Universo da obra
Universo da obra
Folha de rosto JÚLIA LOPES DE ALMEIDA
LIVRO DAS NOIVAS
Desenhos de E. Casanova, Roque Gameiro, Julião Machado e outros
3ª EDIÇÃO
FRANCISCO ALVES & C.ª RIO DE JANEIRO — 166, RUA DO OUVIDOR, 166 1055, RUA DA BAHIA — BELO HORIZONTE RUA DE S. BENTO, 63 — SÃO PAULO
1914
A meu marido
«As nossas almas já Se uniram de tal sorte, Que nem a própria morte Nos desunirá.»
Lírica — Filinto de Almeida.
Meu Filinto,
Lês na minha alma como em um livro aberto. Não tenho pensamento que te não comunique, desejo ou sonho que te não exprima. Ninguém, pois, melhor que tu, conhecerá a sinceridade destas páginas singelas, onde de vez em quando os nossos filhos aparecem, e que te entrego, certa de que serão queridas ao teu coração.
Não te dou um livro literário, mas dou-te um livro sentido, a que segredei todas as minhas alegrias e tristezas.
Tu, que tens, com igual carinho e bom conselho, participado de umas e de outras, acolhe-o bem, que vai nele todo o amor da tua
Júlia.
Estado incerto, dúbio, o da noiva, ao ver aproximar-se a hora do seu casamento.
Tudo em que não pensou durante meses, muitas vezes anos, ocorre-lhe no último dia ao pensamento. Sente-se feliz; sente-se desditosa!
Se realiza o sonho amado da sua mocidade, unindo-se àquele que escolheu como o mais perfeito e o melhor dos homens, chora também por deixar a casa paterna, a mãe idolatrada, que mal disfarça a sua agonia, o pai que a aconselha, comovido, a ser para o futuro tão boa como até então.
Perplexa, nervosa, a noiva duvida da sua ventura, e estremece, sentindo a impressão de quem vai fazer uma viagem para longes terras, de onde talvez não volte.
À sua cisma a mãe acode, beija-a e murmura com esforço:
— A vida começa hoje para ti; até agora foi um sonho, nada mais. Limpa essas lágrimas e tranquiliza-te. Esta casa não deixa de ser tua; nela ficam o teu lugar, e o meu coração.... Ouve-me bem:
Daqui a algumas horas serás de teu marido; o meu egoísmo não bastará para reter-te entre meus braços... vai, segue-o, segue-o até onde ele quiser levar-te, é o teu dever... e a minha mágoa!...
Casas-te com um homem de bem e isto consola-me; rodeia-o sempre de respeito, de afeto, de dignidade; que o nome dele seja para ti um nome puro onde não possa cair mácula. Ama-o, mais do que o amaste até aqui, que o vias através da paixão, sem cogitares do seu caráter, dos seus defeitos, nem das suas virtudes; ama-o sobre todos os amores, porque ele será toda a tua família!
Não te resignes a ser em tua casa um objeto de luxo. A mulher não nasceu só para adorno, nasceu para a luta, para o amor e para o triunfo do mundo inteiro!
Vivendo do coração exclusivamente, expomo-nos aos mais pungentes golpes. Foram para nós inventadas as dores mais cruéis, foram-nos confiadas as mais delicadas missões.
A felicidade humana deriva do que vive sob a nossa responsabilidade. É a nós, como mães, que a pátria suplica bons cidadãos; é de nós, quando esposas, que a sociedade exige o maior exemplo de dignidade e de moral. Com a educação superficialíssima que temos, não meditamos nisto, e levamos de contínuo a queixar-nos de que é nulo o papel que nos confiaram... Como poderíamos, todavia, encontrar outro mais amplo e mais sagrado?
Serás feliz, porque és boa, porque o teu noivo é honesto e é delicado. Mas, como é fácil conduzir-se a gente na ventura e não o é em tempos de obstáculos e decepções, lembra-te sempre de que é preciso aceitar a vida como ela é: hoje um raio de sol, amanhã um raio de tempestade; e estar sempre apercebida para o gozo ou para o sofrimento. É na adversidade que podemos conhecer se o nosso coração é forte ou pusilânime; não te deixes sucumbir pelas eventualidades tristes, se com elas topares, e fortifica com o teu carinho, a tua resignação e a tua altivez, a família que o teu amor escolheu.
A tua fronte ilumina-se, vejo voltar o sorriso aos teus lábios. É que és mulher, tens alma, e compreendes quanto se deve ser forte e serena para traçar na terra um caminho largo e útil.
Não te darei conselhos efêmeros; peço-te só que te lembres sempre dos nossos exemplos:
Teu pai, trabalhador, sincero, sacrificando tudo ao dever, envolvendo qualquer censura em um afago, delicado e amante da família. Eu, simples, associando-me a todas as alegrias e a todas as penas, alerta para o perigo, contente com a minha sorte. Nunca feri ouvidos alheios com uma queixa e muitas vezes tenho-me feito feliz... à força! Não te iludas, meu amor. A vida tem para todos as mesmas surpresas e as mesmas dores. A tua imaginação faz-te sonhar com doçuras infindáveis... e tê-las-ás, se bem compreenderes a tua missão de esposa e de mãe. Ama sempre teu marido, sem humilhação, com sinceridade e alegria. Está nisto o segredo da ventura na terra. Que ele te ame igualmente, com o mesmo extremo, o mesmo carinho, e caminhem assim, fortes, unidos e serenos para os dias de risos ou de lágrimas que hão de vir.
Leia gratuitamente Livro das Noivas, de Júlia Lopes de Almeida, obra brasileira publicada originalmente em 1896. Em três partes e 29 textos, a autora discute educação, leitura, trabalho doméstico, saúde, maternidade e formação feminina. Esta edição do Literunico foi restaurada a partir da terceira edição de 1914 preservada pelo Internet Archive, normalizada em PT-BR moderno, conferida no fac-símile e publicada integralmente no Aurora.
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