Capítulo 12
Capítulo 12
O Trabalho
Depois de tudo o que havia acontecido, Nicolas ganhou do pai a oportunidade de começar a trabalhar na empresa. Seriam apenas quatro horas por dia, mas o doutor Carlos achava que já era hora de o filho aprender alguma coisa sobre responsabilidades. Embora, com horário flexível, função sem grandes cobranças, tarefas acessórias e sem qualquer corte na mesada, pelo contrário, com salário registrado, aquilo estivesse longe do que normalmente se chamaria de responsabilidade. Ainda assim, poderia ser bom para o garoto começar a se ambientar ao universo corporativo.
Ao chegar à empresa, Nicolas parecia um chefe. Todos já sabiam que ele viria. Desde o momento em que desceu do carro, com a porta aberta pelo motorista, até a chegada ao anti-penúltimo andar do prédio, onde ficaria sua sala, foi cumprimentado e tratado como uma espécie de ídolo, quase um artista.
Sentou-se à mesa. Ao lado do teclado do computador havia alguns lembretes com orientações. Assim que entrou no sistema, encontrou sugestões de projetos dos quais poderia escolher participar. Todos pareciam promissores e ligados às suas principais áreas de interesse. Acabou se cadastrando na linha de desenvolvimento de um aplicativo de investimentos. Praticamente tudo acontecia no virtual: reuniões, contatos, tarefas.
Na primeira vez em que o telefone tocou, descobriu quem era sua secretária.
– Boa tarde, senhor Nicolas. Aqui é Sandra. Sou assistente da diretoria e serei também sua secretária. Vou repassar seus compromissos e, se precisar de qualquer coisa, é só discar zero no telefone ou clicar no ícone do mensageiro no computador, que você fala comigo. Esse programa também pode ser instalado no seu celular corporativo, basta seguir o passo a passo. Se quiser, posso pedir para alguém acompanhá-lo no almoço e indicar bons lugares para comer – disse uma voz doce do outro lado da linha.
– Nossa, muito obrigado, Sandra. Muito prazer! Você poderia pedir algum prato para mim aqui no escritório mesmo? – perguntou Nicolas.
– Sua mãe comentou que o senhor talvez preferisse isso. Ela pediu que eu providenciasse hoje, mas disse que amanhã seria bom o senhor conhecer melhor as pessoas da empresa e se enturmar.
A fala de Sandra fez Nicolas perder boa parte do entusiasmo que sentia ao imaginar que poderia, enfim, começar a tomar decisões próprias. De novo, ele se via reduzido à condição de criança por intermédio da mãe, agora diante da própria secretária.
O almoço chegou. Era praticamente uma dieta montada por nutricionista: arroz integral, legumes cozidos e salmão. Sua mãe certamente pedira algo que amenizasse uma possível reclamação. Ela mesma nem devia saber que ele gostava tanto de salmão.
Logo o expediente terminou. Nicolas até ficaria mais tempo. Achou interessantes os processos de criação dos quais começava a participar. Mas os afazeres adolescentes continuavam ocupando a agenda. Ainda precisava cumprir seus rituais intermináveis. Pensou que talvez já fosse hora de reivindicar um pouco mais de independência, e aquela nova vida de trabalhador lhe parecia uma excelente oportunidade para isso. Decidiu que conversaria com o pai. Ligou para a secretária:
– Sandra, será que você poderia avisar ao meu pai que vou até lá vê-lo? – pediu.
– Senhor Nicolas, seu pai não está na empresa. Está em reunião com um acionista e não volta mais hoje. Amanhã a agenda dele também está lotada. Talvez seja mais fácil, se o senhor conseguir, falar com ele em casa.
A resposta da secretária deixava evidente, para Nicolas, a sua triste realidade: ele nunca conseguia falar com o pai. A chance de conversarem em casa era menor do que a de marcar uma reunião com ele dentro da própria empresa.
Nicolas agradeceu e desligou. Saiu do escritório e seguiu para casa. Ainda teria aulas particulares preparatórias para o vestibular, mais uma atividade que passara a fazer parte da rotina.
Mandou mensagem para o pai e para a mãe, dizendo que gostaria, se possível, de conversar com os dois à noite. A mãe respondeu que teriam um evento social e não estariam em casa. Pediu então que ele dissesse logo o que era. Nicolas respondeu que não era nada demais, que estava com saudade e queria apenas conversar sobre o primeiro dia de trabalho. Ela não deu muita importância à resposta e disse que ele poderia fazer isso em qualquer outro momento.
Nicolas não era muito persistente em quase nada. Insistir, para ele, sempre parecia uma forma de humilhação para alcançar algum objetivo, e ele não sabia agir assim. Foi dormir sem pensar mais no assunto.