Capítulo 21
Capítulo 21
O Shopping
Dafne praticamente não dormiu naquela noite. Era, para ela, o dia mais importante da sua vida. Se conseguisse conquistar a mãe de Nicolas, não haveria volta: o destino com que sonhava estaria garantido. A ideia de tornar-se influenciadora, criada por Cristina, a animava muito, mas, se ela não se tornasse madrinha daquele casamento, tudo poderia desmoronar. E, para ser madrinha, precisava da bênção de Viviane.
Naquela noite, dormiu na casa de Cristina. Diferentemente do que o cabeleireiro insinuara no dia anterior, não havia risco de as duas se relacionarem. Dafne era profissional demais para isso. Sempre que sentia que alguma possibilidade podia ameaçar seus interesses, passava a sentir repulsa na hora.
Não que Cristina deixasse de sentir coisas que não esperava: um frio na barriga num toque inesperado de mãos, um interesse estranho nos momentos em que trocavam de roupa, sensações que nunca tivera com nenhuma outra amiga. Mas, quando estavam sozinhas, Dafne se comportava como uma melhor amiga que jamais cogitaria ultrapassar aquela linha. E Cristina também gostava disso. Afinal, até ali, a única amizade que realmente tinha tido, ao menos na sua visão, era com Nicolas.
– Cris, acorda. Cris, acorda! Cris, acorda!
O Sol ainda não havia invadido o vão da janela. Nem o despertador tinha tocado.
– O que foi, Daf? Você está bem? – perguntou Cristina, assustada.
– Estou. A gente precisa levantar para se arrumar.
– Minha nossa, mas é muito cedo. Você enlouqueceu? A Viviane marcou um almoço. Não devem ser nem sete da manhã ainda – reclamou Cristina, inconformada por já não terem dormido cedo.
– Deixa de ser preguiçosa. A gente precisa levantar, tomar um bom café da manhã, despertar de verdade e começar a produção. Retocar tudo o que fizemos ontem não vai ser fácil.
Enquanto falava, Dafne começou a fazer cócegas em Cristina, algo que ela odiava. Mas aquele foi o primeiro contato físico mais intenso entre as duas desde o episódio muito mais intenso anterior, e isso a despertou em todos os sentidos.
– Está bom, Dafne, tudo bem, já acordei! – respondeu, rindo e tentando conter o impulso de beijá-la.
Dafne sabia de tudo isso. Sabia exatamente a sensação que provocava em Cristina. Percebia cada impulso, cada hesitação. Às vezes até sentia vontade também. Mas, para ela, manter o desejo reprimido e condicionar qualquer possibilidade de algo acontecer apenas à presença dos rapazes era uma forma de garantir a manutenção da situação. Permitir que Cristina se apaixonasse e chegasse a cogitar trocar Nicolas por ela seria tentador, mas perigoso demais. Que família multimilionária aceitaria, com naturalidade, que a herdeira se assumisse homossexual ainda jovem, abrindo mão da fusão de sua fortuna com outra família tradicional e igualmente rica? Talvez algumas aceitassem. Mas certamente não aceitariam alguém com a origem e a condição de Dafne. Nem pensar. Ela não arriscaria.
O plano, agora, era outro: conquistar Viviane, sendo quem era de verdade. Não podia mentir. Precisava ser perfeita.
– O que é isso? Para onde vão tão cedo? – perguntou Rose, a empregada da casa.
Rose era o coração dali. Tudo passava por ela: professores particulares de Cristina, secretários e assessores da mãe, do desjejum à ceia, do hospital ao supermercado, do pagamento de contas à contratação de funcionários. Era uma espécie de evolução moderna da governanta clássica. Pequena, magra, de origem chinesa, rosto fino, sempre bem vestida e impecavelmente arrumada. Mudava o cabelo com frequência, mas jamais deixava de combiná-lo com a roupa. Para ela, se existiam regras, elas deviam ser cumpridas. E acordar mais cedo, evidentemente, exigia uma justificativa.
– Mas, Rose, se a gente acorda mais tarde precisa de um motivo. Se acorda mais cedo também? – rebateu Cristina, já contrariando a funcionária antes mesmo de responder. Enquanto falava, pegou uma maçã da mesa que estava sendo montada e quase levou um tapa na mão.
– Mas é claro. Para isso existe o horário. O simples fato de ser mais cedo ou mais tarde já demonstra, com antecedência, que há um erro.
Seria ela um robô? Dafne praticamente pensou alto. Cristina entendeu pela troca de olhar, e as duas riram.
– Vocês riem, né? E agora eu preciso refazer a mesa inteira porque vocês vão bagunçar tudo enquanto eu ainda estou arrumando – continuou Rose.
– Mas ninguém faz refeição nessa mesa. Nem sei por que você continua montando – provocou Dafne.
– Ah, é? Esqueceu que, semana passada, na quinta-feira, você, sua mãe e seu pai resolveram aparecer na mesa no horário certo? E ela estava pronta. Como eu vou adivinhar o dia em que isso vai acontecer? Vou ter que perguntar na noite anterior? Claro que não. Não me diz respeito se meus patrões acordam e querem tomar café na mesma hora. Cabe a mim deixar tudo pronto, a não ser que eu receba ordens diferentes.
Rose seria funcionária do mês em qualquer empresa. E isso era algo de que Ana não abria mão. Seus funcionários precisavam ser os melhores. Ela pagava acima da média, reconhecia, bonificava, promovia e premiava. Não economizava quando o assunto era manter excelência.
– Um funcionário, filha. Um único funcionário pode jogar no lixo o nome de uma empresa que levou eras para se erguer. Não existe preço alto demais para garantir que você tenha sempre os melhores ao seu lado.
Esse era um dos discursos prontos da mãe que Cristina mais escutava.
Depois de comerem, praticamente assaltando a mesa e a geladeira e escapando por pouco de alguns safanões de Rose, as duas começaram a se produzir.
Dafne queria uma aparência digna de estrela de cinema, mas sem parecer exagerada. E ainda precisava garantir que Cristina estivesse no mesmo nível, para não sobressair demais.
Quando finalmente ficaram prontas, quase no horário combinado, chegou o aviso de que o motorista já as aguardava.
Desceram em direção à entrada da casa como se houvesse uma trilha sonora acompanhando seus passos em câmera lenta. O motorista enviado por Viviane, já conhecido delas, elogiou as duas com cordialidade, desejou bom dia e as acomodou no carro luxuoso.
O trajeto era curto. Dessa vez, iriam a um shopping diferente do dia anterior.
Dafne não conseguia esconder a ansiedade. Mãos suadas, silêncio absoluto, o coração quase saltando pela boca. Cristina nunca a tinha visto daquele jeito. Parecia que estava indo decidir a própria vida de uma vez.
Mas, ao se aproximarem da entrada do restaurante e avistarem Viviane sentada à mesa, Dafne mudou completamente. Cristina percebeu então que tinha entendido tudo errado. Dafne não parecia alguém prestes a viver um primeiro encontro. Parecia uma atriz prestes a entrar em cena numa grande peça, diante de uma plateia VIP, sendo a estrela principal. A postura mudou. A energia mudou. O andar mudou. Era como se tivesse vestido, por dentro, a mulher que queria se tornar.
Elas se cumprimentaram, sorriram, trocaram gentilezas. Cristina apresentou Dafne, Viviane lhe deu boas-vindas e as três se sentaram.
– Tomei a liberdade de já pedir meu prato, meninas. Mil perdões, mas conheço muito bem este lugar e sou amiga do chef. Sei que, embora delicioso, meu prato preferido demora demais para ser feito exatamente do jeito que eu gosto. Ele precisa usar ingredientes fresquíssimos, vai correr como um maluco, brigar com pelo menos cinco cozinheiros, fazer malabarismo com panelas e me entregar pessoalmente, com o avental impecável, algo que nenhum outro chef faria com esse nível de sabor. Mesmo assim, continua sendo o prato mais demorado da casa. Ele o removeu do cardápio, mas sempre o faz para mim quando eu venho. Sintam-se à vontade para escolher o que quiserem.
Dafne tinha se preparado muito para aquele momento, mas a classe de Viviane ainda a deixava atônita. O sorriso admirado que ofereceu em resposta era quase gritante. Ela e Cristina agradeceram e abriram o cardápio. Dafne apenas folheou. Já tinha estudado tudo antes, na internet, e escolhido o prato com minúcia.
Ela seguia o perfil de Viviane nas redes e já sabia qual prato a outra costumava pedir ali, assim como as sugestões que costumava dar. Uma delas indicava o salmão para quem quisesse algo leve, saboroso e elegante. Cristina fez também uma boa escolha, mas o olhar e o sorriso que Viviane lançou a Dafne foram mais saborosos do que qualquer prato poderia ser.
Quando o chef Ducato apareceu pessoalmente para servir a mesa, tudo se desenrolou exatamente como Viviane havia descrito. A cordialidade dele beirava a reverência. Comeram bem. Falaram apenas de trivialidades, nada sobre família, outra lição de casa que Dafne já tinha feito com base nas redes sociais de Viviane. Ela sabia o que a outra assistia, o que pretendia assistir, que livros indicava, que pessoas admirava. E comentava tudo sem parecer uma perseguidora. A etapa do almoço tinha corrido como ela queria.
Ao terminarem a sobremesa, igualmente leve e sem risco de causar má impressão, Viviane se levantou e convidou:
– Vamos?
– Vivi, não é correto pedir a conta? – perguntou Cristina, inocentemente.
– Cris, meu amor, minha conta aqui está em débito automático. O senhor Ducato faz a cobrança diretamente. E eu ainda peço para ele adicionar cinquenta por cento e distribuir à equipe como gorjeta. Fique tranquila.
Dafne sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Achava aquela mulher incomparável.
Quando começaram a andar, toda a equipe do restaurante a cumprimentou. Em vez de seguir para a saída, porém, Viviane foi até a porta da cozinha. Um dos garçons abriu a passagem e chamou o chef. Ele olhou para trás, desligou o fogo e fez um gesto. Toda a equipe fez o mesmo.
– Chef Ducato, parabéns mais uma vez. Não parem, por favor, para não comprometer os pratos magníficos que produzem. Sem dúvida, o melhor restaurante do país. Continuarei elogiando sempre. Nunca, nunca me decepcionam. Minha nora já virou cliente, e farei questão de que, toda vez que ela e meu filho vierem, tudo seja cobrado na minha conta, com o mesmo padrão de gorjeta para a sua maravilhosa equipe. Tenham um excelente dia!
O chef se mostrou emocionado e agradecido. Assim que ela se virou, ouviu-se um burburinho admirado e a voz dele ecoou:
– Nossa melhor cliente elogiou novamente! Parabéns a todos! Agora vamos voltar ao trabalho. Com excelência. Sempre!
Dafne só conseguia pensar no que significava ser a melhor cliente de um dos restaurantes mais renomados do país. Aquilo, para ela, valia mais do que joia. Era senha de entrada.
Saíram dali e caminharam lentamente pelo shopping. Apesar da postura que tinha assumido, e que Cristina já percebera, Dafne começou a notar que havia algo diferente em Viviane. Algo nela fazia com que o próprio poder se tornasse visível. Ela parecia produzir câmera lenta ao seu redor.
– Percebi que você me analisou e mudou o jeito de andar, Dafne. Muito perspicaz da sua parte – disse Viviane.
– Você notou? Realmente, sua forma de andar transmite o quanto você é poderosa – respondeu Dafne, arrependendo-se na mesma hora. Tinha ido tão bem até ali. Parecia fã demais. E isso podia fazê-la cair de nível aos olhos de Viviane.
– O que vou dizer pode soar preconceituoso, minha querida, mas não é. Espero que não entenda assim. Repare: este é um shopping de elite. A maioria das pessoas aqui anda como eu. Quem anda com pressa, neste lugar, normalmente ou não é daqui da região, ou é funcionário das lojas e do shopping.
Dafne passou a observar ao redor e percebeu que aquilo fazia sentido.
– Uma pessoa rica de verdade, rica a ponto de poder comprar uma das maiores empresas do país, incendiá-la e, ainda assim, garantir dinheiro suficiente para que as próximas gerações nunca precisem trabalhar, essa pessoa jamais anda correndo. Não precisa de pressa. Não vai perder o último ônibus. Não vai chegar atrasada para bater ponto porque teve que ajudar o filho numa tarefa de escola de última hora. Você entende o que eu quero dizer?
Dafne entendia muito bem. Era a sua rotina inteira. Apenas assentiu, em silêncio.
– O pobre já nasce correndo. O rico nasce com calma. E, quando algo não está planejado, passa a ser. Eu posso passar o dia respirando, admirando a vida, prestando atenção aos detalhes. Tenho sorte por isso. E não pretendo desperdiçar.
Elas entraram então numa loja completamente diferente de qualquer outra em que Cristina ou Dafne já tinham estado. Parecia um clube. A iluminação criava uma atmosfera que misturava paraíso e inferno, com o melhor que os dois mundos poderiam oferecer.
A loja estava inteiramente vazia.
– Philip, tudo certo, como combinamos? – perguntou Viviane. Não parecia gostar de admitir que tinha reservado a visita, mas quis ouvir a confirmação.
– Claro, senhora Viviane. Tudo separado como a senhora pediu.
Viviane já tinha selecionado coleções inteiras. Dali sairiam as roupas dos noivos, dos pais e dos padrinhos.
– Cristina, você vai escolher a sua roupa. Dafne vai te ajudar. Depois disso, a partir da sua escolha, vamos definir as possibilidades permitidas para pais e padrinhos dentro de um nicho de combinações.
– Minha mãe vai odiar isso – respondeu Cristina. Então olhou para Viviane, ponderou por meio segundo e concluiu: – Então eu ameeeei!
Empolgou-se. E empolgou Viviane também, que bateu algumas palmas, saindo da compostura pela primeira vez.
Depois de uma pequena batalha para escolher o primeiro vestido, Cristina foi ao provador. Foi o primeiro momento em que Dafne ficou sozinha com Viviane.
– Imagino que você será a primeira madrinha, pela intimidade que percebi entre vocês – disse Viviane, encarando-a diretamente. Era intimidante.
– Ela ainda não falou disso comigo. Existem muitos fatores que ela precisa considerar – respondeu Dafne, cheia de humildade calculada.
– E você é uma garota muito inteligente, Dafne. Muito inteligente. E é por isso que resolvi investir em você.
Os olhos de Dafne brilharam. Nesse momento, Cristina saiu do provador perguntando como estava. Parecia uma fada de conto de fadas.
– Amiga, definitivamente não – disse Dafne de imediato, para a frustração dela, que voltou para a cabine.
– Como eu estava dizendo, já investiguei você e também o seu namorado, o melhor “amigo” de Nicolas. Como deve ter percebido, meu amor, eu não sou boba. E há apenas uma coisa à qual me dedico com devoção absoluta: a minha imagem.
A fala foi interrompida por mais uma saída de Cristina do provador. O vestido agradou ao atendente, mas não empolgou nenhuma das duas.
– Eu acredito que você tem um plano. E gosto dele. Tem tudo para dar certo. Hoje em dia, a imagem de pobres que ascendem por mérito próprio, como vencedores, é algo muito atraente. E você não é uma qualquer. Tem iniciativa, é linda, fala bem, sabe o que quer.
Dafne se sentia lisonjeada. Cristina, ao lado, já perdia o terceiro look. Mesmo assim, naquele instante, Dafne mal conseguia olhar para a amiga. Só conseguia pensar que estava sendo escolhida.
– Quero que você saiba que já tinha o meu apoio antes de hoje. Mas, depois deste encontro, percebi o quanto você se preparou. E isso lhe deu uma sobrevida ainda maior. Só que, ao menor deslize, no primeiro momento em que eu perceber que vocês podem arranhar a imagem deste casamento, eu acabo com vocês. Com todas as minhas forças. Então é melhor que você se esforce muito para fazer tudo dar certo. Quero que a imagem de vencedores de você e do seu “namorado” seja duradoura. E, no que não me prejudicar, pode contar com a minha ajuda. Mais um detalhe: a família de vocês não deve aparecer no nosso entorno social de maneira nenhuma. Estamos entendidas?
Dafne apenas concordou e agradeceu, antes que Cristina saísse de novo do provador e, dessa vez, finalmente surpreendesse as duas.
– Meu Deus, nem parece ela – escapou da boca de Dafne, arrancando uma gargalhada alta de Viviane.
– Temos uma vencedora de longe. Nem precisamos escolher mais. Agora é a nossa vez – decretou Viviane.