Capítulo 19 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 19 de 28
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Capítulo 19

Capítulo 19

A Preparação

A notícia do casamento de Nicolas e Cristina foi recebida com entusiasmo por todos a quem eles a comunicaram. Os pais dos dois eram os mais efusivos.

Ana, mãe de Cristina, comandava todo o braço brasileiro de uma empresa japonesa de automóveis. Também era sócia majoritária de uma gestora de negócios herdada da família, embora ali se limitasse a receber os lucros, já que a administração, diga-se, funcionava muito bem nas mãos dos acionistas. Ela tinha decidido que o casamento deveria ser simples: luxuoso, sim, mas sem chamar atenção demais.

Viviane, mãe de Nicolas, pensava o oposto. Na cabeça dela, a festa precisava ser o maior evento social já realizado no Brasil. Queria toda honra e toda glória, como dizia, em tom de brincadeira séria, ao mordomo enquanto falava com o filho.

– Isso mesmo, minha senhora, isso mesmo! – era a frase preferida de Tomás, o mordomo.

– Mãe, mas a mãe da Cristina já falou que não quer chamar muito a atenção. Não dá para ser assim – tentou argumentar Nicolas.

– Eu convenço ela no jantar de noivado – respondeu Viviane, acompanhada de um pequeno salto de animação de Tomás, cujos bigodes até balançaram enquanto ele batia palmas quase em silêncio.

– Mas o jantar de noivado que você está planejando já parece maior do que a festa que ela gostaria de fazer – insistiu Nicolas.

– Esse povo do mundo dos negócios que não existem de verdade é sempre assim: ou muito mão-fechada, ou sempre querendo ficar escondido. Ela que fique tranquila. Posso criar uma mesa dos pais dos noivos e uma mesa VIP bem escondida para quem quiser se enfiar no escuro. Mas que isso vai ser grande e ter cobertura em todas as minhas redes sociais, isso vai.

Nada parecia capaz de convencê-la do contrário.

– Eu sei, meu amor, eu sei. Mas não tem o que fazer. Ela está irredutível – contava Nicolas a Cristina ao telefone. – E ainda tem o pior... eu ainda não consegui dizer que um casal de padrinhos vai ser Jobson e Dafne.

A essa altura, o combo NiCrisJoDa já estava consolidado. Dafne tinha passado a frequentar a casa de Cristina e, embora Ana já tivesse perguntado quem ela era, recebera da filha apenas uma resposta vaga: “é uma amiga de Nicolas”. Na correria do trabalho, ainda não tinha parado para investigar melhor.

Mesmo assim, os quatro sabiam que era preciso inserir Dafne no dia a dia de Nicolas. Jobson, por ser o “herói”, tinha mais chance de ser aceito. Já Dafne, mesmo com o status de “namorada” de Jobson, certamente seria recebida com muita relutância naquele círculo social. Fazer parte da vida deles, do cotidiano e até da cama era uma coisa. Mas aparecer nos registros fotográficos da mídia e nas colunas de fofoca exigia outro tipo de preparação. E isso era consenso entre todos.

Cristina teve a ideia. Usaria o dinheiro que havia guardado para transformar Dafne numa influenciadora de sucesso. Faria com que a mãe de Nicolas a notasse de dentro do próprio universo em que vivia. E virar influenciadora, para ela, seria fácil. Primeiro, porque Dafne já era naturalmente muito bonita, desinibida, adaptável e nada tímida, características que, para muita gente, exigiriam treino, maquiagem e filtro. Segundo, porque agora teria dinheiro. E, pagando bem pelo impulsionamento, até uma pessoa que não dissesse nada podia se tornar influenciadora.

Em pouco tempo, Cristina montou para Dafne um estúdio num dos porões da mansão dos Timestons, sobrenome do pai dela, maior que a própria casa da garota.

– Cristina, você precisa fazer alguma coisa. A louca da Viviane alugou o Avenue para o jantar de noivado. Quem aluga o novo Avenue para um jantar de noivado? – o lugar, que já tivera outro nome em outros tempos, havia recebido até a família real inglesa. Recém-reinaugurado, agora sediava apenas eventos do alto escalão empresarial. – Só empresa bilionária paga aquele lugar. O que ela está pensando?

Ana entrou no porão falando nisso e mal reparou na transformação do ambiente. Terminou a frase e saiu pensando se a filha tinha inventado algum escritório de moda para um projeto de faculdade ou se aquilo era apenas o retorno de alguma brincadeira antiga de menina rica.

O telefone de Cristina vibrou com uma solicitação de videochamada de Viviane, e ela não viu alternativa senão atender.

– Oi, nora, desculpa não ter escrito antes e ligar direto, mas queria te perguntar se você gostaria de ir comigo comprar seu vestido para o jantar de noivado – disse Viviane, atropelando as palavras.

– Boa tarde, dona Viviane... – começou Cristina.

– Não, meu amor, nada de formalidade. Sem dona. Vivi. Pode me chamar de Vivi – corrigiu ela.

– Está certo... Vi-vi – tentou continuar Cristina, enquanto Dafne se segurava para não rir. – Acho que podemos ir, sim. Quando seria?

– Amanhã à tarde meu motorista passa para te buscar e a gente se encontra no shopping. Pode ser?

Perguntava já praticamente se despedindo, sem realmente esperar uma resposta.

– Espera, Vivi, será que eu posso levar uma amiga?

Dafne congelou na mesma hora.

– Claro, querida. Se for ainda uma das suas madrinhas, melhor ainda. Agora eu vou te deixar um super beijo. Amanhã a gente se fala, mas, se precisar, pode me chamar, não se acanhe... bye, bye! Fui!

Era visível que aquela despedida seguia um roteiro padrão que Viviane repetia em todas as chamadas.

– Você é maluca, Cris? Como vai ser agora? Não é só que eu não tenho roupa para o jantar de noivado. Eu não tenho roupa nem para sair com vocês no shopping para comprar um vestido para o jantar de noivado! – lamentou Dafne.

– Então o nosso dia vai ser longo. Primeiro, vamos às compras agora. Vamos renovar o seu guarda-roupa, tirar fotos incríveis no caminho, gravar vídeos, os mais manjados das redes sociais e, se der, algum original no meio do caminho. Original by Dafne... aliás, gostei do nome: @originalbyDafne.

Cristina parecia se divertir muito com todo aquele processo criativo. Como se tivesse, enfim, descoberto uma vocação. Equipou-se com um kit de fotógrafa, coisa que jamais imaginara usar um dia, encheu uma mochila de equipamentos e as duas partiram.

No shopping, havia um salão de beleza que Cristina frequentava. Assim que entrou, seu consultor de estilo habitual veio correndo recebê-la:

– Cris-ti-na! Finalmente você voltou, meu amor! Já estava pensando em te buscar em casa! Vem, vem! Tenho mil novidades para te mostrar... Você vai casar! Nem acredito!

– Gabriel, Gabriel, espera! – interrompeu Cristina, segurando a empolgação dele. – Ainda bem que você está animado, porque o meu projeto de hoje é ainda mais ambicioso. Preciso que você monte e coordene uma equipe para nós duas. Para mim, hoje, só pequenas provas. Ainda não será nada focado no casamento. Mas, para ela, quero três ou quatro looks completos e diferentes. E todos precisam ser feitos e desfeitos ao longo do mesmo dia.

– Cristina, isso é quase colocar a equipe inteira para funcionar. O que você está me pedindo chega perto do que faríamos para a sua preparação de casamento. Os valores podem bater perto de seis dígitos. Preciso falar com a sua mãe? – Gabriel ficou tenso.

– Gabi, meu querido, sabe tudo o que eu economizei até hoje com beleza? Então. Chegou a hora de gastar. Pode ficar tranquilo que está tudo aqui, certinho. O dinheiro sai da minha conta. Se quiser, posso até adiantar uma parte para garantir. Sei como são alguns clientes daqui.

Cristina foi tão firme que deixou Dafne embasbacada.

O gerente do salão, percebendo a conversa, se adiantou:

– Senhorita Cristina, nossa principal cliente mirim há anos! Meu nome é Carlos. Fui cabeleireiro da sua avó. Nunca conversamos, mas sempre acompanhei sua presença aqui. Será uma honra fazer parte dessa fase da sua história. Meu salão hoje será todo seu, se você quiser. Gabi, monte a equipe. Senhorita Dulce, realoque para nossas filiais os clientes de hoje que aceitarem a troca de horário. Os que não aceitarem, recebem o serviço grátis em outro dia. Vamos fazer isso acontecer.

Foi impressionante como ele virou o cenário em poucos segundos. Dafne se sentiu dentro de um programa de transformação, daqueles de dia de princesa.

Depois do primeiro look pronto, compraram dois vestidos da vitrine de uma loja sem pensar muito e saíram para fotografar. O shopping era perfeito para isso: oferecia cenários variados e bonitos. Passaram cerca de uma hora nesse processo, enquanto a equipe aproveitou para comer. Quando voltaram, todos já estavam posicionados para a segunda rodada e Dafne já se sentia exausta.

– Você achou que ia ser fácil? – provocou Cristina.

Pelo ritmo, perceberam que só conseguiriam fazer mais uma sessão, caso ainda quisessem escolher roupas. Cristina então pediu a Gabriel que aquela fosse a última produção do dia e que fizesse algo fácil de retocar para um compromisso na manhã seguinte, mas que ainda deixasse Dafne deslumbrante.

– Menina, essa garota é tão bonita que, se eu enfiar ela debaixo do chuveiro, com maquiagem borrada, cabelo desgrenhado e pingando laquê, ainda assim vai sair maravilhosa. Mas eu entendi o que você quer.

Gabriel era ótimo no que fazia e absurdamente engraçado. Também era a primeira vez que conseguia interagir tanto com Cristina, o que o deixava visivelmente feliz, já que cuidava dela desde os quatro anos de idade.

Ele retocou também a própria Cristina. Quando as duas ficaram prontas ao mesmo tempo, levantaram-se, se olharam e se admiraram.

– Olha, eu sei reconhecer certas coisas. Tenho certeza de que essa produção não está à prova de sexo. Durmam em quartos separados esta noite – cochichou Gabriel no ouvido de Cristina, rindo, e a deixou tão surpresa que ela nem soube responder.

Cristina pagou o serviço, que equivalia a quase dois anos do salário que Dafne tinha recebido na lanchonete, e todos se despediram. Ela prometeu voltar em breve para se preparar para o jantar de noivado, Gabriel pulou de felicidade e as duas saíram já de noite.

A missão agora era comprar roupas em pouco tempo. Cristina tinha uma loja favorita, mas achava que, para o estilo de Dafne, precisaria ir a outro lugar. E sabia exatamente qual.

No primeiro momento, ao entrarem, sem explicar muito bem o que queriam, foram deixadas um pouco de lado. Um outro vendedor, no entanto, percebeu o potencial da situação. Reparou que elas vinham produzidas de salão e, entendendo que duas garotas tinham acabado de fechar o único salão do shopping, apareceu com um par de looks completos que era exatamente o que Cristina tinha imaginado.

– Você lê pensamentos? – perguntou ela.

– Queria muito. Mas, por enquanto, leio mais ou menos bem as pessoas – respondeu ele.

– Se isso é mais ou menos, imagino o que seria ler bem. Qual é o seu nome?

– Cléber.

A voz dele era firme, mas tranquila.

– Muito bem, Cléber. Em breve pretendo contratar alguém para a minha equipe de moda. Hoje quero montar um novo guarda-roupa para ela e uma ou duas composições para mim. Se você for muito bom nisso, além de uma boa venda, nós ainda podemos conversar sobre uma ótima mudança de emprego.

O rapaz pediu licença, subiu para o estoque super empolgado e deixou Dafne sem entender.

– Cris, o que faz você achar que ele vai acreditar numa garota como você falando de emprego melhor? Como você pagaria mais para ele do que uma loja dessas?

– Porque, infelizmente, eu sei que essa loja só é grande e famosa porque ele precisa vender produtos caríssimos para ganhar um salário que talvez chegue ao valor de uma ou duas dessas peças. Pela postura e pela leitura que ele fez da situação, sei que ele percebeu que vou gastar aqui o equivalente a três ou quatro salários dele hoje. E também sei que eu poderia pagar mais, oferecendo ainda melhor qualidade de vida, porque, para mim, ele não seria apenas um número, como é para essa loja grande e famosa.

Dafne achava Cristina extremamente inteligente e se impressionava com a forma como ela conseguia pensar e explicar tudo.

– Se é assim, por que você vai comprar nessa loja?

– Eu não compro. Essa é uma exceção rara. Porque a Viviane não pensa como eu. E ter em você o status idiota que essa marca representa pode ser um primeiro mecanismo de aproximação entre vocês.

As duas ficaram tristes ao vocalizar aquela realidade. Mas a tristeza durou pouco, porque Cléber voltou radiante.

Depois de prova sobre prova, as compras terminaram. Cléber ficou muito satisfeito, mesmo tendo permanecido além do próprio horário de trabalho. Passou o contato para Cristina e as duas foram embora. Ainda queriam fazer fotos noturnas.

A sintonia entre elas era impressionante. Por insistência de Dafne, tiraram também fotos juntas, e tudo saiu com muita naturalidade.

De volta ao estúdio improvisado no porão da casa de Cristina, Dafne adormeceu no sofá, exausta, enquanto a mais nova produtora do mundo compartilhava o material nas redes sociais recém-criadas da influenciadora que acabava de nascer.

E o dia seguinte ainda seria um novo dia no shopping.

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