Capítulo 13 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 13 de 28
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Capítulo 13

Capítulo 13

O Segundo Encontro

O segundo dia de Jobson no emprego foi mais fácil. A volta para casa na noite anterior também tinha sido boa e isso o deixara motivado para o dia seguinte. Suas tarefas eram pequenas, na maioria ligadas a documentos, arquivamento e organização de papéis. Por sorte, ele era muito bom nisso.

Quando era mais novo, costumava ajudar a vizinha Adalgisa, já idosa, que era bibliotecária. Como gostava de ler e a biblioteca pública ficava perto de sua casa, aparecia por lá com frequência. Adalgisa, vez ou outra, pedia ajuda para carregar livros e sempre lhe dava alguma caixinha em troca. Com o tempo, a amizade cresceu e ela acabou lhe ensinando várias coisas: o padrão de organização, os diferentes tipos de ordem, o significado dos números de tombo. Jobson era esperto, aprendia depressa. Agora, usava uma lógica parecida para arrumar melhor os papéis do doutor Ricardo. Organizou também os livros. Aliás, o homem tinha muitos livros na sala, embora parecessem funcionar mais como elemento decorativo do que qualquer outra coisa.

Já Nicolas, em seu segundo dia, não teve a mesma sorte. Boa parte do trabalho que fizera no dia anterior tinha sido modificada ou simplesmente excluída pelos supervisores, sem maiores explicações. Desapontado, decidiu entrar em outro projeto e, antes mesmo do almoço, já queria desistir também. Nesse novo, diferente do anterior, ele sequer tinha voz. Recebia apenas dados para compilar e devolver. Resolveu que, depois do almoço, tentaria uma terceira escolha.

Saiu da sala e perguntou a Sandra como chegar ao refeitório. Ela se ofereceu para mandar alguém acompanhá-lo, mas Nicolas recusou na mesma hora, dizendo que uma simples orientação já bastava. A secretária explicou o caminho, e ele foi.

Jobson tinha se antecipado daquela vez. Antes mesmo de começar o expediente, já conhecia os espaços de alimentação da empresa. Deixou a marmita na geladeira, depois de ser avisado por um funcionário de que não precisava se preocupar, porque ninguém mexeria em sua comida. Mesmo desconfiado, deixou ali. Havia dois refeitórios e uma espécie de lanchonete, todos muito próximos. Os executivos almoçavam em um deles; os demais funcionários, no outro. A lanchonete era livre para todos, embora o preço dos itens acabasse escolhendo por conta própria quem a frequentava.

Nicolas desceu e foi direto para a lanchonete. Olhou o cardápio e o achou bastante atraente. Escolheu um contra-filé com fritas. Afinal, sua mãe tinha dado um bom conselho. Em que outra oportunidade ele poderia comer aquela maravilha? Ela o enforcaria se descobrisse que ele tinha rompido a dieta.

Jobson também foi almoçar e se lembrou de que havia trazido farofa junto com o arroz e o ovo. Havia filtros de água disponíveis, mas a empresa incentivava os funcionários a usarem os próprios copos e não permitia descartáveis. Inclusive fornecia canecas, mas a dele ainda não tinha chegado. Sem jeito, com alguns trocados no bolso, resolveu comprar uma água na lanchonete.

– O que você gostaria? – perguntou a linda atendente.

– Eu... é... – Jobson costumava ficar nervoso perto de garotas muito bonitas, e aquela definitivamente o intimidara. Sua presença ali o pegou de surpresa. – Uma água.

– São cinco reais – disse ela, entregando a garrafa.

– Cinco reais, moça? Mas eu só tenho três. Pode deixar, então. Obrigado e desculpe – respondeu ele.

– Dafne! É Dafne, não é? – Nicolas se dirigiu à atendente. Já tinha reparado nela e, evidentemente, lido o nome no crachá. Também ouvira a situação. – Por favor, dá a água para ele e põe na minha conta, por gentileza.

Dafne sorriu de orelha a orelha, obedeceu, entregou a água a Jobson, acenou para Nicolas e saiu para atender o cliente seguinte, a contragosto.

Jobson se virou para agradecer, sem graça, viu Nicolas sentado e o reconheceu. Nicolas, espantado, também percebeu quem era ele.

– Não acredito. Você está trabalhando aqui. Que coisa incrível! – disse Nicolas, com uma surpresa talvez exagerada demais.

– Nicolas, não é? – respondeu Jobson, lendo o nome no crachá, algo que acabara de aprender a fazer. – Bom, acho que estou trabalhando aqui por sua causa. Eu estava procurando emprego e coincidentemente encontrei o seu Maycon, que intercedeu por uma oportunidade para mim – explicou, aproximando-se e falando mais baixo, preocupado com quem pudesse ouvir.

– Que boa notícia, Jobson – disse Nicolas, repetindo a mesma técnica de ler nomes, já que eles nem tinham se apresentado de verdade ainda. – Senta aqui comigo. Vamos nos conhecer melhor.

Nicolas não fazia ideia de que a marmita o esperava.

– Preciso voltar ao refeitório para pegar minha marmita e almoçar – disse Jobson, sem querer recusar o convite.

– Então eu levo meu prato e termino de comer com você lá – respondeu Nicolas, com inocência. – Levar o prato não deve ser problema. Posso trazer de volta daqui a pouco e comer no refeitório aqui ao lado, Dafne? – perguntou de longe.

A garota interrompeu na mesma hora a conversa com outro funcionário, sorriu como não fazia desde a última troca de olhares com Nicolas, respondeu que sim com a cabeça e voltou ao trabalho, reassumindo o semblante pesado.

– É... mais uma vez, não querendo parecer que estou de má vontade, mas não tenho certeza de que o refeitório a que eu tenho acesso seja o mesmo que o seu. Tem um refeitório exclusivo para os executivos – explicou Jobson, realmente envergonhado, mas achando melhor evitar um constrangimento maior.

– E eu quero ver quem vai me impedir de almoçar com você, se você quiser, é claro, onde quer que seja – respondeu Nicolas, num tom que pretendia valorizar Jobson, mas que acabou deixando escapar mais poder do que delicadeza. Talvez ele nem tivesse percebido. Talvez nem fosse essa sua intenção.

Jobson consentiu e acompanhou Nicolas, que carregava a própria bandeja, até o outro refeitório. Durante um curto tempo, ninguém ligou muito. Até que alguém o reconheceu como filho do dono e o burburinho começou. Os dois, porém, mal perceberam. A conversa fluiu de um jeito que nenhum deles imaginara. Riram, descobriram gostos musicais parecidos. Ambos gostavam de letras inteligentes e ouviam rocks antigos, influenciados pelos pais, sem saber o quanto isso os aproximava de verdade.

Foi então que o despertador de Jobson tocou. Ele avisou que precisava voltar. Despediu-se, agradeceu outra vez e foi embora. Depois daquilo, o restante do dia de trabalho de ambos já nem parecia importar tanto.

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