Capítulo 7 Dois Mundos no Mesmo · Capítulo 7 de 28
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Capítulo 7

Capítulo 7

O Trajeto

Todos os dias, mais de uma vez por dia, Jobson e Nicolas passavam pelo mesmo lugar. Nunca tinham se encontrado. Era como se habitassem realidades diferentes, como se, num universo, Jobson passasse por um ponto e, em outro universo paralelo, Nicolas cruzasse pelo mesmo lugar, exatamente no mesmo instante, atravessando um ao outro sem perceber. E, se não fosse uma coincidência do destino, caso coincidências realmente pertençam ao destino, o encontro entre os dois jamais aconteceria.

Jobson levava cinquenta minutos para voltar para casa. Andava não, quase corria. Aliás, essa parecia ser uma qualidade natural de todos os financeiramente desfavorecidos: andar rápido. Por todos os motivos, o pobre aperta o passo. Seja para aproveitar o pouco tempo que tem, seja para fugir de algum perigo que possa estar por perto. Afinal, por menos dinheiro, posses e bens que uma pessoa carregue consigo, ela nunca está segura. Sempre haverá alguém disposto a lhe tirar alguma coisa. Ainda mais onde Jobson morava. Mas a insegurança era inerente, não importava onde estivesse. Porque qualquer coisa que Jobson pudesse perder, nem que fosse tempo, já seria um grande prejuízo.

Naquele mesmo percurso, Nicolas, de carro, com motorista, gastava quinze minutos. O Sol brilhava lá fora, mas Nicolas nem sentia calor. Fechado no ar-condicionado, estava até com frio, vestindo a blusa do agasalho. Jobson derretia, com o suor escorrendo pelo corpo. Os dois se cruzaram perto da praça. Jobson atravessou na faixa de pedestres, e o carro de Nicolas avançou assim que o semáforo abriu. Nem se viram.

Um pouco mais à frente, Jobson se lembrou de que deveria ter ido buscar uns itens da cesta básica de Dona Luíza, uma mulher que sua mãe conhecia e ajudava. Tinha esquecido. Precisaria voltar, e os passos teriam de dobrar de velocidade para compensar. Mais adiante, o carro que cruzara com ele estava parado, com o pneu furado. Fora do veículo, Maycon, o motorista de Nicolas, se atrapalhava entre macaco, chave de roda e celular. Nicolas descia do carro no momento em que Jobson se aproximava.

– Furou, né? – perguntou Nicolas, meio sem jeito. – Quer que eu ligue para os meus pais?

– Não, seu Nicolas, imagina. Fique tranquilo. Eu sou meio atrapalhado com isso aqui, mas já estou ligando para o seguro. Pode ficar dentro do carro – respondeu Maycon.

Jobson não teve como não achar bizarra a situação. Sabia que não tinha nada a ver com aquilo, mas ficou com dó do pobre motorista. Negro, como ele, se compadeceu e pensou que, dependendo do desenrolar daquilo, o homem talvez até perdesse o emprego.

– Ei, sei que não tenho nada a ver com a história, mas, se quiser ajuda, irmão, trabalhei muito tempo em borracharia. Coloco esse estepe em cinco minutos. Fica tranquilo que é na camaradagem, não precisa pagar nada, não. É que estou vendo que você precisa de ajuda – ofereceu Jobson, acostumado a puxar conversa com desconhecidos já se desculpando, para não ser mal interpretado.

– Não, meu amigo, está tranquilo, resolvo isso rapidinho – disse o motorista, colocando a chave de roda na orelha e apontando o celular para a roda.

Nicolas e Jobson se entreolharam e riram juntos.

– Cara, na boa, se você manja mesmo disso aí, vai ajudar bastante a gente – disse Nicolas para Jobson.

Diante da fala do patrão, Maycon deu dois passos para trás e entregou a chave de roda, percebendo enfim que aquilo não era um celular.

Aquele foi o primeiro contato entre dois mundos tão improváveis de se encontrar.

Jobson, que de fato passara um tempo ajudando na borracharia de um amigo do ex-padrasto para ganhar algum trocado, fez o trabalho rapidamente, sem dificuldade, e quase não se sujou.

No fim, Maycon, muito agradecido, elogiou o garoto inúmeras vezes, como se ele lhe tivesse salvado a vida. Nicolas e Jobson sorriram, achando engraçada aquela cena de generosidade exagerada. Jobson insistia em dizer que não tinha sido nada, que só ficava feliz por ter ajudado. Nicolas também agradeceu. Maycon tentou dar uma nota de dez ao rapaz, que recusou, mesmo sabendo o quanto aquilo ajudaria a pagar uma condução e a recuperar parte do tempo perdido. Mas seu orgulho falou mais alto do que a necessidade.

Ali, uma pequena ruptura se abriu entre dois mundos.

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