Capítulo 15
Capítulo 15
O Incêndio
Vez ou outra, eles se cruzavam de longe. O horário de entrada no trabalho era próximo, mas, na saída, era mais difícil. Nicolas saía mais cedo do que Jobson. Ainda assim, os dois não tinham voltado sequer a se cumprimentar.
A rotina de ambos foi ficando mais comum, mais natural, sem grandes novidades. Até que, num daqueles dias em que tudo parecia seguir igual, a repetição foi quebrada de modo trágico. Uma explosão elétrica no prédio provocou um incêndio de grandes proporções em plena tarde, no auge do expediente, quando o edifício estava cheio de funcionários.
O desastre começou no meio do prédio. Quem estava nos andares mais baixos, incluindo Jobson, conseguiu ser evacuado rapidamente. Mas quem estava na parte alta, principalmente o alto escalão da empresa, incluindo Nicolas, ficou preso.
Jobson estava muito perto da região em que o fogo se alastrava com mais força. Ao entrar na escada de emergência, hesitou. Deveria simplesmente descer? Tinha treinamento básico de brigada de incêndio, uma das muitas coisas que aprendera nos inúmeros bicos que já fizera, e sabia exatamente o que fazer. Preocupou-se ao notar que não havia ninguém subindo, ninguém organizando a evacuação, indicando procedimentos de proteção. Duvidou até mesmo que a empresa tivesse uma brigada. Se não tivesse, muita gente ainda correria risco de vida antes de os bombeiros chegarem.
Resolveu subir. O piso superior estava tomado por fogo e fumaça. O prédio tinha portas corta-fogo em cada andar, mas a escada não seguia o padrão ideal: ela não ligava diretamente todos os pisos com proteção, o que obrigava quem subia a acessar o andar para alcançar a escada seguinte. O problema é que a porta do andar da explosão estava emperrada e fervendo. Provavelmente, o fogo já tinha consumido tudo ali.
Jobson desceu um nível. Aquele escritório, como alguns outros, tinha acesso a uma segunda escada do lado oposto. Eram três andares interligados. As pessoas tentaram escapar por ali, mas, no piso abaixo da explosão, o fogo já havia se espalhado e o teto começava a ceder. Os extintores, aparentemente, estavam vencidos. Tentavam acioná-los e nada saía. Formou-se uma aglomeração perto da porta. Uma pessoa tentou atravessar as chamas, queimou-se gravemente e caiu no meio do fogo. A gritaria explodiu. Alguém queria correr para tirá-la dali; outros impediam, com medo de que mais uma vida se perdesse.
Do outro lado, Jobson gritou o mais alto que conseguiu:
– Esperem! Se acalmem!
Fez-se silêncio.
– O socorro já está a caminho! Esse homem está mais perto do meu lado! Vou testar o extintor daqui! Se der, molhem peças de roupa no banheiro, blusas, qualquer coisa, e coloquem no rosto para evitar a fumaça! E se espalhem! Não fiquem todos na porta!
Sua voz grave, firme, não sugeria a idade que tinha. Era imponente, segura.
– Vamos! Vocês ouviram! – alguém respondeu do outro lado. E, ao que parecia, seguiram a orientação.
Jobson tirou a camisa e a amarrou na cabeça para proteger a respiração. Foi até o extintor e testou. Estava funcionando. Avançou pelas chamas em direção ao homem caído. O extintor abriu um caminho estreito, o suficiente para que ele puxasse a vítima rapidamente para uma parte mais segura. Mas o fogo já tinha se espalhado demais. Um único extintor não seria capaz de conter aquilo.
Verificou o homem. Ele tinha queimaduras leves, estava desacordado, mas respirava. Jobson o colocou de lado, deitado na escada de emergência, e fechou a porta para impedir que o fogo e a fumaça se espalhassem para baixo.
– Tirei ele do fogo! Está vivo! Está respirando! – gritou para os outros, que comemoraram do outro lado. – Fiquem abaixados! O mais perto possível do chão!
E foi exatamente o que fizeram.
Então ele desceu para a sala de baixo. Olhou pela janela e ainda não viu os bombeiros. Ficou debaixo do ponto em que passava a escada do piso superior e começou a bater no teto com uma vassoura. A estrutura de gesso cedeu. Foi testando os arredores até encontrar um ponto em que o calor tivesse fragilizado o material o bastante para quebrá-lo com mais facilidade. Achou uma área mais oca. Empilhou duas mesas, subiu nelas com o extintor na mão e começou a bater até abrir um pequeno buraco. Alguém lá em cima viu.
– Peguem os extintores e batam aqui para aumentar essa abertura! – gritou ele pela passagem, saindo logo debaixo.
Os outros fizeram o que ele mandou. Quando finalmente avistou pela janela o caminhão dos bombeiros chegando, eles já tinham conseguido abrir no teto um espaço suficiente para passar. As pessoas foram descendo por ali, uma a uma, inclusive Nicolas. Ao vê-lo, Nicolas se surpreendeu: o salvador era Jobson. E se espantou ainda mais ao perceber, assim como os demais, que o articulador de tudo aquilo era apenas um garoto.
No momento em que os bombeiros chegaram ao andar, uma nova explosão aconteceu. Por pouco não atingiu todo mundo.
Os bombeiros socorreram a todos, ofereceram oxigênio e levaram ao hospital os que precisavam cuidar das queimaduras. Jobson talvez também precisasse, mas insistiu que tinha sofrido apenas ferimentos leves. Ficou sentado na calçada, respirando com ajuda do cilindro. Nicolas já estava cercado por seguranças e pela imprensa, sentado numa ambulância.
Foi então que Nicolas falou:
– Acho que existe uma pequena inversão de valores aqui, pessoal. O herói é aquele garoto ali, sentado sozinho na calçada. Foi ele quem arquitetou, sozinho, a forma de salvar todos os que estavam presos lá em cima. Cada pessoa resgatada aqui deve a vida a ele. Não estaríamos vivos se não fosse a coragem dele.
As palavras de Nicolas fizeram toda a atenção dos repórteres se voltar automaticamente para Jobson. E todos perceberam de imediato a força daquela história: um garoto negro, sozinho, tinha salvado grandes nomes milionários, entre acionistas e diretores, dentro de uma megaempresa em chamas.