Capítulo 22 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 22 de 28
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Capítulo 22

Capítulo 22

O Jantar

O dia finalmente chegou.

Ana ainda seguia contrariada com o tamanho do evento, mas fora derrotada naquela batalha. Depois de uma longa conversa ao telefone com Viviane, sempre muito convincente quando queria defender algo que considerava fundamental, decidiu ceder naquele round para talvez vencer o seguinte.

Jobson recebeu o convite por intermédio de Dafne. Nicolas ainda mandou uma mensagem avisando que enviaria a roupa para a sala dele, no escritório, para que ele fosse à loja fazer os ajustes necessários. Disse também que, se ele quisesse companhia, era só chamar. Jobson não respondeu. Foi sozinho até o local, fez tudo sem ajuda e, embora achasse tudo muito estranho, foi tratado de um jeito impecável, algo a que definitivamente não estava acostumado.

Mesmo assim, iria ao jantar sem ter voltado a falar de verdade com Nicolas. E, se decidisse não ir, seria certamente assassinado por Dafne.

Ficou combinado que um motorista buscaria os dois. Jobson achou melhor já sair arrumado do trabalho e pediu que o carro o apanhasse no escritório. Nem sabia se um veículo daquele porte conseguiria entrar na região onde morava. A casa de Dafne, embora humilde, não ficava na favela como a dele. Ainda assim, a simples imagem de um carro da frota da família de Nicolas indo buscá-la em casa, com motorista de uniforme e porta aberta, seria o auge da vida social da garota na comunidade. E Dafne fez questão de garantir que a vizinhança inteira soubesse, sem precisar dizer isso diretamente. A chegada do carro virou praticamente um espetáculo. A rua parou. Gente de outras ruas apareceu para ver.

Jobson fez amizade com o motorista no caminho, e o trajeto foi agradável. Conversaram sobre futebol, música, os problemas dos ricos e deram boas risadas. Quando se aproximaram da casa de Dafne, Jobson pediu para ser ele mesmo quem abriria a porta para ela. Freitas, o motorista, ensinou então qual seria a forma correta, do ponto de vista da etiqueta. Ele abriria a porta de Jobson, pelo lado da rua. Jobson desceria, receberia Dafne pela mão, abriria a porta do lado da calçada para ela, a fecharia e só então voltaria para o carro. Depois disso, Freitas fecharia a porta dele.

Foi exatamente o que fizeram. Para o absoluto deleite de Dafne.

– Que ideia brilhante essa de o motorista abrir para você abrir para mim. Esse povo era capaz de dizer que você era o motorista e tinha pegado o carro emprestado só para me buscar e fazer inveja neles – comentou ela, orgulhosa.

– Confesso que acabei de aprender com o Freitas ali como era o certo a fazer – respondeu Jobson.

Como a distância entre a casa dela e o Avenue, onde aconteceria o jantar de noivado, era grande, embarcaram ainda no fim da tarde. O Sol se pondo tornou o trajeto mais bonito e mais romântico do que qualquer um dos dois admitiria.

– Como ser rico é incrível, não é? O tamanho desse carro, com ar-condicionado... eu nem preciso me preocupar se a maquiagem vai borrar – disse Dafne, deslumbrada.

– Não entendi por que você não foi direto da casa da Cristina – arriscou perguntar Jobson.

– Foi ideia da Viviane. Ela disse que todo evento no Avenue tem cobertura da mídia e presença de jornalistas de revistas famosas, então cada detalhe importa. Se eu chegasse sozinha, isso precisaria ser explicado. Para ela, fazia mais sentido que eu me arrumasse em casa. Só que essa parte foi difícil. Minha família não é exatamente o tipo mais colaborador do mundo para situação nenhuma.

Dafne falava bastante. Jobson percebeu que ela estava nervosa e achou isso curioso, já que a considerava a pessoa mais confiante que conhecia.

– E você? Como está a sua amizade com o Nicolas?

Jobson abaixou o rosto e desviou o olhar.

– Vai bem. Vai bem. Está tudo certo – respondeu, sendo um mentiroso terrível.

– Jobson Jesuíno, trate de não colocar tudo a perder, entendeu? Não importa o que vocês aprontaram, nem o que aconteceu. Você vai se acertar com ele. Está me ouvindo?

O tom autoritário dela o deixou bastante desconfortável. Mas ele não via muita alternativa a não ser concordar.

Quando chegaram, Freitas desceu do carro, abriu a porta de Jobson e comentou ao pé do ouvido, bem baixo:

– Garoto, ouça a voz da experiência: pense muito bem se isso vai valer a pena. E boa sorte.

Sorriu. Dessa vez, porém, não seguiu o protocolo anterior. Contornou o carro, passou por Jobson e abriu diretamente a porta de Dafne. Jobson apenas a ajudou a descer e ofereceu o braço. Já tinha notado os fotógrafos e, até então, não se importara, ocupado demais pensando no que Freitas lhe dissera. Mas, diante daquele corredor de câmeras, câmeras de verdade, coisa que ele nem imaginava ainda existir daquele jeito, sentiu-se intimidado. Dafne, por outro lado, parecia pronta para a noite do Oscar.

Ela o puxou pelo braço e os dois seguiram em marcha triunfal.

– Não tenha medo. Só me imita o máximo que conseguir – sussurrou ela, no ouvido, como se estivesse dividindo um segredo. Em seguida, sorriu. Jobson sorriu também, como se ela tivesse dito algo carinhoso.

Ao entrar no salão, foram recebidos pela hostess e pelo maître. Disseram seus nomes e foram conduzidos à mesa.

Dafne quase explodiu de orgulho ao perceber onde estavam sentados. Era uma das mesas principais dos padrinhos, bem próxima das mesas dos pais e dos noivos.

Já havia outros padrinhos no local. Houve algumas trocas cordiais de sorriso e simpatia, mas a conversa não se aprofundou.

– Eu ainda não tinha dito, porque sabia que não faria diferença no seu momento, mas você está lindíssima – disse Jobson a Dafne.

Ela admirou o esforço, agradeceu com um sorriso e guardou aquilo para si.

Pouco depois, Nicolas entrou com o pai e a mãe. Pareciam a família perfeita. Ele vinha à frente, seguido pelo casal de mãos dadas, e juntos compunham a imagem exata da burguesia tradicional em seu auge. Eram a fotografia da felicidade pronta para ser enquadrada.

Logo depois, chegaram os pais de Cristina. Diferiam muito dos pais do noivo. Entraram como casal, sim, mas de modo quase independente, sem demonstrar qualquer profundidade de relação. Quando a noiva apareceu, todos se levantaram e aplaudiram. Ela agradeceu com uma pequena reverência, acenou, beijou Nicolas e se sentou ao lado dele.

A entrada foi servida. Depois de alguns petiscos, os noivos circularam pelas mesas. Primeiro cumprimentaram os padrinhos, um por um. Depois, alguns amigos, muitos deles amigos dos pais, além de alguns poucos parentes convidados. Boa parte do PIB brasileiro parecia reunida ali naquela noite. E isso era apenas o jantar de noivado. O que seria, então, o casamento?

Tudo saiu exatamente como Viviane planejara.

Depois do jantar, na hora do brinde, Carlos, pai de Nicolas, perguntou se Ulisses, pai de Cristina, gostaria de fazer as honras. Ele respondeu que, além de tímido e ruim com palavras, preferia deixar isso para quem insistira em pagar o jantar sozinho. Carlos agradeceu. Era, afinal, o plano de Viviane desde o começo. Pediu a atenção de todos e fez então o anúncio oficial do casamento.

Dafne e Jobson ficaram impressionados com cada detalhe. Jobson comparou aquilo, mentalmente, à primeira e única vez em que foi ao cinema ver um filme em 3D, quando ganhou um ingresso. Era o mesmo tipo de deslumbramento.

Depois da sobremesa, as pessoas começaram a se despedir, o que marcava o fim do evento. Dafne disse a Jobson que eles ainda deveriam esperar um pouco, e ele obedeceu. Quando restavam poucos convidados, aproximaram-se também para se despedir. Foi então que Cristina comentou que ela e Nicolas passariam a noite juntos e perguntou se os dois gostariam de acompanhá-los.

Dafne, obviamente, respondeu antes mesmo que Jobson pudesse pensar.

Cristina então mandou a orientação ao motorista para que os levasse na frente.

Os dois saíram e já encontraram o carro esperando.

Para Dafne, era o encerramento perfeito de uma noite que, até ali, tinha sido simplesmente impecável.

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