele almoçava sozinho. Preparou a emboscada. Foi até a mesa dele, sentou-se diante dele e anunciou, sem rodeios, que estava apaixonada.
Jobson ficou sem reação.
– Jobson, é isso. Estou louca por você. Não consigo parar de pensar em você. E a minha única dúvida é se existe alguma coisa entre você e o Nicolas que impeça você de se entregar por inteiro para mim.
Ela jogou sobre ele todas as cartas que tinha.
Jobson ficou sem ar.
– Ni-Nicolas? – gaguejou.
– Sim, Jobson. Você acha que eu não percebi até agora que existe alguma coisa a mais entre vocês? – disparou Karina.
– Não, você está enganada, Karina. O problema é mesmo a Dafne. Me separar dela agora seria uma tragédia para ela, a poucos dias do casamento. A amizade com Cristina vale muito para ela.
Karina pensou em apertá-lo ainda mais, mas resolveu não fazer isso. Preferiu ver se, depois de um tempo pensando, a reação dele poderia mudar. Levantou-se e saiu do mesmo jeito repentino com que chegara, deixando-o sozinho com aquela bomba no colo.
Jobson passou o resto da tarde pensando. Concluiu que, independentemente do que viesse a acontecer entre ele e Karina dali para frente, não devia continuar deixando Dafne naquela situação sem saber da verdade.
Mandou mensagem para ela e, no fim do expediente, foi buscá-la na casa de Cristina. Normalmente se encontravam de táxi ou por aplicativo. Achou que levar a conversa para um parque seguro, que funcionasse à noite, seria uma boa ideia. Dafne estranhou. Achou que aquele excesso de romantismo fazia parte da nova postura dele. Quando chegaram, Jobson contou tudo. Muitos detalhes, desde o primeiro encontro com Karina, passando pela entrevista, pela aproximação e pelo que tinha acontecido entre os dois.
– Você acha que eu sou boba, Jobson? Acha mesmo que eu não sabia que estava rolando alguma coisa?
A reação dela o deixou em choque.
– Você sabia?
– Sim. Claro que eu não imaginava exatamente o nível disso tudo. Mas, como você se esforçou tanto para que a gente ficasse bem, achei que já tivesse superado essa história.
Dafne falava como se nada daquilo fosse realmente uma novidade.
– Você não sente ciúme? Não está furiosa? – perguntou ele, espantado.
– Estou até aliviada por você conseguir se abrir assim comigo. Mas esse assunto eu vou resolver – respondeu, tranquila demais.
– O que você está pensando em fazer? – perguntou ele, já temendo a resposta.
– Vou ter uma conversa de mulher para mulher. Depois disso, você decide com ela se realmente prefere me trocar.
No dia seguinte, Dafne fez exatamente o que Karina tinha feito com Jobson: armou uma cilada no horário de almoço.
Esperou a jornalista sair do prédio e a abordou.
– Você me conhece, não conhece? – perguntou Dafne.
Karina apenas assentiu.
– Certo. Como uma boa jornalista, que sabe que não é de bom tom chamar atenção e virar notícia, me leva para um lugar mais privativo?
Enquanto falava isso, sorria, de modo que qualquer pessoa que passasse imaginaria estar vendo duas conhecidas num encontro agradável.
– Podemos descer para a garagem e conversar no meu carro – sugeriu Karina.
Dafne concordou.
Assim que entrou, foi direta:
– Escuta bem. Você não vai dar em cima do meu namorado na minha cara e achar que isso vai ficar assim.
– Imagino que ele, tendo as informações certas, consiga decidir sozinho qual caminho quer seguir – respondeu Karina, devolvendo a provocação.
– Ele tem um compromisso comigo. E, entre um casal, certas decisões também são conjuntas. Eu não vou abrir mão do Jobson. Você não imagina o tanto que eu já fiz para essa relação dar certo.
Dafne colocava as cartas na mesa.
– Isso inclui ficar com outra mulher e aceitar que o seu namorado fique com outro homem, os quatro juntos? – devolveu Karina. – Você não está afim dele. Está afim do que essa amizade toda pode te oferecer.
Ao falar daquela forma, deixava claro que sabia muito mais do que deveria.
– E esse tipo de envolvimento é mais forte e mais profundo do que qualquer coisa que você possa imaginar. Você nunca entenderia – respondeu Dafne, quase cega de ódio.
– E você já tentou entender o lado dele? Já pensou se ele realmente sente alguma coisa pelo Nicolas? Nunca percebeu que os dois poderiam ser mais felizes juntos?
Karina lançou mais uma vez a isca.
– Eles ficarem às vezes e serem amigos não muda quem ele é, nem o que ele quer da vida. O nosso relacionamento funciona assim. E você não teria capacidade de lidar com isso.
Ali, Dafne finalmente tinha assumido a história.
– E acho que nem você tem – respondeu Karina, encerrando a discussão.
Dafne, por um instante, não soube o que dizer.
– Só se afaste dele – foi a única frase que conseguiu soltar antes de sair do carro.
Assim que ficou sozinha, Karina tirou do bolso o mini gravador e testou o áudio. Quando ouviu a gravação, percebeu que tudo tinha ficado registrado com clareza, em alto e bom som. Finalmente tinha a confirmação que queria para a matéria. Quem diria que, depois de tudo o que ela fizera para arrancar a verdade de Jobson, quem acabaria entregando a história inteira seria a própria namorada dele.