Capítulo 17
Capítulo 17
Herói de Papel
No dia seguinte, Jobson foi para o trabalho tentando agir como se nada tivesse acontecido. Mas somente as equipes de limpeza e de segurança estavam no prédio. O celular dele não funcionava e sua mãe, cujo número era o contato que ele tinha deixado, também não recebera nenhuma orientação do doutor Ricardo sobre o que deveria ser feito.
Assim que entrou, foi reconhecido pela equipe. Todos pararam o que estavam fazendo e começaram a aplaudi-lo.
Jobson ficou completamente sem graça. Um dos seguranças se aproximou, cumprimentou-o e o conduziu para outra área.
– Você não está acostumado com a fama, né? – perguntou o homem, abrindo a porta de uma sala vazia antes de entrarem.
– Não, definitivamente não – respondeu Jobson.
– Me chamo Glauber, sou o chefe dos seguranças. Achei melhor trazer você para cá. Você trabalha nos escritórios, não trabalha? Jovem aprendiz, estagiário, alguma coisa assim, não é?
Jobson respondeu apenas com a cabeça. Tinha receio de explicar que nem ele mesmo sabia direito qual era sua função e já estava acostumado a falar o mínimo possível diante de qualquer figura repressiva, ainda mais armada.
Glauber percebeu rapidamente o desconforto do rapaz. E, embora se esforçasse para parecer apenas gentil, não era movido só por boa vontade. Queria somar pontos com os superiores, aproximando-se do herói do incêndio e, quem sabe, posando depois como alguém que o ajudara.
– Imagino que você esteja intimidado pelo fato de eu ser uma autoridade. Você me parece um jovem humilde, alguém que já sofreu muito nessa vida. Mas eu estou aqui como um homem que quer ser amigo de um garoto guerreiro, que enfrentou riscos enormes, de todo tipo, para salvar vidas. Porque acho que alguém como você merece ser recompensado. Eu também vim de origem muito pobre, sei como isso é. Está na hora de você aproveitar o reconhecimento do seu mérito e abraçar o que merece. Com humildade, claro.
A fala de Glauber denunciava o quanto ele se esforçava para soar amistoso, mais até do que devia estar acostumado.
– Obrigado, mas eu fiz o que qualquer um faria – respondeu Jobson, sorrindo.
– Muito bem. Não perca esse discurso. Mas também não deixe de permitir que reconheçam o fato de que você foi, de verdade, um herói. Eu vou levar você à diretoria quando eles chegarem. Alguns membros vêm hoje inspecionar a estrutura com uma equipe. Você pode ir para casa, claro. Mas, se ficar, a gente pode fazer as coisas andarem da maneira certa para que você aproveite, pelo menos um pouco, essa enorme oportunidade que a sua coragem criou.
Naquela conversa, Glauber já tinha conquistado completamente a confiança de Jobson, que passou a acreditar que talvez fosse mesmo interessante seguir aquela linha. Já estava ali de qualquer forma. Talvez ainda pudesse ser útil. Sua maior preocupação era outra: ter o dia descontado.
– Venha. Você vai ficar com o Fábio, na sala de monitoramento. Tenho certeza de que ele tem um estoque de doces escondido lá que você vai adorar.
Abriu a porta e os dois seguiram. Jobson achou estranha a existência daquela sala. Parecia muito um espaço de averiguação, daqueles para onde se levam suspeitos a fim de um interrogatório informal. Eles cruzaram o pátio sob os olhos de todos, subiram alguns lances de escada, passaram por uma porta, depois por um corredor, outra porta, outro corredor, até chegar à entrada da sala de monitoramento, que se abriu assim que se aproximaram.
– Fala, Fabinho, tudo certo? Meu irmão, você está cada vez maior. Vou ter que pedir para seu Alberto comprar outra cadeira, senão qualquer dia você fica instalado nessa aí – brincou Glauber, zombando do peso do colega. Para Jobson, o diminutivo usado para um homem tão grande tinha claramente um tom pejorativo. – Olha quem eu trouxe: nosso herói. Prometi que, até a diretoria chegar, ele poderia ficar com você, aproveitando o seu estoque infinito de doces.
Fábio olhou feliz para o garoto e, ao ouvir a parte dos doces, fez uma expressão de criança que acabara de ter o pirulito roubado.
– Muito prazer! Jobson, não é? Que alegria poder dividir meu espaço de trabalho com você por um tempo!
A voz e o jeito carinhoso de falar fizeram Jobson pensar que talvez realmente fizesse sentido chamá-lo de Fabinho.
– Poxa, que legal. Não vou incomodar mesmo ficando por aqui? – perguntou Jobson, ainda um pouco claustrofóbico com o tamanho do lugar e querendo, no fundo, não permanecer ali por muito tempo.
– Claro que não! Vou até dividir meus doces com você. E o Glauber vai repor tudo em dobro depois, não vai? Olha, ali tem paçoca, doce de amendoim, doce de leite... e um bolo de milho que a minha mãe fez ontem. Está uma delícia. Fique à vontade.
A simpatia de Fabinho era contagiante. Em pouco tempo, Jobson já se sentia em casa. Gostou de observar pelas câmeras tudo o que acontecia e ouviu Fábio lhe mostrar os macetes do serviço, os horários em que certas coisas aconteciam, os padrões de comportamento e os sinais do que fugia ao normal. Achou aquele trabalho incrível.
Pouco mais de uma hora depois, a diretoria chegou ao prédio com a equipe de vistoria. Fábio logo avisou que Glauber o chamaria em instantes. E foi exatamente o que aconteceu.
Jobson seguiu até a sala indicada.
– Olha ele aí! O nosso herói! – anunciou Glauber, assim que o garoto entrou, arrancando aplausos de todos, dos diretores à equipe de vistoria.
– Parabéns, filho. Você não salvou apenas a vida das pessoas. Salvou o emprego de todo o resto também – disse um velho careca, com cara de falso. – Qual era mesmo o valor da avaliação do Adalberto? – virou-se para outro engravatado.
– Cento e vinte milhões – respondeu o homem.
– Cento e vinte milhões! – repetiu o careca. – Se esse garoto não tivesse sido o herói que foi e nós tivéssemos esperado os bombeiros, estima-se que, entre processos por danos morais e cobertura de sinistros, o prejuízo seria de cento e vinte milhões. A empresa não teria condições de manter toda a estrutura e hoje não estaríamos discutindo uma reforma.
Jobson se indignou. Aquele homem pensava em cifras, não em vidas. Em números, não em pessoas.
– Com certeza estamos em débito com você – disse outro diretor.
– E esse débito com certeza será pago com possibilidade de crescimento dentro da empresa. Vamos investir pesado no seu desenvolvimento. Temos que valorizar os nossos heróis! – arrematou o careca.
Jobson fez as contas mentalmente. Era bom de matemática. Sabia que anos e anos de trabalho, em qualquer cargo que um dia pudesse alcançar ali dentro, jamais se aproximariam sequer de uma fração razoável daqueles cento e vinte milhões.
– Quem sabe um curso para a equipe de segurança? Seria muito bom ter um herói entre nós – aproveitou Glauber.
– Não é má ideia, Glau. Vamos pensar nisso. Semana que vem temos uma reunião para definir novos protocolos, e ele pode ser nosso garoto-propaganda. Vamos decidir com calma. Obrigado, rapazes – encerrou o diretor.
– Senhor, desculpe... – Jobson interrompeu a saída de Glauber, dirigindo-se ao diretor careca. – Vocês não vão descontar o meu dia de trabalho, vão? Eu não consegui bater o ponto.
Todos riram alto diante da simplicidade do rapaz.
– Fique tranquilo. Você vai receber o salário normalmente e pode ficar em casa. Aliás, vou pedir ao RH que adiante um mês de salário como futura bonificação. Anota aí, Gerson, para pedir à dona Tereza que lance isso. Pode ficar tranquilo, vão ligar para você quando for para voltar – disse o velho, já dando de ombros.
– É que eu fico preocupado... – insistiu Jobson. – Eu não tenho telefone, e minha mãe, trabalhando, nem sempre consegue atender ligação.
Todos se espantaram.
– Glauber, ainda tem aparelhos daqueles que recolhemos dos seguranças terceirizados que tiveram os contratos encerrados? – o careca gritou de longe para o chefe dos seguranças, que respondeu com um gesto positivo. – Perfeito. Pega um e providencia com o TI para deixar pronto para o uso do Jobson. O Fahar está aí, não está? Claro que está. Aquele lá não deve ter saído da empresa nem durante o incêndio. Manda ele resolver isso.
E, antes mesmo de Jobson conseguir agradecer, o diretor já apontava para a equipe e avançava em direção à parte do andar atingida pelo incêndio.
Jobson fez tudo o que lhe indicaram e foi para casa antes do fim do expediente com um celular novinho, de última geração, no bolso. Pensou na hora que precisaria comprar uma calça com bolso de zíper.
Quando contou a história para a mãe, assim que ela voltou do trabalho, a primeira coisa que ela disse foi exatamente o que ele imaginara:
– Comprar calça? Para quê? Dona Firmina coloca zíper nas suas e vai cobrar baratinho. E elas ainda estão novas.
– Mãe, você ouviu a parte em que eu disse que me aplaudiram como herói? – perguntou ele, achando graça no fato de ela ter prestado mais atenção ao último detalhe do que à história toda.
– Filho, heróis de verdade não existem. Só no papel. E o seu papel de herói vai ser usado pela empresa que deixou isso tudo acontecer, justamente por economia, para ainda sair por cima. Você vai ter que aceitar as migalhas que eles derem em troca, e nós ainda vamos agradecer muito por isso. Eu me orgulho demais de quem você é, mas é triste ver o quanto isso se reflete pouco a seu favor e muito mais a favor dos poderosos.
Jobson passou a noite inteira pensando naquilo que a mãe dissera, num momento de lucidez tão cortante. Ainda assim, mesmo com tudo, sentia-se feliz.