Capítulo 24
Capítulo 24
Uma Nova Amizade
No começo, quem mandou mensagem foi um secretário de Karina. Confirmou que se tratava mesmo de Jobson, fez algumas perguntas triviais, pediu autorização para aprofundar um pouco mais e seguiu com outras questões. No fim, agradeceu e avisou que a equipe voltaria a entrar em contato caso considerasse interessante incluí-lo com mais destaque na matéria.
Jobson continuou vivendo a própria vida. Nos dias e semanas seguintes, a rotina pouco mudou. Voltou a conversar com Nicolas, ainda sem a antiga intimidade, mas de um jeito mais amistoso. A última vez em que se viram pessoalmente tinha sido na noite do jantar e, naquela ocasião, os dois se envolveram menos. Dedicaram-se mais às meninas, enquanto elas trocavam muitos carinhos entre si. Eles ficaram mais distantes dessa vez. Jobson chegou a achar que aquilo era o mais natural.
Viu Dafne duas vezes. Saíram ao shopping, que era, afinal, o programa favorito dela. Era praticamente o único passeio que faziam como casal. Ela era uma boa garota. A mãe de Jobson começava a reclamar que certos problemas da comunidade surgiam justamente da tentativa de resolver outros e que, no fundo, nada daquilo realmente se ajustava àquele lugar. Pela primeira vez, ele começou a imaginar se não poderiam se mudar.
Quando tocou no assunto, a mãe quase teve um troço.
– Meu filho do céu! Esse é o sonho da sua mãe! Se você arrumar um jeito de isso acontecer, vai me fazer a mulher mais feliz do mundo.
Ela praticamente entrou em surto de alegria. Começou a contar para todo mundo que o filho ia conseguir tirá-la dali. Jobson pediu que parasse. Não por superstição, medo de olho gordo ou qualquer crença sobrenatural, embora a avó falasse muito nisso, mas porque sabia que ali existia todo tipo de gente. E qualquer mínima ascensão já chamava atenção para golpes, invejas e armadilhas. Lembrou-se de um ditado do avô: “Prego que se destaca, leva martelada”. E, naquele lugar, qualquer suspiro já era destaque. A mãe ficou um pouco triste, mas entendeu.
– Espero que você não tenha falado da boca para fora, Jó!
Não tinha falado. Só ainda não fazia ideia de como aquilo poderia acontecer.
Na manhã seguinte, indo para o trabalho com esse pensamento e olhando no celular possíveis lugares para alugar, recebeu uma ligação de número desconhecido. Normalmente não atendia, mas, como já estava com os olhos na tela, acabou atendendo sem pensar.
A conversa foi assim:
– Jobson?
– É ele. Quem está falando?
– Aqui é Karina Costa, tudo bem?
– Oi, Karina, tudo bem. E você?
O coração dele acelerou um pouco. Talvez por achá-la realmente famosa. Talvez porque fosse, de certo modo, fã. Talvez porque ainda não acreditasse muito que pudesse entrar naquela matéria.
– Tudo certo. Veja, meu assistente me passou o material da conversa com você, pesquisou mais um pouco sobre o incêndio e meu editor achou que você seria um excelente exemplo para a matéria. Será que poderia vir hoje, talvez mais para o fim da tarde, até o prédio da revista?
Karina tinha um jeito de despejar muita informação e terminar com uma pergunta direta que Jobson admirou. Parecia sempre saber para onde queria levar a conversa. O problema é que ele ficou mais concentrado em analisar isso do que em pensar no que responder.
– Bom... eu acho que... tudo bem.
– Ótimo. Vou te mandar os detalhes por mensagem, com o endereço, está bem? Até mais tarde.
Ele mal teve tempo de responder, e ela já tinha desligado.
Jobson era jovem, mas aprendera a usar o telefone como os avós usavam. Não falava muito por ligação, como quase toda a gente da geração dele, mas estranhava a ausência de certos rituais. Alô, olá, tchau, fique com Deus, você também, até logo. Para ele, ligações sem introdução e sem despedida ainda soavam abruptas.
Mesmo assim, continuava focando em coisas periféricas. Teria de faltar à aula para ir àquele compromisso. Quer dizer, não era um encontro, era um compromisso.
A imagem de Karina, acompanhada da voz doce dela, lhe voltou à cabeça. Ele suspirou. Na mesma hora se repreendeu. Disse mentalmente a si mesmo que deixasse de ser besta, que aquilo era apenas o trabalho dela. Precisava agir com profissionalismo. Além disso, tinha namorada. Ainda que essa namorada parecesse mais interessada nos benefícios de estar associada ao casal de amigos do que em ser namorada de verdade, ele tinha namorada.
Karina era casada? Namorava? Por um segundo, pensou em procurar aquilo na internet. Logo em seguida, xingou a si mesmo em pensamento e mandou que largasse a mão de ser iludido. Precisava desligar qualquer interesse, qualquer fantasia.
Mas era Karina Costa.
E ele ia encontrá-la naquela tarde.
Só então se deu conta de que não estava preparado. Vestia uma daquelas roupas que faziam parte do lote de doações da igreja, o que ele chamava de roupa de dia qualquer, e não uma das poucas novas que tinha comprado para o trabalho. Estava com a barba por fazer desde o dia anterior. Mesmo que não quisesse impressionar a jornalista, poderia haver fotos. Ele daria conta da carga de trabalho antes do almoço, mas não teria tempo suficiente de voltar para casa no meio da tarde, se arrumar e retornar.
Mandou uma mensagem para Nicolas explicando toda a situação.
– Karina Costa. Quem diria. Ela fez uma sessão de fotos comigo logo depois do jantar de noivado. Também esteve lá. Os pais dela são amigos da minha mãe – respondeu Nicolas em áudio.
Aquilo deixou Jobson um pouco abatido. Seria ele apenas um degrau para aproximá-la de Nicolas?
– De qualquer forma, sobe aqui na minha sala mais no fim da tarde. Você usa o chuveiro daqui e eu te empresto umas roupas. Temos praticamente o mesmo tamanho, então não vai ser problema – disse Nicolas no áudio seguinte.
Jobson agradeceu e concordou. Mas a animação que sentia tinha diminuído bastante.
Pediu ao chefe para sair alguns minutos mais cedo. Contou a verdade sobre o encontro com a jornalista e sobre a ajuda de Nicolas. Ele sempre fazia isso. Nunca dava desculpas.
Autorizado, subiu até o novo andar onde Nicolas trabalhava. Ainda não conhecia aquele espaço. Ficou impressionado. Havia de tudo, até uma área com equipamentos de musculação.
– Depois da reforma, fizeram questão de colocar isso tudo. Disseram que era pela minha imagem, que agora tinha um valor diferente para a própria imagem da empresa – justificou Nicolas logo de cara.
Jobson falou pouco. Tomou um banho rápido num banheiro que parecia cenário de novela, escolheu uma das roupas que já estavam separadas para ele e saiu de lá se sentindo quase outra pessoa.
– Caramba, Karina Costa que se cuide! – brincou Nicolas ao vê-lo pronto. – Espera, falta uma coisa.
Abriu uma gaveta, pegou um perfume e borrifou nele.
– Agora sim.
– Vou indo então, Nick. Muito obrigado. Vou correr porque já estou um pouco atrasado – disse Jobson, despedindo-se.
– E vai como? – perguntou Nicolas.
– De ônibus, ué. Já olhei aqui no aplicativo. Muito bom, aliás.
Naquele dia, mais do que nos outros, Jobson estava completamente disperso.
– Claro que não. Depois de toda essa produção? Você vai de terno de grife de ônibus? Nem pensar.
Nicolas tirou o telefone do gancho.
– Sandra, pode pedir para o Vander? É ele que está aí hoje, não é? Isso. Pede para ele se preparar para levar o Jobson no endereço que ele vai passar, por favor. Ok. Obrigado.
Desligou e completou:
– Pronto. É só descer para a garagem.
Jobson não conseguia acreditar em como tudo parecia mais fácil naquele universo, como tantas coisas se resolviam com um telefonema, ou talvez até com meia palavra. Agradeceu mais uma vez e desceu.
Vander já o esperava fora do carro, com a porta traseira aberta. Cumprimentou-o, fechou a porta depois que ele entrou e partiu para o endereço indicado.
– A revista, né? – perguntou apenas para confirmar.
– Isso mesmo – respondeu Jobson.
Ao chegar, desceu do carro e o motorista avisou que recebera ordem para aguardá-lo ali.
Jobson estranhou, mas aceitou. Identificou-se na recepção, esperando a habitual sequência de verificações e confirmações. Para sua surpresa, a liberação foi imediata.
Não soube dizer se era por causa do motorista no carro importado, do terno de grife, do perfume importado ou da soma de tudo isso. Subiu até o andar indicado e se deparou com um espaço gigantesco.
– Boa noite, senhor Jobson, tudo bem? Aceita uma água?
Uma mulher o recebeu assim que ele saiu do elevador. Aquilo lhe pareceu inacreditável. Recusou a água com um gesto, e ela continuou:
– Eu sou Cléo, recepcionista da senhorita Karina Costa.
O termo senhorita, como música para seus ouvidos, o obrigou a retomar mentalmente uma conversa séria consigo mesmo.
– Venha comigo, por favor. Ela já está à sua espera.
Pela estrutura do escritório, tudo levava a crer que aquele andar inteiro pertencia a Karina. Ele continuava impressionado. A porta estava aberta. Cléo o anunciou e o deixou entrar.
– Karina, como vai? – disse ele, com uma voz que soou quase tão famosa quanto a dela.
– Jobson? É você mesmo? Parece que alguém se preparou bastante. Sente-se, por favor.
Jobson se sentou, mas a constatação dela o deixou um pouco chateado. Sentiu-se, por um instante, como se fosse um personagem fabricado.
– Karina, posso contar um segredo antes de mais nada? – arriscou.
– Claro. O que eu mais gosto são segredos – respondeu ela, rindo, enquanto também se sentava.
– Quando você me ligou, eu estava vestido com o que chamo de roupa de dia qualquer. Faz parte do grupo de roupas que recebi de doação na igreja da comunidade. Ainda não troquei todo o meu guarda-roupa e não tenho roupa boa para todos os dias de trabalho. Também estava com a barba por fazer. Pensei em ir para casa depois do almoço, mas, mesmo usando a tarde toda, não conseguiria voltar aqui a tempo. Aí pedi ajuda a um amigo...
– Se eu sei bem quem é esse amigo, ele é Nicolas Tardivaski, não é? – interrompeu Karina.
– Imagino que você possa estar mais interessada nele para a matéria, não é?
Jobson respondeu com uma pergunta. E isso o fez sorrir, porque lembrou na hora de uma professora que lhe dizia que só pessoas inteligentes contrariavam certas máximas.
– Existe uma regra que diz que nunca se responde a uma pergunta com outra. Não sei se você sabe, mas só gente inteligente faz isso. Gente que percebe a armadilha escondida em certas regras.
Jobson ficou de boca aberta. Era exatamente disso que se lembrara.
– Eu justamente lembrei de uma professora que me ensinou isso.
– Uma pessoa incrível, imagino. Não só por saber, mas por ensinar aos alunos – respondeu Karina. – E, respondendo à sua pergunta, é evidente que o meu interesse em você não passa pelo filho do doutor Tardivaski, embora isso seja uma boa coincidência. Minha família conhece a dele. Vou ter de fazer uma matéria sobre o casamento a pedido da senhora Viviane, como você deve imaginar, já que ela transforma tudo em zona de interesse. Agora, conhecer melhor um rapaz negro, recém-saído da adolescência, que conseguiu emprego numa grande empresa, virou herói ao salvar dezenas de pessoas num incêndio dessa mesma empresa, tornou-se amigo e padrinho de casamento do filho do dono e ainda mora na comunidade, usando roupas doadas para trabalhar e tendo o conhecimento e o nível cultural que já percebi que você tem... isso, sim, me parece uma história interessante de contar.
Tudo o que Karina dizia era verdade. Seu interesse profissional estava mesmo em Jobson. E, ainda assim, ela não deixou transparecer se havia algo além disso. Ele ficou contente com a resposta e, se já tinha começado a se soltar, ali relaxou de vez. Aquilo deixava de parecer entrevista e se aproximava muito mais de um bate-papo amistoso.
Passaram mais de uma hora conversando. Quando Karina começou a encaminhar a conversa para o fim, Jobson se levantou rapidamente, pedindo desculpas caso tivesse falado demais. Ela foi gentil. Disse que era exatamente para isso que o havia chamado. Também se levantou, e Jobson percebeu que só então reparava de fato na roupa dela. Estava discreta, linda, mas nem de longe tão chamativa quanto na última vez que a vira.
– Jobson, mais do que pelo lado profissional... será que nós podemos continuar conversando como amigos? Trocar mensagens? Tenho poucos em quem confio. Nenhum de classe social diferente da minha. E você me lembrou uma parte minha que eu achava perdida. Quem sabe algumas conversas filosóficas de vez em quando?
Karina o surpreendeu.
– Será um imenso prazer – respondeu ele.
Saiu de lá muito contente com o que tinha acabado de acontecer. O motorista o levou para a casa de Nicolas.
“Passe a noite aqui. É mais seguro do que voltar para a sua casa, a essa hora, com essa roupa.” Era a mensagem que Nicolas mandara.
Jobson ligou para a mãe, avisou para que ela não se preocupasse e seguiu o conselho.
Afinal, sabia que, quando um dia era bom demais para alguém pobre, o certo era dar o mínimo possível de chance para o azar reagir. Porque, às vezes, parecia mesmo haver uma compensação misteriosa entre felicidade e desgraça antes que o dia acabasse.